Brasil
Nova ofensiva antiambiental: Câmara dos Deputados lança projeto que ameaça 555 mil hectares de áreas protegidas
Deputados avançaram, nos últimos dois meses, em nove projetos que fragilizam proteções ao meio ambiente.
Floresta Amazônica. (Foto: Rafa Neddermeyer / Agência Brasil/Reprodução)
O Congresso Nacional voltou a avançar, com protagonismo da Câmara dos Deputados, em projetos que fragilizam a legislação ambiental e podem reduzir áreas protegidas no Brasil em até 555 mil
hectares —área equivalente a 3,7 vezes a da cidade de São Paulo.
A Folha identificou dez textos aprovados ou que tiveram tramitação acelerada desde maio, quando deputados se mobilizaram em torno de pautas de interesse do agronegócio, no que ficou conhecido entre congressistas e ambientalistas como a semana do agro. Dessas, cinco tentam reverter ou diminuir unidades de conservação e terras indígenas. Os projetos também dificultam a fiscalização contra crimes ambientais e suas punições e abrem espaço para desmatamento.
Deputados avançaram, nos últimos dois meses, em nove projetos que fragilizam proteções ao meio ambiente. A movimentação mais recente ocorreu na última quinta-feira (2), quando foi aprovada na Casa a tramitação sob regime de urgência de um projeto que veda a aplicação de sanções a pequenos produtores que cometerem crimes ambientais.
O projeto enquadra como pequenos produtores fazendas com áreas, sobretudo na Amazônia, que podem chegar a mais de 400 hectares —o que equivale a mais de 600 campos de futebol. No dia 1º, a Câmara já havia aprovado o regime de urgência de outro projeto, que visa eliminar a área terrestre, de 30 mil hectares, da APA (área de proteção ambiental) da Baleia Franca, em Santa Catarina.
Criada em 2000, essa APA inclui trechos terrestres e marítimos e protege ao menos quatro espécies de animais ameaçados de extinção: a baleia-franca, a tartaruga-cabeçuda, a tartaruga verde e a toninha. O ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) emitiu parecer contrário ao texto.
Também no plenário foi aprovada a tramitação acelerada de um projeto que suspende a demarcação das terras indígenas de Toldo Imbu e Morro dos Cavalos, que têm quase 2.000 hectares cada uma.
Localizadas em Santa Catarina , elas foram homologadas pelo presidente Lula (PT) no fim de 2024 , mas são alvos de questionamentos com base na tese do marco temporal.
O texto foi incluído na pauta minutos antes do início da votação no plenário e pegou de surpresa congressistas contrários à proposta, como Sonia Guajajara (PSOL-SP), ex-ministra dos Povos Indígenas. Foi aprovado no dia seguinte. “Quando uma proposta dessa relevância é colocada em regime de urgência, especialmente com pouco tempo de debate, ela reduz o espaço para a participação dos povos indígenas”, avalia Sandra Kaingang, liderança do povo Kaingang de Toldo Imbu. “Decisões sobre nossos territórios precisam ser tomadas com responsabilidade e respeito, porque dizem respeito não apenas aos nossos direitos, mas à proteção da natureza e ao futuro das próximas gerações”, afirma.
Completa o grupo de projetos que diminuem áreas de proteção a redução da Floresta Nacional do Jamanxim em 486 mil hectares, no Pará, colocada em pauta na semana do agro.
OUTRO LADO
A assessoria do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), responsável por definir a pauta do plenário, diz que as votações são resultado de decisões colegiadas construídas em reuniões com os líderes partidários.
Também afirmou que o regime de urgência é um instrumento regimental legítimo. “Longe de inviabilizar o debate, ele transfere a discussão para o Plenário —instância máxima de representação democrática da Casa—, onde todas as correntes políticas têm a oportunidade de debater, apresentar emendas e votar”, acrescenta a assessoria de Motta.
Procurado via assessoria por WhatsApp, no dia 2 deste mês, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), não se manifestou até a publicação desta reportagem.
As propostas têm apoio da bancada ruralista, o grupo mais articulado do Congresso e que reúne mais de 300 deputados e senadores. São os representantes da FPA (Frente Parlamentar da Agropecuária) que pedem, nas reuniões de líderes, ocasiões em que a pauta é definida, a votação dos projetos que fragilizam a lei ambiental.
Procurada, a frente afirma que as agendas abordam segurança jurídica e corrigem distorções.”Não se trata de anistia, liberação de desmatamento ou enfraquecimento da fiscalização, mas de separar quem cumpre a legislação de quem atua na ilegalidade”, diz, em nota.
PROJETOS FRAGILIZAM LEGISLAÇÃO AMBIENTAL
Na semana do agro, também foram chanceladas a proposta que barra ações de
fiscalização do Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e a que dá ao Ministério da Agricultura e Pecuária o poder para interferir na classificação de espécies como invasoras ou ameaçadas, caso elas sejam utilizadas em atividades produtivas.
Os deputados também confirmaram a aprovação nas comissões de um texto que altera o Código Florestal e permite o desmatamento para produção agropecuária em vegetações nativas não florestais.
Segundo o Ministério do Meio Ambiente, esse tipo de vegetação abrange cerca de 50 milhões de hectares, no cerrado, pantanal, pampa, mata atlântica e caatinga, abrangendo inclusive áreas ambientalmente sensíveis.
Dos projetos aprovados pelos deputados, cinco seguem para a etapa seguinte, o Senado, onde, em menor medida, também avançam propostas criticadas por ambientalistas. Os três projetos que tiveram a urgência aprovada estão prontos para votação no plenário, sem precisar passar por comissões. Nas comissões da Câmara, a de Agricultura aprovou um projeto para acabar com a delimitação da terra indígena Tekoha Guasu Guavirá, de 24 mil hectares, no Paraná. Ela ainda precisará ser avaliada por outros colegiados.
Já a de Constituição e Justiça chancelou projeto que extingue a Floresta Nacional de Cristópolis, na Bahia, de 12,8 mil hectares. Caso não haja apresentação de recurso, o texto segue ao Senado.
A Comissão de Agricultura e Reforma Agrária do Senado também aprovou, em junho, uma proposta que cria um rito acelerado que permite desembargar áreas que tenham sido embargadas por crimes ambientais.
Enquanto isso, o Congresso não votou o projeto que reestrutura carreiras e foi uma das demandas da ala ambiental do governo, porque inclui os servidores do ICMBio e do Ibama , cujos quadros apresentam há anos defasagem de remuneração e falta de pessoal. A responsabilidade de pôr o texto em votação é de Alcolumbre.
“O que temos assistido no Congresso é a promoção de um projeto político mais amplo de destruição socioambiental, voltado a atender interesses econômicos diversos, alguns deles escusos”, avalia Alice Dandara, advogada do Instituto Socioambiental. “Não apenas os povos indígenas e comunidades tradicionais vão sofrer as consequências, como toda a população, incluindo os próprios produtores rurais”, acrescenta.
VEJA OS PROJETOS DO PACOTE ANTIAMBIENTAL
Aprovados na Câmara (em plenário ou com tramitação conclusiva) e seguiram para o Senado:
• PL 364/2019 – Altera o Código Florestal e permite o desmatamento em vegetação nativa não florestal, com potencial de impactar cerca de 50 milhões de hectares em diferentes biomas brasileiros.
• PL 2486/2026 – Reduz em até 486 mil hectares a área da Floresta Nacional do Jamanxim, no Pará.
• PL 1663/2022 – Extingue a Floresta Nacional de Cristópolis, na Bahia, com aproximadamente 12,8 mil hectares. O texto ainda está no prazo para apresentação de recurso.
• PL 5900/2025 – Autoriza o Ministério da Agricultura e Pecuária a interferir na classificação de espécies consideradas invasoras ou ameaçadas quando estiverem relacionadas a atividades produtivas.
• PL 2564/2025 – Restringe a utilização do embargo remoto pelo Ibama em ações de fiscalização ambiental.
Projetos que tramitam em regime de urgência na Câmara
• PL 849/2025 – Reduz em até 30 mil hectares a Área de Proteção Ambiental (APA) da Baleia Franca, em Santa Catarina.
• PDL 717/2024 – Suspende a demarcação das terras indígenas Toldo Imbu (1.960 hectares) e Morro dos Cavalos (1.983 hectares), ambas em Santa Catarina.
• PL 2898/2025 – Impede a aplicação de embargo contra pequenos produtores rurais enquadrados nos critérios estabelecidos pela proposta.
Projeto aprovado em comissão na Câmara
• PDL 1041/2018 – Suspende a delimitação da Terra Indígena Tekoha Guasu Guavirá, no Paraná, com cerca de 24 mil hectares.
Projeto aprovado no Senado, mas ainda pendente de votação em plenário
• PL 6531/2025 – Cria um rito acelerado para permitir o desembargo de áreas interditadas em razão de crimes ambientais. Apesar da aprovação terminativa no Senado, a apresentação de recurso fará com que o texto seja analisado pelo plenário da Casa.
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