Conecte-se conosco

Amazonas

A 325 metros de altura, a cerca de 150 quilômetros de Manaus, cientistas encontram vida dentro da névoa

Estudo inédito no Observatório da Torre Alta da Amazônia revela que o nevoeiro atua como um “elevador invisível”, levando fungos e bactérias do solo para a atmosfera.

Fenômeno presente em n[evo da Amazônia surpreende pesquisadores — Foto: Bruna Sebben

Fenômeno presente em n[evo da Amazônia surpreende pesquisadores — Foto: Bruna Sebben

Um estudo conduzido no Observatório da Torre Alta da Amazônia (ATTO), realizada em uma área preservada a cerca de 150 quilômetros de Manaus (AM), revelou que o nevoeiro formado sobre a vegetação atua como um mecanismo natural de transporte de microrganismos.

Esse processo, segundo os cientistas, contribui diretamente para a regeneração e o funcionamento do ecossistema.

A pesquisa, que ganhou destaque internacional após publicação na renomada revista científica Nature. Conhecida como pristine, termo utilizado para descrever uma região considerada intocada, o local atua como uma área protegida. As informações são do g1.

Dispersão de microrganismos pela névoa

O trabalho, feito em cooperação entre pesquisadores brasileiros e estrangeiros, identificou que as gotículas da névoa carregam bactérias e fungos desde o solo até as camadas mais altas da atmosfera, permitindo a dispersão por diferentes regiões da floresta.

O projeto foi motivado após Bruna Sebben, pesquisadora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), identificar a presença de microrganismos na torre de pesquisa. Como a copa das árvores atinge aproximadamente 40 metros de altura e a torre (ATTO) chega a 325 metros, a descoberta acendeu uma dúvida nos cientistas sobre como esses indivíduos, presentes no solo e nas plantas, chegavam tão alto.

Com base na coleta feita por um amostrador de névoa — dispositivo capaz de capturar gotículas de água da nuvem —, a equipe identificou que o nevoeiro era o vetor de transporte. As amostras foram coletadas ao longo de mais de um ano e analisadas em parceria com o Instituto Butantan.

Descobertas sobre bactérias e fungos

Foram identificados oito tipos de bactérias e sete tipos de fungos presentes no material.

“Encontrar organismos vivos (na névoa) nos fez pensar na importância ecológica que essa nuvem tem. Esses fungos e bactérias são essenciais, pois devolvem nutrientes à floresta, então percebemos que o nevoeiro ajuda no processo de dispersão destes microrganismos”, afirma Bruna.

O professor da UFPR Ricardo Godói, líder da pesquisa, explica que o ambiente oferece condições ideais para observar processos naturais sem interferência humana significativa. Segundo ele, o nevoeiro se origina próximo ao solo, atravessa a vegetação e sobe pela coluna atmosférica antes de se dissipar.

Nevoeiro atua como elevador natural

“Imaginei que o nevoeiro poderia funcionar como um elevador, transportando partículas do solo para camadas mais altas da atmosfera”, diz o pesquisador.

Na Amazônia, a decomposição de matéria orgânica ocorre de forma acelerada, impulsionada pela ação de microrganismos que degradam resíduos vegetais e reciclam nutrientes. Conforme o estudo, o transporte promovido pelo nevoeiro ajuda a distribuir esses organismos de forma mais homogênea pela floresta, favorecendo a regeneração e a manutenção do equilíbrio ecológico.

“Na Amazônia, árvores enormes que caem no chão somem em dois anos devido à altíssima atividade microbiana que degrada a celulose e revigora a floresta”, detalha Ricardo. Sem esse mecanismo de dispersão, os microrganismos tenderiam a permanecer restritos a áreas específicas.

Impactos ambientais e riscos ao ciclo

Além da regeneração, o fenômeno também pode influenciar processos atmosféricos, como a formação de nuvens e chuvas, já que as partículas biológicas podem atuar como núcleos de condensação.

O funcionamento desse sistema depende diretamente das condições ambientais da floresta, uma vez que a formação do nevoeiro está associada à alta umidade e à diferença de temperatura entre o solo e o ar.

Para o pesquisador, atividades antrópicas, como desmatamento e queimadas, podem alterar essas condições e comprometer o ciclo.

“Em áreas degradadas, esse processo tende a ser interrompido, o que pode afetar a distribuição de microrganismos e, consequentemente, o funcionamento completo do ecossistema”, finaliza.


Clique para comentar

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

5 × 4 =