Amazonas
Temperatura de 36,1 °C em Manaus, na segunda-feira (10/08) fica a 3,1 °C do recorde histórico, de 39,2 °C, em outubro de 2023
Os cientistas preveem que o El Niño atual pode vir a ser um dos mais intensos das últimas décadas.
Os 36,1 graus centígrados (°C) de temperatura registrados na segunda-feira, o dia mais quente, até agora, em 2026, ainda estão 3,1°C abaixo da máxima histórica registradas na cidade, segundo dados do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o recorde absoluto, de 39,2 °C, no dia 2 de outubro de 2023, a mais alta registrada em mais de 30 anos.
Em julho, o Governo do Amazonas decretou, em caráter preventivo, Estado de Emergência Climática e Ambiental em todo o território estadual. A medida foi tomada com base nas projeções meteorológicas associadas ao fenômeno El Niño e os impactos que ele deve causar até o primeiro semestre de 2027.
Os cientistas preveem que o El Niño atual pode vir a ser um dos mais intensos das últimas décadas. O último relatório do Centro de Previsões Climáticas (CPC), um organismo da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA, na sigla em inglês), indica que “há 81% de probabilidade de ocorrência de um El Niño muito forte, durante o período de outubro a dezembro” deste ano.
Existem indícios de que o evento de 2026 estaria “entre os eventos El Niño mais importantes do registro histórico” mantido pelos cientistas desde a década de 1950. Seu potencial levou alguns especialistas a chamá-lo de “Super El Niño”.
O fenômeno do “Super” El Niño, que deve acontecer entre 2026 e 2027, já está marcado para se tornar um dos episódios mais fortes já registrados no planeta, com impactos diretos sobre a agricultura, geração de eletricidade e estrutura econômica mundial.
O físico Paulo Artaxo, professor titular da Universidade de São Paulo (USP) e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC), pontua que a aceleração dos eventos extremos ocorre por conta da sobreposição da atividade humana aos ciclos naturais do planeta.
Segundo o especialista, a queima contínua de combustíveis fósseis e o desmatamento promovidos nas últimas décadas aumentaram drasticamente a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera, retendo o calor e alterando o equilíbrio climático global.
“Esse El Niño pode ser o mais forte dos últimos 150 anos. Adicionando à variabilidade natural desses gases de efeito estufa – que é muito fácil de observar ao longo dos últimos milhões de anos –, temos, mais recentemente, a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento de florestas tropicais, que estão aumentando demasiadamente a concentração desses gases na atmosfera.”
Artaxo ressalta que um El Niño sob um clima mais quente desorganiza o ciclo de chuvas e as médias térmicas regionais, aumentando a frequência de secas extremas em determinadas partes do país e inundações avassaladoras em outras.
Como consequência, a produção agrícola de importantes polos perde produtividade, os reservatórios hidrelétricos enfrentam oscilações críticas de nível e a vida nas cidades sofre com ondas de calor intensas.
Por estar localizado em uma região tropical, o Brasil sofre mais com os efeitos do atual El Niño do que países de clima temperado. Se o aquecimento médio global projetado chegar a 2,8 °C, diz ele, a elevação de temperatura no território nacional variará entre 3,5 °C e 4 °C, patamar que sobrecarrega os ecossistemas e a economia.
“O Brasil é um dos países mais vulneráveis às mudanças climáticas”, disse o pesquisador. “Precisamos nos adaptar ao novo clima. Nós não temos alternativa senão descarbonizar toda a nossa economia”, disse Artaxo.
O professor da USP lembra que o acúmulo de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso cria um “escudo” na atmosfera que impede o resfriamento natural da Terra. A energia retida acaba sendo dissipada pelo sistema climático na forma de eventos extremos frequentes, como secas prolongadas, inundações avassaladoras e ondas de calor atípicas.
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