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Brasil

Com expansão de facções criminosas, Norte e Nordeste puxam apreensão de fuzis, aponta pesquisa

Participação das pistolas no total de armas apreendidas saltou de 20,7% para 27,8%, chegando a 31.107 em 2025.

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A escalada do poder de fogo do crime organizado no Brasil alcançou também as regiões Norte e Nordeste, que em cinco anos viram disparar as apreensões de fuzil. Os números acompanham o movimento de facções como o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC), que, ao longo da última década, intensificaram a expansão dos negócios para além do eixo Rio-São Paulo, onde estão as origens dessas quadrilhas. As informações são do jornal O Globo.

em-meio-a-expansao-nacional-deDados da pesquisa “A nova cadeia de suprimentos do crime”, do Instituto Sou da Paz, apontam que entre os cinco estados com maiores aumentos percentuais nas apreensões de armamentos de grosso calibre estão Bahia (392,9%), Pará (360%) e Ceará (263,6%).

De 2021 a 2025, a quantidade de armas apreendidas no país permaneceu estável, mas o perfil do arsenal mudou. No primeiro ano da série, autoridades estaduais apreenderam 807 fuzis em 22 estados. No ano passado, o número saltou para 2.137, em um crescimento de 164,8%, com todas as unidades da federação registrando ao menos uma ocorrência. O campeão de apreensões em valores absolutos no ano passado foi o Rio de Janeiro, que bateu recorde com 924 fuzis encontrados por policiais, contra 355 no início do recorte. O cenário muda, no entanto, quando se analisam os maiores crescimentos percentuais, com estados do Norte e Nordeste no topo.

Para a diretora do Sou da Paz, Carolina Ricardo, os dados mostram um crescimento generalizado da circulação dessas armas de grosso calibre no país.

— Tivemos 22 unidades da federação com aumento de fuzis apreendidos. Eles sempre foram encontrados no Rio, mas passamos a ver também no Nordeste — diz a pesquisadora, uma das autoras do levantamento, ressaltando que a nacionalização desse armamento está relacionada às iniciativas de facções, sobretudo do CV, de expandir sua área de atuação: — Eles têm uma lógica de ocupação e disputa territorial. O fuzil é o instrumento.

O entendimento é compartilhado pelo delegado André Macedo, da Polícia Civil da Paraíba, que aponta um “aumento significativo” na apreensão de armas de grosso calibre no estado. Segundo ele, os conflitos entre facções estão entre os principais fatores da alta. Os dados compilados pelo instituto mostram que a Paraíba não registrou apreensões de fuzis em 2021, mas teve 25 ocorrências no ano passado.

— Entre 2024 e 2025, em um período de 12 meses, apreendemos três fuzis .50, além de outros calibres. Mas as .50 chamaram muita atenção por serem armas de furar blindado, derrubar avião — diz Macedo. — Antes, eram usadas exclusivamente para roubo a carro-forte ou a bancos, ao menos aqui no Nordeste. Nos últimos anos, passamos a ver grandes apreensões ligadas ao tráfico. A facção que tem mais impõe mais medo aos rivais.

Mais pistolas

O crescimento não ficou restrito aos fuzis: a participação das pistolas no total de armas apreendidas saltou de 20,7% para 27,8%, chegando a 31.107 em 2025. O aumento ocorreu em detrimento dos revólveres, cuja participação em relação ao total recuou cinco pontos percentuais, para 33,5%. Mais rápidas e com maior poder de fogo, as pistolas são outra frente de modernização do crime, assim como os fuzis, avaliam os autores do estudo.

Uma das hipóteses para explicar a proliferação desses armamentos são mudanças legislativas que flexibilizaram o acesso às armas de fogo no mandato do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Uma das armas liberadas no período é justamente uma das mais comuns entre as apreendidas:
— Não é possível afirmar categoricamente que a flexibilização mudou o perfil das armas apreendidas. Mas, entre 2019 e 2022, houve flexibilização, e a pistola 9mm deixou de ser restrita — frisa Carolina Ricardo, referindo-se a um dos calibres que se tornaram mais comuns entre as apreensões.

Os dados do estudo apontam para uma possível “substituição de importações”, com o mercado externo perdendo peso para o interno como principal fonte de armas para criminosos. Citado pelos pesquisadores do instituto, outra pesquisa publicada em 2024 mostrou que as apreensões por tráfico internacional pela Polícia Federal (PF) recuaram 42,2% entre 2019 e 2022.

Conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra, Roberto Uchôa explica que o tráfico de armas historicamente ocorreu em “ondas”. Nos anos 90, veio o fuzil via contrabando internacional e cresceram os desvios de arsenais públicos. Já na virada do século, a rota da cocaína fortaleceu a entrada de armamento pesado pelo Paraguai.

— Em 2019, a flexibilização permitiu que 30 mil fuzis fossem vendidos no mercado legal, com o aumento de registros de Colecionador, Atirador Desportivo e Caçador (CAC) e mudanças no controle do Exército — destaca o especialista.

Uchôa avalia que a popularização de impressoras 3D, usadas para fabricar as chamadas “ghost guns”, artesanais e mais difíceis de rastrear, é uma nova fronteira do crime:
— Com a difusão desse conhecimento, isso se alastra.

‘Ghost guns’

O estudo do Sou da Paz aponta que sete em cada 10 fuzis apreendidos no país não têm identificação de origem, um indício de montagem fora do circuito legal. Segundo especialistas, as “ghost guns” costumam ser montadas no Brasil com peças impressas em 3D e outras trazidas do exterior.

— Notamos isso aqui (na Paraíba) principalmente este ano. Neste mês, apreendemos quatro carabinas. A armação é feita com impressora 3D e levada a uma oficina para colocar a parte de ferro, que precisa suportar o atrito e o calor — narra o delegado Macedo, acrescentando que os projetos são disponibilizados na “deep web” e em grupos de Telegram.

Em março, o engenheiro Alexandre Flaneto de Queiroz, de 26 anos, foi preso pela Polícia Civil do Rio, no interior de São Paulo, suspeito de liderar uma quadrilha que vendia armas a criminosos. Ele é autor do design da Urutau, carabina para impressão em 3D, cujo projeto foi disponibilizado na internet, onde se identificava como Joseph The Parrot, referência ao personagem Zé Carioca. A polícia fluminense já apreendeu uma arma similar à Urutau que seria enviada pelos Correios ao Ceará.

Também chamaram a atenção das autoridades fábricas clandestinas com tecnologia para produzir fuzis. Uma delas, descoberta em Santa Bárbara D’Oeste (SP), usava sistema de usinagem, capaz de trabalhar materiais mais resistentes que os empregados em impressoras 3D, exigindo conhecimentos de engenharia. Outra foi encontrada em Minas Gerais. Ambas abasteciam criminosos ligados ao CV.

As “ghost guns” preocupam as autoridades. Em abril, o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, enviou ao Ministério da Justiça um plano para reativar a Força Internacional de Combate ao Tráfico de Armas (Ficta), que funcionou de 2022 a 2023. A proposta prevê coordenação da PF e participação de investigadores do Homeland Security Investigations, dos Estados Unidos, além de policiais estaduais.

Uchôa pontua que mudanças legislativas nos EUA podem fortalecer o tráfico de armas para o Brasil. Boa parte dos armamentos apreendidos com traficantes brasileiros tem origem no país. Em maio de 2025, segundo a Polícia Militar do Rio, 60% dos fuzis apreendidos no estado eram de fabricação americana. Enquanto isso, o governo de Donald Trump vem avançando na revogação de normas que regulam o mercado de armas.


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