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Elite do Brasil vê Amazônia como fronteira barata para expansão econômica, diz ex-diretor da ONU

O dinheiro busca o curto prazo, e a amazônia é como um prêmio de loteria de curto prazo”, disse Achim Steiner.

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Área desmatada nas imediações da BR-319, na Amazônia (Foto: Brenno Carvalho / Agência O Globo/ Reprodução)

Numa conferência internacional sobre sustentabilidade com forte presença do setor privado, o ex-subsecretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Achim Steiner afirmou que a elite do Brasil vê a Amazônia como uma “fronteira barata” para a expansão da economia, o que torna difícil uma mudança mais estrutural na região. As informações são da Folha de S. Paulo.

Essa visão é a mesma nos outros países da região amazônica, segundo ele. “Isso é o que o dinheiro faz. O dinheiro busca o curto prazo, e a amazônia é como um prêmio de loteria de curto prazo”, disse Steiner à Folha de S. Paulo.

Ex-diretor do Pnud e do Pnuma, programas das Nações Unidas para meio ambiente e desenvolvimento, Steiner preside a Conferência de Sustentabilidade de Hamburgo, na Alemanha, realizada pelo terceiro ano seguido, na segunda (29) e terça-feira (30).

O evento é promovido pelo Ministério de Cooperação Econômica e Desenvolvimento da Alemanha, além de Pnud, Município de Hamburgo e Fundação Michael Otto.
Representantes de governos, sociedade civil, academia e empresas discutiram as principais pautas ambientais e de transição energética, na esteira de negociações em palcos diplomáticos oficiais, como as as conferências do clima da ONU, a última, COP30, foi realizada em Belém (PA), em novembro.

Nas cidades amazônicas, existe um corredor de possibilidades econômicas muito estreito, segundo Steiner, o que influencia a vida de quem vive ali. Por isso, investimentos precisam levar em conta as características do lugar, com adaptabilidade à realidade da floresta, na visão do ex-dirigente da ONU.

Grandes obras de infraestrutura na Amazônia impactam, invariavelmente, comunidades tradicionais. E regiões de fronteira agrícola, como o sul do Amazonas, Rondônia, Acre e Mato Grosso, são também arcos de desmatamento.

“Os países como um todo não estão investindo o suficiente em conectar essas economias porque basicamente as veem como marginais”, disse. “O dinheiro está em São Paulo, em Minas Gerais, em Porto Alegre.”

O ex-diretor da ONU, pesquisador sênior da Universidade de Oxford, diz que existe uma “batalha por sobrevivência” na Amazônia e que é preciso discutir, do ponto de vista da viabilidade econômica, a infraestrutura ecológica na região.

A COP30, na visão dele, foi importante em termos de avanços diplomáticos e estará nos “livros de História” por ter havido um posicionamento dos países em relação ao boicote feito por Donald
Trump aos assuntos de multilateralismo e sustentabilidade.

Poucas horas após voltar ao cargo de presidente dos Estados Unidos, Trump anunciou a retirada do país do Acordo de Paris, o pacto assinado em 2015 para definição de metas globais e redução de gases de efeito estufa. Autoridades norte-americanas de alto nível não participaram da COP30.

“Belém estará nos livros de História como o momento em que o mundo disse: América, você pode não querer fazer parte disso, mas o ‘trem’ está seguindo em frente”, afirmou Steiner. “A América não apareceu. Todo o resto do mundo apareceu.”

A conferência foi um teste de sobrevivência para o braço da ONU que cuida de mudanças climáticas e para o próprio Acordo de Paris, segundo o ex-diretor das Nações Unidas. “A COP de Belém, como crédito da diplomacia brasileira, não permitiu que os Estados Unidos paralisassem todo o processo de discussões climáticas.”

“Não havia grandes decisões a serem tomadas, mas sim a serem implementadas,” conforme Steiner. Outro mérito, segundo ele, é que a proposta brasileira de um roteiro global para a eliminação gradual de combustíveis fósseis, que deve ser apresentado na COP31, na Turquia, em paralelo às negociações oficiais.

“Você verá cada vez mais isso nas COPs”, diz o responsável pela conferência de Hamburgo, em relação às discussões sobre a eliminação gradual de combustíveis fósseis.

Na COP30, o governo Lula (PT) propôs discussões para eliminação gradual do uso de petróleo, embora estimule a prospecção para exploração de combustíveis fósseis na costa amazônica. A Petrobras perfura um poço no chamado bloco 59, a 160 km de Oiapoque (AP), e deve concluir esse processo exploratório em agosto, o que pode abrir uma nova frente de extração de óleo.

“É preciso reconhecer que ainda precisamos de combustíveis fósseis por décadas. Não é como se todo mundo precisasse parar imediatamente. Isso não funcionaria. Vamos encontrar uma forma inteligente para essa eliminação gradual”, avalia Steiner


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