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Brasil

Estudo que durou 20 anos mostra como os incêndios estão remodelando a Amazônia

Queimadas estão mais frequentes e mais devastadoras por causa das mudanças climáticas.

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Em 2004, a Amazônia teve um dos maiores picos de desmatamento já registrados, e também um dos piores índices de queimadas. Cientistas americanos e brasileiros iniciavam nessa época, no Instituto de Pesquisas Ambientais da Amazônia (Ipam), um estudo que se mostraria visionário com o aumento dos incêndios florestais devastadores nos últimos anos. As informações são do Estadão.

Eles realizaram durante anos queimas controladas em áreas de floresta da Estação de Pesquisa Tanguro, em Querência (MT), para testar se o bioma seria capaz de se recuperar e manter as características de floresta ou se se transformaria em savana, hipótese sugerida pelos modelos climáticos e muito debatida desde então.

Parte dos resultados dessa pesquisa, publicados em um artigo nesta segunda-feira, 20, pela revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS), revela que os incêndios frequentes causam perda de biodiversidade e homogeneização ecológica, principalmente das bordas da floresta. Mas não savanização.

A ideia da savanização é que, com a degradação, as áreas de floresta assumiriam uma fisionomia mais aberta, com menor densidade de árvores e maior presença de gramíneas, características típicas de ecossistemas savânicos, como o Cerrado.

“Para comprovar a hipótese, o esperado seria reduzir a densidade de abundância de espécies especialistas (típicas) de floresta e aumentar as de savana. Mas a gente não registrou isso. O que a gente registrou foi redução das espécies especialistas de floresta e aumento das generalistas”, afirma um dos coordenadores do estudo, Leandro Maracahipes, pesquisador da Universidade de Yale apoiado pelo Instituto Serrapilheira.

Mesmo com o local do estudo situado em uma área de transição com o Cerrado, navborda sul da Amazônia, com fonte de dispersão próxima de espécies da “savana brasileira”, o estudo verificou após as queimadas maior proporção de espécies pioneiras (chegando a mais de 70% em áreas mais impactadas) da Amazônia e de plantas generalistas (representando até 93% da vegetação nas bordas), que têm maior capacidade de adaptação.

Além de ser naturalmente mais seca do que a região central da Amazônia, a borda sul compreende o arco do desmatamento, impulsionado pelo avanço da fronteira agrícola, e enfrenta incêndios cada vez mais frequentes e severos.

Para entender se diferentes frequências de queimada impactariam a taxa de mortalidade das árvores e a intensidade do fogo, o estudo foi realizado em três parcelas de floresta:

– uma parcela de “controle”, que não sofreu queima experimental;
– uma parcela queimada anualmente, de 2004 a 2010;
– uma parcela queimada a cada três anos, em 2004, 2007 e 2010.

A partir de 2010, as queimas foram suspensas e os pesquisadores passaram a avaliar a degradação e acompanhar a recuperação das áreas. O resultado surpreendeu: o fogo a cada três anos teve maior intensidade e impacto na mortalidade de árvores do que o fogo anual, por conta do acúmulo de biomassa.

Segundo o estudo, a recuperação parecia no início tender à “savanização”. As áreas degradadas foram cobertas por gramíneas (vegetação como o capim), mas elas eram invasoras, mais próximas de um pasto degradado que da biodiversidade do Cerrado.

As gramíneas exóticas proliferaram principalmente na borda e criaram um ciclo de retroalimentação: aumentam a intensidade dos incêndios, provocando a morte de mais árvores e aumentando a chance de o fogo se alastrar novamente.

Com o passar do tempo e a chegada das árvores, porém, o “capim”, que precisa de mais luz e espaços abertos, foi sendo eliminado pelas sombras criadas pelas copas.

Mas, como as árvores mais típicas da Amazônia não evoluíram na presença do fogo, muitas delas não retornam depois dele. A falta das especialistas pode ainda gerar uma floresta vazia de animais e outras espécies que dependem de suas funções ecossistêmicas.

Perseveram nessa nova composição as generalistas e pioneiras, o que leva à homogeneização. Elas se desenvolvem mais rápido, têm casca fina, madeira leve e raízes superficiais, o que as tornam mais vulneráveis a novos incêndios e tempestades de vento.

A boa notícia é que isso ocorreu principalmente nas zonas de borda. No interior da floresta, a biodiversidade permaneceu relativamente estável. “A floresta está se recuperando, mas pensando na composição, é um processo que ainda vai levar muito mais tempo. É uma mensagem positiva, mas com cautela”, diz Maracahipes.

Por que o estudo foi inovador

A maioria dos estudos sobre fogo na Amazônia usa sensoriamento remoto – mede através de imagens de satélite a área de floresta ou de pasto que foi queimada, onde o incêndio começou e se a cicatriz de fogo na floresta está aumentando.

Esse tipo de ferramenta permite estudos em larga escala, mas não consegue detectar o impacto sobre a biodiversidade “no chão” da floresta. “Temos poucos estudos de longo prazo na Amazônia como os da Tanguro. Eles são essenciais para o nosso entendimento dos impactos de longa duração do fogo na floresta”, diz a bióloga Erika Berenguer, pesquisadora das universidades de Oxford e Lancaster, na Inglaterra, especializada na dinâmica dos incêndios na Amazônia.

Segundo Berenguer, ainda há poucos grupos de pesquisa dedicados a esse tipo de estudo e poucos locais na Amazônia como a Tanguro. Ela destaca a importância do financiamento à pesquisa para projetos de longa duração como esse.


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