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Aneel convoca setor elétrico para discutir, em Manaus, ações contra impactos do super El Niño
Encontro está marcado para a próxima segunda-feira (22), na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus (AM).
A Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) informou que agendou uma reunião com agentes do setor elétrico, empresas e órgãos governamentais para discutir ações de preparação diante do super El Niño previsto para este ano.
O encontro está marcado para a próxima segunda-feira (22/06), na sede da Âmbar Energia Amazonas, em Manaus (AM). A agenda consta em ofício enviado pelo gabinete do diretor-geral da Agência ao Ministério de Minas e Energia (MME) na última sexta-feira (12/06).
A Aneel informou que vem adotando uma série de medidas para reforçar a preparação do setor elétrico.
No documento, a reguladora destaca que as previsões dos órgãos meteorológicos apontam a possibilidade de ocorrência do fenômeno climático, o que exige planejamento antecipado, especialmente em regiões e instalações mais vulneráveis a eventos extremos.
A Agência também informou que encaminhou, no início deste mês, ofícios a empresas de geração, transmissão e distribuição de energia solicitando a adoção de ações preventivas.
Entre as recomendações estão o reforço da resiliência das infraestruturas elétricas e a revisão dos planos de contingência, sobretudo para o período entre o segundo semestre de 2026 e o início de 2027, quando é esperada uma maior incidência de eventos climáticos severos associados ao fenômeno.
Super El Niño
O Super El Niño é uma versão mais intensa do fenômeno climático El Niño, caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial. Quando esse aquecimento atinge níveis elevados, os impactos sobre o clima tendem a ser mais severos e abrangentes.
No Brasil, o fenômeno costuma alterar significativamente os padrões de chuva e temperatura. Dependendo da região, pode provocar períodos prolongados de estiagem, chuvas acima da média, tempestades intensas, enchentes e ventos fortes.
Por esse motivo, a Aneel, o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e as empresas do setor vêm reforçando planos de contingência e medidas preventivas para reduzir os impactos do fenômeno.
Isso porque eventos climáticos extremos associados ao super El Niño podem causar danos a linhas de transmissão, subestações e redes de distribuição, além de aumentar o risco de interrupções no fornecimento de energia.
Antecedência
A agenda consta em ofício enviado pelo gabinete do diretor-geral da agência ao Ministério de Minas e Energia (MME), no qual a reguladora justifica a urgência da mobilização. O documento destaca que as previsões emitidas pelos órgãos meteorológicos competentes demandam a adoção de medidas com forte antecedência, especialmente nas regiões e instalações mais suscetíveis a eventos severos de vazão e calor.
A preocupação do regulador concentra-se na vulnerabilidade física do sistema de transmissão e na forte sensibilidade da carga diante das ondas de calor extremo e secas severas projetadas para os próximos meses. Para mitigar os riscos de bleautes isolados ou restrições severas de escoamento, a agência estabeleceu um cronograma de auditoria e prontidão operacional junto às concessionárias de serviços públicos.
O plano de ação preventiva começou a ser desenhado no início do mês, quando o órgão regulador expediu diretrizes diretas para as mesas de operação das empresas de distribuição, transmissão e geração. O foco central das notificações envolve o reforço estrutural de subestações e o planejamento rigoroso de equipes de manutenção de campo. A Aneel determinou que as concessionárias reforcem a resiliência das suas infraestruturas ao longo do segundo semestre de 2026 e início de 2027, período no qual está prevista a maior incidência de distúrbios climáticos.
Escolha estratégica de Manaus
A escolha da capital amazonense para sediar a mesa de deliberações técnicas possui um forte simbolismo operacional. Historicamente, episódios de Super El Niño impõem secas extremas às bacias hidrográficas da região Norte, resultando no rebaixamento severo dos rios. Esse cenário compromete a navegabilidade de barcaças e o transporte de insumos combustíveis para termelétricas isoladas, além de restringir severamente a capacidade de geração de grandes usinas hidrelétricas de calha regular a fio d’água, como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau.
Ao reunir os principais players de geração, transmissão e os operadores locais em Manaus, a Aneel busca alinhar de forma preditiva as restrições logísticas de combustível para o parque térmico com a garantia de atendimento eletroenergético dos grandes centros urbanos. A articulação com o Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) e com o MME será fundamental para modular o acionamento preventivo de usinas térmicas por ordem de mérito, assegurando a flexibilidade operativa da malha básica antes que a estiagem se estabeleça de forma definitiva.
Alerta de risco
De acordo com a Climatempo, a maior e mais reconhecida empresa de consultoria meteorológica e de previsão do tempo do Brasil e da América Latina, o El Niño deve ganhar influência mais evidente sobre o Brasil durante a primavera e o verão, trazendo o alerta de previsão de chuvas acima da média na região Sul, de maior risco de estiagem em áreas do Norte e do Nordeste, de calor persistente no Centro-Oeste e no Sudeste e de aumento da variabilidade climática em regiões produtoras e nos centros urbanos.
Caracterizado pelo aquecimento acima do esperado das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, o El Niño altera a circulação atmosférica global e tende a modificar a distribuição das chuvas, intensificar episódios de calor e elevar o risco de ocorrência de eventos extremos em diferentes regiões do País.
No Sul, episódios de chuva volumosa e frequente podem aumentar o risco de enchentes, alagamentos, deslizamentos, interrupções logísticas e perdas em lavouras sensíveis ao excesso de umidade. No Norte e no Nordeste, a tendência é de redução das chuvas em parte das áreas, com possibilidade de estiagens mais prolongadas, queda na disponibilidade hídrica, pressão sobre reservatórios e aumento do risco de queimadas. No Centro-Oeste e no Sudeste, o cenário exige atenção para ondas de calor, atraso ou irregularidade no retorno das chuvas e maior demanda por energia em períodos de temperatura elevada.
Com a confirmação do El Niño, que na avaliação da Climatempo tende a ser forte para muito forte, com intensidade comparável ao fenômeno de 2023, os setores da economia devem redobrar o monitoramento em busca de dirimir os principais impactos.
No setor de energia, as temperaturas mais altas tendem a elevar o consumo de eletricidade, especialmente por conta do uso de aparelhos de refrigeração. Ao mesmo tempo, a irregularidade das chuvas pode afetar reservatórios e exigir planejamento mais cuidadoso do sistema elétrico. Há ainda o risco de atraso no início do período úmido no Sudeste e Centro-Oeste, regiões que concentram cerca de 70% da produção hidrelétrica.
Para o agronegócio, o excesso de chuvas no Sul pode dificultar a colheita, o plantio e o manejo contra pragas e infestações, enquanto a redução de umidade em áreas do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste pode afetar culturas dependentes de chuva, elevar custos de irrigação e aumentar a volatilidade de preços de alimentos.
Na logística, transportes e infraestrutura, a preocupação é com as chuvas intensas, que podem comprometer rodovias, ferrovias, portos, áreas urbanas e operações de distribuição. Por outro lado, períodos secos aumentam riscos de poeira, queimadas e restrições operacionais. O risco de seca prolongada no Norte pode impactar a navegação e logística fluvial, especialmente o escoamento da produção da Zona Franca de Manaus.
Nos setores de construção civil, mineração e indústria a escassez de água pode impactar processos produtivos, cronogramas de obras e custos operacionais. Já os temporais intensos elevam o risco de paralisações de operações e danos a estruturas.
O varejo, saúde e serviços deverá ser mais impactado pelas ondas de calor, que podem alterar padrões de consumo, aumentar a procura por climatização e hidratação, elevar riscos à saúde e exigir planos de contingência para trabalhadores e consumidores.
Em relação ao abastecimento de água e saneamento, as estiagens prolongadas previstas podem pressionar mananciais, reservatórios urbanos e sistemas de captação, exigindo gestão preventiva e campanhas de uso racional do insumo.
“A recomendação é que empresas e gestores públicos revisem planos de contingência, reforcem o acompanhamento de previsões de médio e longo prazo, avaliem vulnerabilidades regionais e integrem informações de inteligência climática às decisões operacionais”, afirma Pedro Regoto, Head de Operações da Climatempo. Ele alerta que a antecipação é essencial para proteger pessoas, ativos, produção, abastecimento e infraestrutura.
Regoto destaca que eventos extremos registrados no último El Niño de 2023 e 2024 não necessariamente vão se repetir, pois foram influenciados por outros fenômenos combinados e não apenas pelo El Niño. “O El Niño aumenta o potencial para eventos mais severos, mas não é possível adiantar com tanta antecedência, sendo necessário o acompanhamento das previsões no curto prazo”, finaliza.
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