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Um quarto dos brasileiros diz ter tido que se deslocar por causa da crise do clima, aponta pesquisa

Segundo pesquisa da Ipsos para o Instituto Talanoa, 75% das pessoas defendem que obras públicas levem em consideração a adaptação a eventos extremos.

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Moradora de Juiz de Fora (MG) abandona casa após chuvas que causaram mais de 60 mortes na região. (Foto: Pablo Porciuncula/AFP)

Uma nova pesquisa de opinião indica que quase um quarto dos brasileiros (24%) dizem ter sofrido impacto direto da crise do clima, tendo de se deslocar, ao menos temporariamente, por causa de eventos extremos como tempestades ou incêndios.

O levantamento da Ipsos, encomendado pelo think-tank Instituto Talanoa, indica que 75% das pessoas defendem que o setor público realize suas obras com adaptações para as mudanças climáticas, mesmo que isso implique em mais custos.

Feita por internet, a pesquisa sobre percepção popular a respeito desse tipo de impacto ambiental, teve uma amostragem de mil pessoas. Por ter usado uma metodologia online, o levantamento abarcou apenas as classes A, B e C, que ainda assim representam mais de 70% da população do país.

Se tivesse sido possível incluir a classe D, a taxa de impacto medida na pesquisa possivelmente teria sido até maior, porque parcelas mais pobres da população normalmente são mais afetadas por enchentes, deslizamentos e consequências mais graves de eventos climáticos.

No levantamento, o peso da crise do clima na vida pessoal das pessoas aparece como relevante, apesar de o problema ser entendido como um desafio para a sociedade como um todo. Uma maioria expressiva de pessoas (70%) diz acreditar que eventos meteorológicos extremos estão aumentando.

Entre os entrevistados, 24% disseram que esses fenômenos já tiveram influência direta nas vidas de suas famílias, e 26% disseram ter visto impacto em sua cidade ou região. Na outra ponta, só 12% disseram que a mudança climática é um fenômeno que afeta mais os habitantes de outros países.

— Isso surpreendeu a gente, não só pela consciência das pessoas de que os eventos extremos estão acontecendo, mas pela percepção que elas têm de que um evento climático afetou a vida delas — diz Liuca Yonaha, vice-presidente do Instituto Talanoa. — Quando falta luz, nem sempre a pessoa faz a ligação no pensamento dela para pensar que faltou luz porque houve uma tempestade ou um vendaval, e a cidade não estava preparada.

Os dados extraídos na pesquisa também buscaram avaliar o desempenho de diferenças esferas de governo no enfrentamento da questão. A União se saiu melhor do que Estados e Municípios, mas ainda todos tiveram pontuação muito baixa.

Para a pergunta “Quem você acha que tem mais atuado em adaptação?”, o Governo Federal foi assinalado em 18% das respostas, seguido de “Nenhum desses” (16%), “Não sabe” (15%), e “Organizações da Sociedade Civil” (11%), “Prefeituras/Defesa Civil Municipal” e “Governos Estaduais”, 7%.

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Clima e eleição

A pesquisa da Ipsos também incluiu uma série temporal de dados, derivada de um levantamento global feito pela agência, sobre quanto peso o meio ambiente tem entre os anseios e receios dos cidadãos. A preocupação ambiental entre os brasileiros cresceu de 1% para 18% entre 2016 e 2026, atingido nível recorde agora.

— É claro que as mudanças climáticas não estão no mesmo patamar do que a preocupação de crime e violência, por exemplo, que já há bastante tempo está primeiro lugar, mas é uma preocupação que já começa a estar mais presente — diz Priscilla Branco, diretora de opinião pública da Ipsos. — Ela começa ganhar uma relevância maior do que temas como os impostos, por exemplo.

Aferida em um ano de eleição, essa informação indica que a crise do clima pode começar agora a ter um peso mais relevante em campanhas, algo que não aconteceu em pleitos nacionais de anos passados.

— Se nós olhamos para 2022, que foi o último ciclo eleitoral federal, o número era de 7%, então agora tivemos um salto que dobrou essa percepção, provavelmente muito influenciada pelas enchentes no Rio Grande do Sul, as queimadas de 2023 e os apagões por causa de vendaval em São Paulo, que é o maior eleitorado do país — diz Yonaha.

Segundo ela, é possível que as eleições de 2026 sejam as primeiras em que a questão ambiental tenham um peso perceptível, ainda que pequeno no voto.

— O ambiente ainda não é um tema que ‘vira voto’, decisivo para o candidato ganhar ou perder o voto, mas ele amplia o eleitorado — diz a especialista. — Nós estamos vendo que o assunto da mudança do clima não é polarizante, então ele é algo que pode ajudar tanto um lado quanto o outro, para quem resolver abraçá-lo.

Impacto na saúde

Outro dado que a pesquisa da Ipsos abordou foi a percepção sobre qual setor da sociedade e da economia está sendo mais afetado pela crise do clima. Na opinião dos entrevistados, quem mais sofre com o problema é a saúde (40% das respostas), seguida de alimentação (37%), conta de luz (37%), moradia (29%) e mobilidade (25%).

A saúde é um setor que, de fato, é muito impactado pela crise do clima, seja por agravar epidemias da dengue, por exemplo, seja por causa do estresse físico das ondas de calor, mas ainda é difícil entender, segundo os especialistas, a percepção pública do problema.

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O conceito de “adaptação climática”, além disso, ainda é algo um pouco vago no imaginário brasileiro. A Ipsos revela, porém, que a população entende o que ele é quando descrito em termos mais concretos, como a construção de obras para conter enchentes.

— As pessoas sabem que o clima é importante e impacta, mas é difícil na comunicação traduzir isso e conectar com a agenda de emprego ou de saúde, por exemplo — diz Priscilla Branco, da Ipsos. — Tentar fazer esta conexão de uma forma que seja compreensível para as pessoas é o grande desafio que os políticos e a sociedade civil têm.


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