Brasil
Relatório aponta que CV amplia domínio sobre rotas do tráfico na Amazônia e supera PCC
Estudo da Global Initiative identifica avanço do Comando Vermelho sobre corredores estratégicos de cocaína e integração com atividades ilegais na região.
A facção criminosa Comando Vermelho ampliou sua influência sobre as principais rotas do tráfico de cocaína na Amazônia brasileira e passou a ocupar uma posição dominante em corredores estratégicos da região, segundo relatório da Global Initiative Against Transnational Organized Crime. O estudo aponta que o avanço ocorreu enquanto a facção criminosa rival PCC perdeu espaço para estruturas criminosas mais adaptadas à dinâmica local.
A análise, assinada pelo pesquisador Gabriel Funari, descreve uma mudança na organização do crime transnacional na Amazônia. Manaus aparece como um dos principais polos logísticos, enquanto áreas do Pará e do Amapá são apontadas como pontos relevantes para o escoamento de drogas.
CV consolidou espaço após disputa com o PCC
De acordo com o relatório, a consolidação do CV na Amazônia está ligada a um ciclo de confrontos entre organizações criminosas ocorrido principalmente entre 2010 e 2020. Naquele período, grupos locais se organizaram para enfrentar o avanço do PCC e, posteriormente, parte dessas estruturas acabou incorporada ao Comando Vermelho.
A fragmentação da Família do Norte (FDN), apontada no estudo como um dos principais grupos que atuavam no Amazonas, abriu espaço para uma reorganização do crime na região. A integração de lideranças locais ao CV teria contribuído para a consolidação da facção nos anos seguintes.
O relatório associa esse processo também às diferenças entre os modelos de organização das duas maiores facções criminosas do país. Enquanto o PCC mantém uma estrutura mais centralizada e hierárquica, o CV opera com maior autonomia para grupos que atuam nos territórios onde mantém influência.
Modelo descentralizado favoreceu expansão
Segundo a análise, a estrutura descentralizada do Comando Vermelho facilitou a formação de alianças com grupos locais. A autonomia concedida aos integrantes permite que diferentes núcleos mantenham negócios e relações territoriais sem depender do mesmo nível de autorização central atribuído ao PCC.
Pesquisadores e integrantes das forças de segurança ouvidos no estudo, porém, apontam que essa característica também pode representar uma vulnerabilidade. Uma organização menos centralizada tende a ter maior dificuldade para manter controle uniforme sobre seus integrantes e pode ficar exposta ao surgimento de novos concorrentes.
Apesar dessa possível fragilidade, o relatório afirma que o CV conseguiu ampliar seus vínculos com grupos locais e diversificar as atividades econômicas associadas ao crime organizado na Amazônia.
Tráfico passou a se conectar ao garimpo ilegal
O avanço descrito no relatório não se limita ao tráfico de drogas. O estudo aponta uma aproximação crescente entre o comércio de cocaína e a exploração ilegal de ouro em diferentes áreas da Amazônia.
Segundo a Global Initiative, recursos obtidos com o tráfico são direcionados para atividades ligadas à mineração clandestina, enquanto estruturas utilizadas pelo garimpo também podem ser aproveitadas para movimentar outros produtos ilegais.
O relatório cita ainda a atuação do CV em áreas próximas às fronteiras internacionais da Amazônia e aponta conexões com regiões produtoras de coca no Peru. Essas atividades, segundo o estudo, ampliam a capacidade financeira e logística da organização criminosa.
Expansão afeta comunidades tradicionais
A presença de organizações criminosas em áreas de fronteira também produz impactos sobre populações que vivem em regiões isoladas. O relatório relaciona o avanço do tráfico e do garimpo ilegal a processos de dependência econômica, pressão sobre comunidades e aumento da circulação de atividades criminosas.
O estudo também aponta que comunidades indígenas e populações tradicionais ficam expostas à expansão dessas atividades, especialmente em áreas onde a presença permanente do Estado é limitada e o acesso depende de rios ou de estruturas de transporte precárias.
Amazônia ganhou importância nas rotas internacionais
A posição estratégica da Amazônia está relacionada à proximidade com países produtores de cocaína, como Colômbia, Peru e Bolívia, além da extensa rede fluvial e das fronteiras internacionais. Estudos sobre a região apontam que esses fatores transformaram a área em um importante corredor para o tráfico transnacional.
Levantamento do Fórum Brasileiro de Segurança Pública também descreve o Comando Vermelho como hegemônico em importantes rotas fluviais da região, enquanto o PCC mantém estratégias associadas a outras formas de circulação e internacionalização do mercado de drogas.
O cenário mostra que a disputa entre as duas facções não ocorre apenas pelo mercado consumidor. O controle de rotas, territórios e estruturas econômicas ilegais passou a ser parte central da competição entre os grupos criminosos na Amazônia.
Crime organizado mantém desafio para as autoridades
O avanço das facções ocorre mesmo diante de operações policiais e ações de fiscalização realizadas nos estados da Amazônia. No Amazonas, forças de segurança já registraram grandes apreensões e prejuízos financeiros contra estruturas criminosas, mas as organizações continuam buscando formas de preservar sua atuação.
A combinação entre tráfico de drogas, garimpo ilegal, controle territorial e atividades transnacionais aumenta a complexidade do combate ao crime organizado na região. Para as autoridades, a dimensão territorial da Amazônia e a dificuldade de fiscalização permanente tornam a repressão às estruturas criminosas um desafio contínuo.
O relatório da Global Initiative conclui que a consolidação do Comando Vermelho nas rotas amazônicas representa uma mudança importante no equilíbrio entre as principais facções brasileiras, embora a própria estrutura descentralizada do grupo possa abrir espaço para novas disputas no futuro.
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