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Dono de casa milionária no Texas, aliado de Eduardo Bolsonaro declarou apenas R$ 164 mil em bens

Imóvel de R$ 3,6 milhões foi comprado através de fundo administrado por advogado que recebeu dinheiro do filme ‘Dark Horse’.

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André Porciúncula (à esq.), dono da casa de R$ 3,6 milhões no Texas comprada através de fundo administrado por advogado de Eduardo Bolsonaro (centro) e ex-auxiliar de Mario Frias (à dir.) na Secretaria de Cultura do governo Jair Bolsonaro. (Foto:Reprodução)

Dono da casa de R$ 3,6 milhões no Texas adquirida por meio de um fundo trust administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro que também gerenciou os milhões de dólares aportados por Daniel Vorcaro no filme “Dark Horse”, o policial militar André Porciúncula declarou ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um patrimônio de apenas R$ 164 mil nas eleições de 2024, quando concorreu a vereador de Salvador pelo PL. As informações são do jornal O Globo.

Como revelou a Folha de S. Paulo no último sábado, a casa de US$ 726 mil, ou quase R$ 4 milhões, foi adquirida em fevereiro passado pelo Mercury Legacy Trust, fundo administrado por Paulo Calixto, advogado de imigração de Eduardo. Ele também administra o fundo Havengate, que recebeu parte dos R$ 61 milhões de reais injetados pelo dono do Banco Master para a produção do longa sobre a trajetória do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A residência fica em Arlington, nos arredores de Dallas, onde Eduardo Bolsonaro recebe aliados do Brasil – oficialmente, o deputado cassado não revela onde mora no autoexílio nos EUA.

O fato de a compra ter sido feita por um fundo administrado pelo mesmo advogado que recebeu dinheiro de Vorcaro, numa triangulação até hoje mal explicada, levantou suspeitas de que o imóvel fosse destinado ao próprio Eduardo.

Mas, em entrevista ao Metrópoles, Porciúncula disse ser ele o dono da casa, em que afirma morar desde 2023, quando deixou o Brasil. O ex-secretário de Cultura do governo Bolsonaro diz que ele e a esposa, que também seria dona do Mercury, fizeram um financiamento bancário, e usaram o fundo para reduzir os impostos de herança a serem pagos pelos filhos — algo usual nos Estados Unidos.

O patrimônio declarado por Porciúncula há dois anos, porém, é incompatível com o padrão milionário da residência.

Em 2024, quando informou ao TSE ter R$ 164 mil em bens, o ex-secretário listou um automóvel Honda HR-V fabricado em 2018 com valor declarado de R$ 86 mil, uma moto Honda NXR160 Bros ESDD de R$ 8 mil e participações societárias em duas empresas, a Alpen Segurança Patrimonial Ltda e a Alpen Security Serviços de Portaria, que somavam R$ 70 mil. Nessa eleição, ele teve apenas 2.758 votos e não se elegeu vereador.

Os registros do TSE também apontam que o patrimônio do aliado de Eduardo já tinha caído 68% em comparação com 2022, quando ele disputou e não ganhou uma vaga de deputado federal pela Bahia usando a alcunha de Capitão André Porciúncula, em alusão à sua patente na Polícia Militar. Na ocasião, ele informou ter R$ 522 mil em bens.

A diferença fica por conta de um terreno no Alphaville de Brasília, com valor atribuído de R$ 350 mil, e outra moto Honda NXR160 Bros ESDD de R$ 8 mil que não aparecem na declaração de 2024.

Amigo próximo do filho 03, Porciúncula foi brevemente secretário de Cultura no governo Bolsonaro em dezembro de 2022, quando Lula já havia sido eleito. Antes, comandou a divisão de Fomento da pasta quando ela era comandada por Mario Frias (PL-SP), produtor executivo de “Dark Horse”. Na época, barrou o financiamento a diversos projetos culturais considerados “de esquerda”.

Após a saída de Bolsonaro do poder, ele se mudou para o Texas, onde fundou uma entidade chamada Instituto Liberdade junto com um ex-sócio de Eduardo Bolsonaro chamado Paulo Generoso. De acordo com informações da Agência Pública, o agente registrado junto ao governo do Texas para receber documentos legais, fiscais e notificações do governo é Paulo Calixto — que também é o responsável pelo Havengate, que recebeu os milhões de Vorcaro.

Nós procuramos André Porciúncula e questionamos o ex-secretário sobre as inconsistências patrimoniais. Em relação à aquisição da casa de R$ 3,8 milhões no Texas, perguntamos se ele e a esposa exercem atividade profissional nos EUA e se o aliado dos Bolsonaro ainda é vinculado à Polícia Militar da Bahia, na qual ingressou em 2005 e chegou à patente de capitão.

Indagamos ainda se o terreno do Alphaville de Brasília e a motocicleta declarados ao TSE em 2022 foram vendidos e, em caso afirmativo, por que os valores obtidos na transação não foram declarados em 2024 e se o dinheiro foi usado no financiamento da casa nos EUA.

O ex-secretário de Cultura, contudo, disse considerar o assunto de ordem pessoal e, por isso, não responderá às perguntas da equipe da coluna.

“Desculpe, mas todas essas questões são pessoais. Não tenho cargo público, não vejo motivo para dar explicações”, respondeu Porciúncula após solicitar que as perguntas relativas à casa de Arlington fossem feitas por escrito e não por telefone.

“Desculpe, mas todas essas questões são pessoais. Não tenho cargo público, não vejo motivo para dar explicações”, respondeu Porciúncula após solicitar que as perguntas relativas à casa de Arlington fossem feitas por escrito e não por telefone.

O aliado de Eduardo Bolsonaro também não esclareceu o que motivou sua mudança para os Estados Unidos e o Texas em 2023 e nem se pretende concorrer a um cargo eletivo nas eleições de outubro, a exemplo dos dois últimos ciclos eleitorais. Ao Metrópoles, ele declarou ter um Greencard, documento dos EUA que atesta a autorização permanente de residência e trabalho no país.

No governo Jair Bolsonaro, o Ministério da Cultura foi rebaixado a uma secretaria vinculada à pasta do Turismo. O titular mais longevo foi o ator e hoje deputado federal Mario Frias, após uma sucessão de controvérsias e escândalos envolvendo os antecessores.

Frias, produtor executivo de “Dark Horse”, escolheu Porciúncula para o cargo de secretário de Fomento e Incentivo à Cultura logo após assumir a Cultura, em 2020. Os dois deixaram a pasta em março de 2022, quando o chefe se desincompatibilizou para concorrer à Câmara dos Deputados.

O aliado retornou à pasta em novembro como substituto eventual do titular, Hélio Ferraz, e por fim chegou ao comando da secretaria em 7 de dezembro, a menos de um mês do fim do governo Bolsonaro.

Remessas internacionais

A compra da casa de US$ 726 mil pela casa por meio do Mercury Legacy Trust veio a público depois que a atuação de Paulo Calixto, passou a ser alvo de escrutínio.

Calixto é responsável pelo Havengate, o fundo usado pela produtora Go Up Entertainment, responsável pela produção de “Dark Horse”, para receber remessas internacionais.

Mensagens trocadas entre Eduardo Bolsonaro e o empresário Thiago Miranda, que apresentou Daniel Vorcaro a Flávio Bolsonaro em 2024 e intermediou o investimento do dono do Master no longa-metragem, reveladas pelo Intercept Brasil indicam que o deputado cassado insistiu que os pagamentos do projeto ocorressem nos Estados Unidos.

“O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos. Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”, escreveu Eduardo.

Segundo o Intercept, a troca de mensagens ocorreu em março de 2025, mesmo mês em que o deputado anunciou seu autoexílio nos EUA. Ele foi cassado nove meses depois pela Mesa Diretora da Câmara por excesso de faltas.

Miranda é dono da Agência Mithi e ex-CEO do Portal Léo Dias e confirmou à equipe da coluna que Vorcaro chegou a pagar R$ 61 milhões dos R$ 134 milhões que haviam sido acordados entre o banqueiro e Flávio Bolsonaro.

Outro diálogo revelado pelo Intercept, este ocorrido em janeiro de 2025 mostra Vorcaro cobrando seu cunhado, Fabiano Zettel, tido pelos investigadores como seu operador financeiro, por atraso no pagamento das parcelas do filme. Zettel, então, relata entraves para concluir os repasses, que seriam feitos em dólar por meio de remessas internacionais.

Ainda de acordo com Thiago Miranda, o veículo para os repasses entre o Brasil e o fundo Havengate nos EUA era a empresa Entre Investimentos, ligada ao ecossistema do Banco Master.

Na conversa divulgada pelo site, Fabiano Zettel pouco tempo depois um comprovante do repasse de US$ 2 milhões para o fundo através da Entre Investimentos.


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