Conecte-se conosco

Brasil

Amazônia se consolida como centro de exportação de cocaína para a Europa, diz organização internacional

Manaus continua sendo o centro logístico do corredor, diz o relatório da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional.

garimpo-e-narcotrafico-atuam-j

Um submarino com 6,6 toneladas de cocaína de alta pureza, carga avaliada em mais de R$ 2 bilhões, foi apreendido em março de 2025 na região do arquipélago de Açores, em Portugal, em uma ação conjunta da polícia e da Marinha. Mais do que o volume avantajado de droga, chamou atenção das autoridades a origem do carregamento: a cidade de Macapá, capital do Amapá, estrategicamente fincada na foz do Rio Amazonas, no litoral brasileiro. As informações são do jornal O Globo.

A apreensão expôs uma transformação na geografia do crime transnacional. Sob influência da facção fluminense Comando Vermelho, a Amazônia brasileira se consolidou como um dos principais corredores de exportação de drogas em escala rumo ao continente Europeu.

Os detalhes dessa mudança estão no relatório “Amazônia Brasileira: Novos Corredores e Controle do Narcotráfico Transnacional”, lançado nesta quinta-feira (10) pela Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC). Segundo o estudo, o aumento da repressão em portos tradicionalmente usados pelo crime, como o de Santos (SP) e o de Vila do Conde (PA), levou os narcotraficantes a buscarem alternativas em áreas menos vigiadas.

Geograficamente isolado e com menos fiscalização, o terminal portuário do Amapá, em Santana, passou a ser usado como nova opção para o escoamento da cocaína.

— A rota do Rio Solimões já não é mais a única. O narcotráfico na Amazônia se transformou em um problema altamente complexo e dinâmico, no qual os criminosos diversificam e adaptam rotas e métodos constantemente para escapar da fiscalização e alcançar o mercado europeu — afirma Gabriel Funari, coordenador da Iniciativa Global contra o Crime Organizado Transnacional (GI-TOC) na região amazônica.

— O tráfico vem sendo redirecionado para o Amapá. O Porto de Santana não possui escâneres para contêineres, e as inspeções manuais são esporádicas.

O avanço das operações de tráfico também veio acompanhado do aumento das apreensões e da violência na região amazônica. Entre 2019 e 2024, as apreensões estaduais de cocaína cresceram 574%, ultrapassando 162 toneladas. No âmbito federal, o aumento foi de 84%, para 118 toneladas. Em 2024, a taxa de homicídios na Amazônia brasileira chegou a 27,3 por 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional.

O avanço do crime elevou tanto apreensões de drogas quanto homicídios na região amazônica. Entre 2019 e 2024, houve um crescimento de 574% nas apreensões estaduais de cocaína (mais de 162 toneladas) e de 84% nas apreensões federais (118 toneladas). A expansão foi acompanhada pelo aumento da violência: a taxa de homicídios na Amazônia brasileira em 2024 foi de 27,3 por 100 mil habitantes, 31% acima da média nacional.

Expansão

No centro dessa expansão está o Comando Vermelho (CV), que emergiu como a força dominante na bacia amazônica após anos de conflitos sangrentos com outros grupos. Diferente dos rivais, o CV adota um modelo de gestão mais flexível, e permite que facções locais operem com autonomia em troca de lealdade e acesso às rotas. Essa estratégia permitiu ao grupo controlar nós logísticos fundamentais, desde as plantações de coca no Peru até as periferias urbanas de Manaus e Macapá.

— O CV é o grande responsável pela consolidação da Amazônia como corredor de escoamento de cocaína para a Europa. Nos últimos 15 anos, houve essa expansão da facção na região, uma resposta estratégica dele para encontrar soluções para a fiscalização dos portos no Sudeste e para o domínio da Rota Caipira pelo PCC — avalia Funari.

O levantamento traz uma linha do tempo da evolução dos grupos criminosos na Amazônia. Ainda nos anos 1980, os cartéis de Medellín e Cali inauguraram a “Rota do Solimões”, ligando as zonas produtoras do Peru e da Colômbia a Manaus por meio de embarcações pesqueiras.

Nos anos 1990, com o enfraquecimento dos cartéis colombianos, as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (Farc) assumiram parte do controle do fornecimento e estabeleceram uma aliança com o CV, então liderado por Fernandinho Beira-Mar. A negociação envolvia cocaína em troca de armas brasileiras.

A facção paulista Primeiro Comando da Capital (PCC) ingressou na Amazônia em 2010, com o objetivo de ampliar suas exportações por Vila do Conde, no Pará. No mesmo período, grupos locais se unificaram na Família do Norte (FDN).

Após os massacres ocorridos em presídios de Manaus, em 2017 e 2019, porém, a FDN foi desmantelada e absorvida pelo CV, que passou a exercer hegemonia criminal em grande parte da bacia amazônica.
Manaus continua sendo o centro logístico do corredor, diz o relatório. A capital funciona como um ponto de confluência onde o preço da droga é renegociado e as cargas são distribuídas.

O quilo de cocaína, que custa cerca de US$ 1 mil nas áreas produtoras do Peru e da Colômbia, chega a US$ 3,5 mil em Manaus e pode alcançar US$ 5 mil quando deixa a costa brasileira. No destino final, cidades europeias, o preço no atacado chega a € 50 mil. A extensão dos rios amazônicos e a corrupção de agentes públicos estão entre os fatores que, segundo o estudo, facilitam a movimentação da droga.

Uma das descobertas consideradas mais alarmantes do estudo diz respeito ao “narcogarimpo”, a convergência direta entre o tráfico de drogas e o garimpo ilegal de ouro. As organizações criminosas aproveitam estruturas já criadas pelos garimpeiros, como pistas de pouso clandestinas e redes de transporte, para movimentar cocaína. O ouro também passou a ser utilizado como instrumento de lavagem de dinheiro e como meio de pagamento em transações internacionais, beneficiando-se, segundo o relatório, de fragilidades na regulação do mercado de metais no Brasil.

Mergulhadores

A sofisticação tática também evoluiu. A exemplo do que ocorre há anos no Porto de Santos, criminosos passaram a contratar mergulhadores profissionais para operações destinadas a esconder pacotes de cocaína em compartimentos submersos de navios cargueiros, sem o conhecimento da tripulação. São as chamadas caixas de mar das embarcações.

Segundo o estudo, esses profissionais não são necessariamente recrutados no Amapá. Mergulhadores são trazidos de avião do Rio de Janeiro e de São Paulo. Muitos seriam ex-militares de elite da Marinha ou ex-bombeiros. As operações ocorrem à noite nas águas do Rio Amazonas, que podem atingir até 30 metros de profundidade e apresentam visibilidade praticamente nula.

Em abril de 2024, a Polícia Federal identificou 150 kg de cocaína escondidos na caixa de mar de um navio atracado no Porto de Santana. Durante a tentativa de retirada da droga, um bombeiro local rompeu o tímpano devido à profundidade e às condições de visibilidade. A PF precisou convocar mergulhadores especializados de outros estados para resgatar o carregamento.

Em junho do ano passado, uma remessa de 400 kg de cocaína atribuída ao CV foi encontrada em uma área rural de Macapá. A droga aguardava um mergulhador que viria de outro estado para inseri-la em navios com destino a Portugal. As embarcações estavam ancoradas na zona de espera do Porto de Santana.

O uso de lanchas blindadas e de aeronaves que sobrevoam a floresta em baixa altitude para dificultar a detecção por radares é outro sinal, segundo o levantamento, da sofisticação das organizações criminosas e das limitações do monitoramento realizado pelas forças de segurança locais.

Para conter esse avanço, Funari defende uma cooperação transfronteiriça mais robusta e investimentos em tecnologia, especialmente na instalação de escâneres para contêineres em portos de menor porte.


Clique para comentar

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

1 × dois =