Amazonas
Pesquisa da Ufam divulgada na revista Science investiga o “silêncio” das aves na Amazônia
Pesquisadores temem que fenômeno seja o prenúncio de uma nova “primavera silenciosa” causada pelas mudanças climáticas.
Uma pesquisa realizada pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam) ganhou destaque internacional ao ser publicada da edição de fevereiro deste ano na seção de notícias da revista científica internacional Science. O estudo investiga as causas do misterioso declínio populacional de aves em florestas tropicais intactas, fenômeno que pesquisadores temem ser o prenúncio de uma nova “primavera silenciosa” causada pelas mudanças climáticas.
O estudo é fruto do projeto IRRIGA, coordenado pela professora Cintia Cornelius, docente do Instituto de Ciências Biológicas (ICB-Ufam) e do Programa de Pós-Graduação em Zoologia (PPGZOOL). O projeto também é liderado pelos pesquisadores David Luther (George Mason University) e Jared Wolfe (Michigan Technological University), e conta com a colaboração de docentes e discentes da Ufam e do Inpa.
O experimento principal ocorreu na Fazenda Experimental da Ufam, onde a equipe montou o que chamam de uma “máquina do tempo virtual”. Durante a pesquisa, buscou-se entender se a redução das chuvas e o aumento das temperaturas estão prejudicando as aves. Para isso, os pesquisadores instalaram uma rede de 3 quilômetros de tubulações e 72 aspersores em parcelas da floresta. O objetivo era suplementar a chuva natural durante a estação seca para mimetizar os níveis de umidade registrados na década de 1980, permitindo comparar a saúde das aves nessas áreas com as de áreas que sofrem com as secas atuais.
A execução técnica do sistema de irrigação do experimento em campo foi liderada por Stefano Avilla, doutorando do PPGZOOL da Ufam com a colaboração do Prof. Silfran Marialva Alves (FCA-UFAM). Os primeiros resultados são reveladores: as aves capturadas nas áreas irrigadas mostraram-se mais bem alimentadas, com níveis mais altos de gordura no sangue e sinais físicos de maior sucesso reprodutivo em comparação com as aves das áreas não irrigadas.
Mesmo em anos de extremos climáticos opostos — como a severa seca de 2024 e o excesso de chuva em 2025 — os dados preliminares sugerem que as aves beneficiam-se de estações secas mais úmidas, o que reforça a hipótese de que as mudanças climáticas estão afetando a disponibilidade de alimentos (insetos) e a sobrevivência das espécies.
O declínio atinge especialmente aves insetívoras que vivem próximas ao solo, como o uirapuru-veadeiro, cujo canto está se tornando uma raridade. Como as aves desempenham papéis cruciais na polinização, dispersão de sementes e controle de pragas, seu desaparecimento pode desequilibrar todo o ecossistema.
A pesquisa no projeto IRRIGA se estende também para outros grupos de animais. A doutoranda e egressa da UFAM, Aline Souza Medeiros (George Mason University) investiga os efeitos sobre mamíferos e aves usando ferramentas como câmeras e gravadores autônomos que registram o uso das áreas irrigadas por estes animais.
A professora Cintia Cornelius ressalta que o projeto tem sido vital para o desenvolvimento da pesquisa acadêmica na região, apoiando docentes e alunos de pós-graduação. Apesar de desafios recentes no financiamento internacional, a equipe já garantiu recursos para manter o experimento em 2026, buscando agora financiamento com agências de fomento no Brasil e parcerias com filantropia privada para dar continuidade a este trabalho crítico para o futuro da Amazônia.
A Primavera Silenciosa
Em 1962, a pesquisadora Rachel Carson publicou o livro Primavera Silenciosa, que aborda a influência no pesticida DDT no índice de mortalidade de abelhas, o que prejudicou o processo de polinização de flores, além de influenciar, também, a saúde humana. O livro é considerado um marco para o movimento ambientalista. Na época, o livro gerou comoção pública e, por pressão popular, o inseticida DDT foi proibido em diversos países.
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