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Narcoguerrilha na fronteira do Amazonas já é a principal ameaça aos homens do Exército, revela general

General revela que narcoguerrilha colombiana virou maior ameaça ao Exército na Amazônia após tensão com Maduro, informa Estadão.

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O chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, afirmou que soldados da 2ª e da 16ª Brigadas de Infantaria de Selva enfrentam ataques e trocas de tiros semanais com integrantes dos Grupos Armados Organizados Residuais, os Gaor, dissidências das Farc (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que atuam no narcotráfico na fronteira entre Brasil e Colômbia. As informações são do Estadão.

A declaração mudou o foco do debate militar na Amazônia. Até pouco tempo, a atenção mais visível recaía sobre Roraima, por causa da tensão entre Venezuela e Guiana envolvendo a região de Essequibo. Agora, de acordo com o general, a prioridade operacional do Comando Militar da Amazônia pode estar mais a oeste, nas áreas ligadas às rotas do Solimões e da chamada Rota Caipira.

O alerta do general Montenegro foi feito durante o seminário A Evolução da Guerra: Desafios para o Componente Terrestre, no quartel-general do Exército. Segundo o Estadão, ele afirmou que o cenário no Comando Militar da Amazônia (CMA) mudou e que pelotões brasileiros vêm combatendo guerrilheiros colombianos que atravessam a fronteira para escoar drogas.

A informação desloca o centro da preocupação militar de uma crise geopolítica clássica, envolvendo Maduro e Essequibo, para uma ameaça híbrida, formada por crime organizado, narcotráfico e grupos armados transnacionais. Esse tipo de ameaça é mais difícil de enquadrar. Não se trata de uma guerra declarada.

Na prática, grupos armados entram em áreas remotas, usam rotas fluviais, exploram vazios de Estado, se misturam a economias ilegais e desafiam tropas posicionadas em pelotões de fronteira.
Os Gaor são grupos armados que surgiram a partir de dissidências das Farc, a antiga guerrilha colombiana que assinou acordo de paz com o governo da Colômbia em 2016. Nem todos os combatentes aceitaram o processo de desmobilização.

Parte deles permaneceu armada, manteve presença em antigas áreas de influência das Farc e passou a disputar economias ilegais.

O InSight Crime descreve as dissidências das Farc como estruturas criminosas formadas por antigos integrantes da guerrilha, envolvidas em cultivo de coca, tráfico de drogas, mineração ilegal e extorsão.

A Human Rights Watch também aponta que, quase uma década depois do acordo de paz, a violência voltou a crescer na Colômbia em novas formas, com aumento da presença de grupos armados ligados a economias ilegais, como narcotráfico, mineração ilegal e desmatamento.

Esse contexto ajuda a explicar por que dissidências colombianas passaram a representar risco direto para tropas brasileiras na Amazônia. Elas não atuam apenas dentro da Colômbia.
Quando rotas de droga cruzam rios, igarapés e fronteiras porosas, o problema deixa de ser exclusivamente colombiano e passa a atingir o território brasileiro.

O general mencionou duas rotas sensíveis: a Rota do Solimões e a Rota Caipira. A Rota do Solimões liga áreas produtoras de drogas nos países andinos à malha fluvial amazônica, passando por pontos próximos da tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru. Depois, a carga pode seguir por rios até Manaus, Belém e rotas internacionais voltadas à Europa e à África.

A Rota Caipira, por sua vez, costuma ser associada ao escoamento de drogas pelo Centro-Oeste e pelo Sudeste, com conexão com grandes mercados consumidores e portos de exportação.
O ponto central é que o Brasil aparece como corredor logístico para drogas produzidas fora do país, mas transportadas por dentro de sua própria geografia.

A ONU, por meio do Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime, destacou em 2026 que Brasil e Colômbia assinaram um protocolo de intercâmbio de inteligência para enfrentar o crime organizado transnacional ligado ao tráfico de drogas em áreas marítimas e fluviais da Amazônia compartilhada.

A iniciativa mostra que a fronteira amazônica deixou de ser apenas uma preocupação militar isolada. Ela virou também um problema de inteligência, cooperação policial, navegação fluvial e segurança regional.

Linha de frente

Os Pelotões Especiais de Fronteira, conhecidos como PEF, são uma das faces mais visíveis da presença militar brasileira nas áreas remotas da Amazônia. Eles funcionam como pequenos pontos permanentes do Estado em regiões de difícil acesso, muitas vezes cercadas por rios, selva fechada e comunidades isoladas.

É nesses locais que jovens oficiais, sargentos e soldados ficam expostos ao contato direto com criminosos armados que tentam cruzar o território brasileiro.

Segundo o Estadão, o general Montenegro afirmou que tenentes e sargentos estão “combatendo toda semana” e “trocando tiro” com integrantes dos Gaor colombianos.

Em fevereiro de 2025, o Exército apreendeu uma tonelada de maconha tipo skunk em uma embarcação no Rio Içá, no Amazonas, perto da fronteira com a Colômbia. Segundo a CNN Brasil, a carga foi avaliada em R$ 20 milhões, e uma cadela farejadora do 2º Pelotão Especial de Fronteira ajudou a localizar a droga escondida no casco do barco.

A nova prioridade citada pelo general contrasta com o cenário de 2023, quando a tensão entre Venezuela e Guiana elevou o alerta brasileiro em Roraima. Naquele momento, o governo de Nicolás Maduro intensificou a pressão sobre Essequibo, território administrado pela Guiana e reivindicado pela Venezuela.

O Brasil reforçou sua presença na fronteira norte para impedir qualquer uso do território brasileiro em uma eventual manobra militar venezuelana.

O Exército antecipou a implantação do 18º Regimento de Cavalaria Mecanizado em Boa Vista, com estrutura maior do que a unidade anterior e capacidade blindada reforçada, segundo publicação especializada baseada em informações do Exército.

A ameaça revelada agora é diferente. Ela não depende de grandes formações militares. Não exige colunas de veículos cruzando uma estrada. Ela se espalha por rios, trilhas, comunidades e rotas clandestinas.

A dimensão do problema aparece nos números operacionais. Segundo informações divulgadas pelo Exército e repercutidas em maio de 2026, a atuação da Força Terrestre na faixa de fronteira impôs mais de R$ 600 milhões de prejuízo ao crime em 2025, em milhares de ações contra ilícitos.

Essas ações envolvem apreensão de drogas, destruição de estruturas ilegais, patrulhamento, apoio a órgãos de segurança pública e presença em áreas de fronteira. O dado mostra que a fronteira amazônica não é apenas uma linha geográfica distante, mas um corredor econômico disputado por redes criminosas.

Para o crime organizado, a Amazônia oferece rios, baixa densidade populacional, dificuldade de fiscalização e proximidade com países produtores de cocaína.

Para o Estado brasileiro, oferece um desafio permanente: proteger soberania, combater ilícitos e manter presença em uma área imensa, cara e logisticamente difícil.

O general Montenegro também afirmou, segundo o Estadão, que o Exército avalia quais novos equipamentos deve comprar para apoiar os militares que vivem esse combate diário.

Tropas de selva precisam de embarcações rápidas, sensores, drones, comunicações seguras, armamento adequado, visão noturna, apoio aéreo, inteligência e capacidade de evacuação médica.
O combate contra grupos armados na selva exige uma combinação de tecnologia, presença humana e conhecimento territorial. Um pelotão isolado não depende apenas de fuzis. Depende de abastecimento, combustível, antenas, embarcações, motores, manutenção, informações atualizadas e apoio de outras agências.

O avanço das dissidências das Farc também tem relação com o cenário interno colombiano. A Human Rights Watch afirma que 2025 marcou um dos piores períodos humanitários em uma década no país, com presença ampliada de grupos armados, deslocamento forçado e violência em áreas rurais.

O InSight Crime aponta que as dissidências das Farc não formam uma organização única e centralizada. Elas se distribuem em facções, muitas delas conectadas a economias ilegais e a antigos territórios de influência da guerrilha. R essa fragmentação complica qualquer resposta brasileira.


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