Brasil
Super El Niño coloca setor elétrico do Brasil em alerta e pode elevar custo da tarifa
Especialistas descartam possibilidade de racionamento, mas previsão de fenômeno “muito forte” aumenta pressão em reservatórios.
A possibilidade de um El Niño de intensidade histórica no segundo semestre elevou o nível de preocupação no setor elétrico brasileiro. A nova atualização da NOA (Administração Nacional Oceânica e Atmosférica) dos Estados Unidos indica 81% de probabilidade de um El Niño “muito forte” entre outubro e dezembro e 97% de chance de o fenômeno persistir até o início de 2027, cenário que pode reduzir as chuvas em regiões estratégicas para a geração hidrelétrica brasileira.
O ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico) já discute com o Comitê de Monitoramento do Setor Elétrico (CMSE) medidas preventivas para preservar os estoques de água dos reservatórios. Entre elas está a possibilidade de despacho de usinas termelétricas fora da ordem de mérito econômico por razões de garantia energética, além da avaliação, pelo governo, de antecipar a entrada em operação de parte das térmicas contratadas no Leilão de Reserva de Capacidade (LRCap).
Embora especialistas descartem qualquer risco de racionamento ou apagão, o consenso é de que a adoção dessas medidas tende a pressionar o custo da operação do sistema e, consequentemente, as tarifas pagas pelos consumidores.
ONS quer preservar água
O principal receio do operador não está exatamente na região Sul, mas na possibilidade de atraso das chuvas na região Norte, onde estão hidrelétricas estruturantes como Belo Monte, Santo Antônio e Jirau.
Por isso, o ONS decidiu preservar os reservatórios do Sul em níveis mais elevados até o início do período úmido. A estratégia busca garantir potência disponível caso a recuperação hidrológica no Norte demore mais do que o esperado. O diretor de Planejamento do ONS, Alexandre Zucarato, disse recentemente que o planejamento incorpora as lições da crise hídrica de 2021 e pode incluir despacho de usinas fora da ordem de mérito caso as condições hidrológicas se agravem.
Na prática, o Sul representa cerca de apenas 7% da capacidade nacional de armazenamento de água. Os grandes reservatórios que sustentam o sistema continuam concentrados no subsistema Sudeste/Centro-Oeste, razão pela qual o comportamento das chuvas nessa região continuará sendo determinante para o restante do período seco e para 2027.
Tarifa pode ser principal vítima
Para o coordenador-geral do Grupo de Estudos do Setor Elétrico (Gesel/UFRJ), Nivalde de Castro, o fator decisivo será o comportamento das chuvas a partir de outubro. “Se chover abaixo da média, as bandeiras tarifárias serão acionadas.”
Segundo Castro, caso as projeções de menor precipitação no Sudeste/Centro-Oeste se confirmem também em 2027, a tendência é de continuidade do uso das bandeiras tarifárias. “Não há risco de apagão. Isso está descartado”, frisa.
A preocupação, segundo ele, está muito mais relacionada aos custos da operação do sistema e ao cenário hidrológico para o próximo ano.
A percepção é compartilhada pelo ex-diretor da Aneel Edvaldo Santana. Segundo ele, o despacho térmico já vem crescendo mesmo com o Preço de Liquidação das Diferenças (PLD) no piso regulatório.
Ele lembra que o Programa Mensal da Operação (PMO) do ONS já mostra despacho superior ao normalmente observado para esta época do ano. “Que teremos bandeira vermelha, não tenho dúvida. A dúvida agora é saber quando”, diz
A avaliação também é feita pelo professor emérito da Coppe/UFRJ, Djalma Falcão. Ele lembra que o sistema elétrico brasileiro é fortemente dependente das condições climáticas. Caso o despacho adicional de térmicas seja necessário para preservar reservatórios, o aumento dos custos inevitavelmente será repassado às tarifas.
Bandeira amarela já sinaliza pressão
Parte dessa pressão já começou a aparecer na conta de luz. A Aneel manteve a bandeira tarifária amarela para julho justamente em razão da redução dos níveis dos reservatórios e da necessidade de acionamento de usinas termelétricas, que possuem custo mais elevado que as hidrelétricas.
O adicional é de R$ 1,885 a cada 100 kWh consumidos. A própria agência destaca que as bandeiras servem justamente para sinalizar ao consumidor quando a geração se torna mais cara devido ao maior uso de térmicas.
Caso a necessidade de despacho preventivo se intensifique nos próximos meses, especialistas avaliam que o sistema poderá evoluir para bandeiras mais onerosas.
Menos reservatórios tornam o sistema mais dependente das térmicas. Na avaliação do presidente da Abraget (Associação Brasileira das Geradoras Termelétricas), Xisto Vieira Filho, o cenário atual evidencia uma mudança estrutural do sistema elétrico brasileiro.
Segundo ele, o Plano da Operação Energética 2026-2030 do ONS mostra que o país vem reduzindo sua capacidade relativa de armazenamento de água ao longo dos anos. Isso ocorre porque praticamente deixaram de ser construídos grandes reservatórios, enquanto aumentam simultaneamente a demanda por eletricidade e os usos múltiplos da água.
Como consequência, cresce também a necessidade de utilização das usinas termelétricas para garantir a segurança energética. Na avaliação do executivo, o despacho neste período seco já costuma ser elevado, mas a tendência é que fique acima da média caso as previsões climáticas se confirmem.
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