Mundo
Pesquisa mostra erosão global da imagem de Trump e queda da confiança nos EUA; rejeição no Brasil aumenta
Para 76% dos entrevistados pelo Pew Institute, presidente americano não é confiável; ações do país no Irã, Venezuela e papel na guerra em Gaza são malvistas pela maioria.
Poucas vezes na História recente a imagem dos EUA diante do mundo esteve tão degradada como agora, revelou uma pesquisa divulgada nesta terça-feira (23) , que ouviu entrevistados de 36 países, incluindo o Brasil. Os números mostram uma opinião majoritariamente desfavorável sobre o país, sobre o presidente, Donald Trump e sobre as políticas de Washington para o resto do mundo. A sondagem foi feita pelo Pew Research Center, um centro de estudos apartidário baseado nos EUA.
Na média global, 57% dos entrevistados têm uma visão negativa sobre os Estados Unidos, contra 37% que o veem de maneira favorável. 50% acreditam que os EUA não são um parceiro confiável, 63% argumentam que o país não contribui para a paz e a estabilidade global e 66% afirmam que Washington não leva em conta os interesses de outras nações na hora de tomar suas decisões.
Os maiores índices de rejeição vêm da Ásia e da Europa. Na França, Holanda e Alemanha, o percentual supera os 70%. Na Suécia, um dos mais recentes membros da Otan, 80% veem os EUA desfavoravelmente, número similar aos de Malásia (80%), Paquistão (81%), Turquia (84%) e na Cisjordânia e Jerusalém Oriental, com 82%.
No Japão, um antigo aliado americano, há um empate entre os que apoiam e os que rejeitam os EUA, 50%. Já na África, a opinião é majoritariamente positiva, assim como em partes da América Latina. Na Colômbia, que domingo elegeu um novo presidente apoiado explicitamente por Trump, 60% são favoráveis aos americanos. No Brasil, 47% encaram os EUA de forma positiva, enquanto 43% declararam ter uma visão negativa — em 2025, eram 56% os brasileiros com opinião favorável.
O país mais pró-Estados Unidos continua sendo Israel, onde o apoio é de 81%.
Os números sobre o trabalho do presidente Trump — cuja aprovação nos EUA está abaixo dos 40% — são ainda piores. Nada menos do que 76% dos entrevistados disseram não ter confiança no republicano em temas internacionais. Em 11 países, incluindo seis aliados da Otan, o índice supera os 80%, com a Turquia registrando 92%. Já nas Filipinas, Israel, Gana, Nigéria e Quênia ele segue popular, especialmente entre os que se declararam cristãos ou judeus.
No Brasil, 64% das pessoas disseram não confiar nas ações do republicano, patamar similar do ano passado, quando retornou à Presidência (61%), mas consideravelmente menor do que o registrado em seu primeiro mandato, quando a desaprovação chegou a 78% em 2018. O dado se mostra particularmente relevante devido aos sinais de que a Casa Branca poderá interferir de alguma forma na eleição presidencial de outubro e às discussões sobre potenciais impactos na disputa.
A deterioração da imagem dos Estados Unidos no mundo, revertendo uma breve recuperação no governo de Joe Biden (2021-2025), é resultado direto da postura mais agressiva da política externa americana, com o abandono da premissa de “EUA em primeiro lugar” que norteou o primeiro mandato de Trump e é bandeira do movimento Maga (“Façam os EUA Grandes Novamente”). Agora, a Casa Branca quer ampliar sua pegada global e forçar regiões a retornarem à sua esfera de influência, como é o caso da América Latina, com a versão repaginada da Doutrina Monroe.
Intervenções questionadas
Segundo o Pew, 77% dos entrevistados rejeitam o tarifaço global anunciado no ano passado — no Brasil, só 19% o aprovam —, 65% são contra as políticas migratórias de Trump — aprovadas por 25% no Brasil —, e 56% desaprovam as novas diretrizes para a distribuição de ajuda humanitária, severamente reduzida pelos cortes promovidos nas primeiras semanas de governo. Para 41% dos entrevistados no Brasil, as políticas atuais de assistência americana são corretas.
As guerras de Trump, assim como a maneira como ele lidou com conflitos já existentes, foram igualmente rejeitadas por boa parte do planeta. Só 20% dos entrevistados aprovaram a ofensiva lançada contra o Irã no final de fevereiro, hoje em suspenso em meio a negociações, e 22% consideraram correta a intervenção na Venezuela, em janeiro, que terminou com a captura do presidente Nicolás Maduro.
Em Gaza, onde Washington se pôs ao lado de Israel, as ações americanas foram aprovadas por 18%. Na Ucrânia, conflito que Trump prometeu encerrar em 24 horas caso eleito, mas que já está em seu quinto ano, sua atuação teve o aval de 20%. Com exceção do cenário na Venezuela, aprovado por 33%, as posições dos brasileiros são similares às da maioria dos entrevistados.
Em outro consenso, os pesquisadores constataram que a maioria das pessoas ouvidas em 17 nações em desenvolvimento considera (76%) que os EUA interferem em demasia nos assuntos de outros países. No Brasil, 76% concordam com a afirmação, especialmente os adultos entre 30 e 49 anos (82%). De acordo com o Pew, até os americanos reconhecem a influência em demasia de seu governo em temas alheios, 83%.
Além de Trump, os pesquisadores testaram a popularidade de outros líderes mundiais. Volodymyr Zelensky, presidente da Ucrânia, tem o aval da maioria dos europeus, mas não angaria o mesmo apoio no Oriente Médio e partes da Ásia Seu antagonista, Vladimir Putin, é rejeitado na Europa mas tem números positivos na África e em países como Indonésia (64%) e Malásia (62%). Benjamin Netanyahu, premier de Israel, só teve aval superior a 50% nas Filipinas e no Quênia. Xi Jinping, presidente chinês, tem suas bases de apoio na África e partes da Ásia. Em uma nota peculiar, nenhum líder registrou mais de 45% de aprovação na América Latina, a mais cética região pesquisada.
O Pew entrevistou 42.151 pessoas em 36 países e regiões, além de 3.507 residentes nos EUA, de forma presencial, por telefone e online, entre os dias 8 de fevereiro e 13 de maio.
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