Mundo
ONG britânica denuncia chegada de madeira irregular da Amazônia à Europa
Investigação aponta que o material da empresa Samise, alvo da Justiça no Pará, chegou ao continente por meio de importadoras que comercializam produtos certificados.
Investigação da Earthsight denuncia que milhares de metros cúbicos de madeira derivados de uma concessão florestal alvo de investigações na Amazônia chegaram ao mercado europeu — Foto: Divulgação/Reprodução
Um relatório da ONG britânica Earthsight, publicado nesta segunda-feira (22), denuncia que milhares de metros cúbicos de madeira derivados de uma concessão florestal alvo de investigações na Amazônia chegaram ao mercado europeu. O destino final do material, segundo o documento, foram obras de infraestrutura e paisagismo na Holanda. Para a organização, o caso “evidencia fragilidades nos sistemas de certificação e nos mecanismos de controle das cadeias globais de fornecimento de madeira”.
O relatório “Cuidado onde você pisa! O deck holandês construído com madeira suspeita da Amazônia” aponta que o material foi fornecido pela Samise Indústria, Comércio e Exportação Ltda. O estudo aponta que a empresa paraense “acumula multas, suspensões operacionais e uma condenação criminal”.
A investigação, que contou com apoio do Center for Climate Crime Analysis (CCCA), utilizou imagens de satélite, decisões judiciais, documentos de transporte e registros de exportação relacionados à atuação da Samise na Floresta Nacional de Saracá-Taquera, no Pará, para apurar a origem da madeira.
Segundo a ONG, o angelim-vermelho — espécie amplamente utilizada em deques, passarelas e estruturas externas — chegou ao mercado holandês por meio de importadoras que comercializam madeira certificada para obras de infraestrutura e paisagismo.
Entre as empresas que receberam madeira derivada dessa cadeia de fornecimento, segundo o estudo, estão a Hoogendoorn Hout e a Van den Berg Houtgroep — duas das importadoras europeias de madeira tropical brasileira com mais espaços de mercado.
— A madeira investigada percorreu toda a cadeia de fornecimento e muito provavelmente chegou ao mercado europeu mesmo após suspensões operacionais, multas e investigações. Isso evidencia falhas tanto nos mecanismos de certificação quanto na fiscalização das cadeias globais de comércio de madeira — afirma Rafael Pieroni, líder da Earthsight para a América Latina.
“Entre os episódios destacados pela investigação estão a suspeita de adulteração da identificação de mais de 600 toras avaliadas em cerca de 550 mil reais, a suspensão das operações após indícios de fraude, o transporte de madeira durante período de suspensão operacional e o envio de produtos para a serraria Greenex, posteriormente comercializados nos mercados doméstico e internacional”, diz a ONG Earthsight.
Os dados presentes no estudo da ONG mostram que, “além das multas totalizando aproximadamente R$ 7 milhões por violações das leis brasileiras”, a Samise “também devia mais de R$ 2,2 milhões ao governo federal em penalidades relacionadas ao não pagamento das taxas de concessão, o que levou a mais uma suspensão de suas atividades em março de 2025”.
Certificação
O estudo aponta que a empresa possuía certificação do Forest Stewardship Council (FSC) desde 2016 e foi alvo de sucessivas suspensões entre 2023 e 2025 — o cancelamento do certificado ocorreu apenas em março de 2026.
Nesta segunda-feira, o Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima publicou no Diário Oficial a decisão do diretor-geral do Serviço Florestal Brasileiro (SFB) de extinguir o contrato com a Samise. Houve o entendimento de que a empresa não consegue cumprir os acordos previstos. A Samise ainda pode tentar reverter a decisão no prazo de dez dias.
Limitação de certificação
O relatório também aponta que a certificação do FSC permaneceu válida “durante boa parte do período em que a empresa acumulava sanções e questionamentos por parte de órgãos ambientais brasileiros”.
Para a Earthsight, o caso evidencia “limitações tanto do sistema de certificação florestal quanto da aplicação do Regulamento da União Europeia sobre Madeira (EUTR), legislação em vigor desde 2013 que proíbe a entrada de madeira produzida ilegalmente na União Europeia e exige que importadores adotem procedimentos de diligência para verificar a legalidade de suas cadeias de suprimento”.
Segundo a organização, uma parcela relevante de empresas “continua tratando certificações ambientais como principal instrumento de verificação, sem realizar análises independentes mais aprofundadas sobre a origem dos produtos”. Uma das conclusões da investigação é, portanto, que a dependência excessiva de certificações pode permitir que riscos relevantes passem despercebidos ao longo da cadeia de fornecimento.
A ONG defende a necessidade de “implementação rigorosa da nova regulamentação europeia voltada ao combate ao desmatamento, cuja entrada em vigor está prevista para dezembro de 2026”. Entre outros pontos, a norma exigirá controles mais robustos sobre a origem de produtos florestais comercializados no mercado europeu.
— À medida que a União Europeia se prepara para implementar a nova regulamentação antidesmatamento, este caso reforça a necessidade de que a diligência das empresas vá muito além da simples verificação de certificados ambientais — conclui Pieroni.
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