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Nova projeção indica prolongamento do super El Niño até outono de 2027

Nesta nova projeção do modelo de clima europeu, o El Niño continuaria apresentando intensidade muito forte durante os primeiros meses de 2027 e ainda teria intensidade forte no começo do outono.

O European Centre for Medium-Range Weather Forecasts (ECMWF) fez nova projeção do modelo de clima europeu e indicou o prolongamento do fenômeno climático El Niño com intensidade muito forte até o outono de 2027. Os dados do ECMEF são atualizados mensalmente e os novos prognósticos reforçam um cenário de excepcional persistência para o atual episódio de El Niño.

Segundo informações divulgadas no site Metsul, há projeções, de acordo com o sistema SEAS5, inicializado em 1º de outubro de 2026, que o aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial seguiria em níveis extremamente elevados durante todo o verão do Hemisfério Sul e continuaria muito forte ao menos até o outono de 2027.

Mapas do modelo de clima europeu para o El Niño

A previsão é baseada na anomalia de temperatura da superfície do mar na região Niño 3.4, uma das principais áreas utilizadas para acompanhar a evolução do El Niño. O gráfico mostra a maior parte dos cenários indicando anomalias próximas ou superiores a 4°C no final deste ano. O pico aparece entre novembro e dezembro de 2026.

Alguns membros do conjunto de previsão do ECMWF chegam a projetar anomalias próximas de +4,3°C na região Niño 3.4, um valor extraordinariamente alto, considerando que pelo índice ONI (Índice Oceânico Niño), o recorde de aquecimento até este El Niño era de +3ºC em 2015. Hoje, a anomalia na parte Centro-Leste do Pacífico está em +3,2ºC, logo em território recorde.

A maior parte das simulações permanece acima de +3,5°C no período, indicando que o fenômeno deve alcançar seu auge justamente durante o final da primavera e o começo do verão do Hemisfério Sul. Após o pico previsto para o final deste ano, o modelo europeu projeta redução gradual das anomalias de temperatura da superfície do mar no Pacífico Equatorial. A queda, entretanto, ocorreria lentamente.

Em janeiro e fevereiro de 2027, grande parte dos cenários ainda mantém anomalias entre aproximadamente +3°C e +4°C. Em março e abril, mesmo com a tendência de enfraquecimento, muitos membros continuam apontando valores entre +2,5°C e +3,5°C.

Em outras palavras, nesta nova projeção do modelo de clima europeu, o El Niño não desapareceria rapidamente depois do verão. O fenômeno continuaria apresentando intensidade muito forte durante os primeiros meses de 2027 e ainda teria intensidade forte no começo do outono.

É importante observar que, no caso do modelo de clima europeu, os valores do gráfico representam anomalias mensais da temperatura da superfície do mar em relação à climatologia de 1991-2020 do ERA5, assim não devem ser confundidos diretamente com o ONI, índice utilizado pela NOAA.

Outro aspecto a ser considerado é a dispersão entre os membros do conjunto de projeções. Conforme o horizonte aumenta em número de meses a partir da chamada inicialização do modelo, que se deu em 1º de outubro, as linhas vermelhas se afastam progressivamente. Significa que a incerteza cresce para os meses mais distantes. Independentemente, chama nossa atenção na MetSul o fato de praticamente todas as simulações permanecerem em território de forte aquecimento durante vários meses.

Modelo de clima dos Estados Unidos tem cenário distinto 

O modelo climático norte-americano CFS (Climate Forecast System), da NOAA, apresenta cenário bastante semelhante ao europeu para a evolução do El Niño em curto e médio prazo, mas difere no longo prazo. O modelo de clima dos Estados Unidos, que ao contrário do europeu, atualiza todos os dias, indica que a região Niño 3.4 deve permanecer com anomalias extremamente elevadas no fim do ano com o conjunto de previsões concentrado em valores próximos de +3°C a +3,5°C, embora alguns membros alcancem valores superiores a +3,5°C. O pico projetado pelo CFS ocorre entre novembro e dezembro, seguido por tendência gradual de enfraquecimento a partir do começo de 2027.

A partir daí começa a principal diferença em relação ao ECMWF, principalmente na velocidade de enfraquecimento do fenômeno. Enquanto o modelo europeu mantém grande parte de seus cenários com anomalias próximas ou acima de +3°C até março e abril de 2027, o CFS apresenta queda mais acentuada ao longo do primeiro semestre. Pela projeção norte-americana, a anomalia do Niño 3.4 cai para perto de +2°C em março, aproxima-se de +1°C em abril e maio e, em parte dos membros, chega perto da neutralidade no começo do inverno de 2027.

El Niño recorde não significa eventos extremos

Ao se ler que o El Niño atinge intensidade sem precedentes, não se deve interpretar que haverá consequências com magnitude jamais vista. A relação entre intensidade do evento e suas consequências não é linear. Em outras palavras, o fato deste El Niño ser o mais intenso da história não necessariamente significa que o Sul do Brasil terá as maiores enchentes da história ou o Norte e Nordeste a maior seca já observada. Uma série de fatores atmosféricos em paralelo ao El Niño, e que variam muito, determinam que as consequências sejam mais ou menos graves nos diferentes estados brasileiros a cada episódio.

Infográfico dos efeitos do El Niño

Historicamente, no Norte do Brasil, o El Niño costuma provocar diminuição das chuvas, especialmente no Norte e no Leste da Amazônia. O resultado é um período mais seco e quente, que favorece a propagação de queimadas e agrava incêndios florestais. No Nordeste, os efeitos são ainda mais críticos: a redução acentuada das precipitações pode levar a episódios de seca, comprometendo o abastecimento de água e causando prejuízos significativos à agricultura.

No Centro-Oeste, historicamente, os impactos tendem a ser mais moderados, com uma tendência de chuvas acima da média em algumas áreas, sobretudo mais ao Sul da região, mas acompanhadas por temperaturas mais elevadas. Episódios de calor intenso se tornam mais frequentes, sobretudo no final do inverno e durante a primavera, enquanto as queimadas aumentam. Já no Sudeste, os sinais são mistos.

Há anos em que chove mais, como é o caso deste El Niño, e outros em que o clima fica mais seco e quente, como foi no evento de 2023. Não há, assim, um padrão claro e consistente de mudança no regime de chuva e temperatura.

No Sul do Brasil, o fenômeno costuma ter efeitos mais marcantes, com aumento significativo das chuvas e maior frequência de eventos extremos. São comuns episódios de precipitação volumosa, que elevam o risco de cheias e enchentes, principalmente no inverno e na primavera do primeiro ano do fenômeno e no outono do ano seguinte, mas mesmo no verão podem ocorrer extremos de chuva com enchentes.

As duas maiores enchentes da história gaúcha, 1941 e 2024, não se deram no primeiro ano do El Niño e sim no outono do ano seguinte, o que neste episódio corresponderia a 2027. Temporais se tornam mais frequentes, assim como a ocorrência de ciclones, alguns deles intensos, enquanto as temperaturas tendem a ficar acima da média, apesar de eventuais incursões de frio no Sul do Brasil. O final do inverno e a primavera, em particular, são de alto risco de tempo severo com temperaturas mais altas, sendo frequentes ondas de tempestades com granizo, vendavais e até tornados.


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