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Morre Janet Malcolm, a mestra norte-americana que levou os jornalistas ao divã

Repórter da revista ‘The New Yorker’ morre aos 86 anos, de câncer de pulmão. “Todo jornalista sabe que o que faz é moralmente indefensável”, escreveu ela, naquela que é, sem dúvida, sua frase mais memorável.

A escritora e jornalista Janet Malcolm, em São Francisco em junho de 1993. (Foto Geroge Niktin/ AP)

Provocar por meio do jornalismo foi a marca registrada de Janet Malcolm, uma mestre da informação que morreu nesta quinta-feira aos 86 anos em Nova York devido a um câncer de pulmão. “Todo jornalista sabe que o que faz é moralmente indefensável”, escreveu ela, naquela que é, sem dúvida, sua frase mais memorável. Veterana da revista The New Yorker, sua carreira, que se prolongou por 55 anos, sempre esteve temperada por seu olhar penetrante, seu interesse perpétuo pela cultura, um estilo narrativo ajustado como uma luva à não ficção ―uma escola fértil na América― e opiniões provocativas, que tiraram os alicerces do jornalismo e de quem o pratica. A informação é do El País.

David Remnick, atual chefe da publicação que Malcolm ajudou a elevar como referência para o jornalismo de fôlego, enviou uma mensagem aos seus colaboradores para explicar que, embora o novo número da edição impressa já esteja fechado, ele tentará incluir um post scriptum “para falar mais sobre seu trabalho e sua importância para esta instituição”, informa Camila Osorio. “Janet foi uma amiga querida, uma pessoa de integridade absoluta, uma mestra verdadeira e inabalável. Vamos sentir muito a sua falta”, escreveu Remnick, depois de se parabenizar pelo acordo alcançado no dia anterior entre a equipe e a administração, após semanas de greve e mobilizações em busca de melhores salários. “Maravilhosa notícia de ontem [esta quarta-feira], para satisfação de todos; tristes hoje” pela morte de Malcolm.

Muitos colegas, como Susan Orlean, prestaram homenagem nas redes sociais a esta dama terrível do jornalismo americano e, por extensão, do jornalismo global. É impossível estimar o volume da escrita de Malcolm ao longo de cinco décadas. Seus assuntos de interesse eram variados, desde a crônica policial (que ele praticou no recente ensaio Ifigenia em Forest Hills) à psicanálise, passando pela biografia, literatura ou fotografia. Artigos de acabamento requintado e documentação profunda. Ensaios e livros forjaram uma carreira na qual Malcolm conseguiu superar os limites muitas vezes estreitos do ofício, por meio de uma escrita precisa e analítica e, sobretudo, com um ponto de vista inabalável. Sua caneta era de “precisão devastadora”, lembrou um crítico literário dos anos 1990.

Também como entrevistada foi irreverente, muito antes que a correção política fosse imposta. “Minha mesinha de cabeceira é uma pequena mesa de madeira com uma caixa de lenços de papel, um catálogo Garnet Hill [rede de lojas de roupas] de dois anos atrás e uma pastilha para tosse”, ela respondeu quando perguntada sobre o que estava lendo para o suplemento de livros do New York Times em 2019, como recorda o obituário que o jornal lhe dedica. Malcolm era uma leitora voraz, mas tampouco gostava de sacralizar a letra impressa.

Em um setor também dominado por homens ―de Tom Wolfe a Gay Talese como epítomes do jornalismo literário― foi até certo ponto uma pioneira na verificação de informações, muitas décadas antes de as notícias falsas obrigarem a confirmar até os fatos palpáveis. Suas reflexões sobre o ato de escrever, com todas as suas implicações ―principalmente quando o objeto em si é a realidade― condimentam toda a sua obra. Que a verdade muitas vezes é escorregadia, que existe um sujeito que está sob o escritor, a ética ao contar… essas preocupações que hoje ressoam com fúria já aparecem na obra de Malcolm. Mas, acima de tudo, a visão hipercrítica do jornalismo, graças, ou apesar, de ser um das grandes do ofício. Isso lhe rendeu defensores e também detratores furiosos, infelizes por às vezes serem colocados no mesmo saco.

Sua obra mais famosa é O jornalista e o assassino, publicado como reportagem longa na New Yorker en 1989, em dois capítulos, e como livro no ano seguinte (em uma prática, primeiro na revista, logo num ensaio, que foi frequente para ela). O título já é uma declaração de princípios: aquela conjunção copulativa que iguala um e o outro, como iguais. Malcolm analisa a relação entre um famoso autor de best-sellers e um médico condenado pelo assassinato de sua família. Malcolm criticou o escritor por fingir acreditar na inocência do médico muito depois de estar convencido de sua culpa. Tomar partido, algo deontologicamente discutível pelo menos no jornalismo, nunca assustou a autora, daí suas inúmeras questões sobre as escolhas éticas ao contar uma história: a escolha nada inocente do ponto de vista. Malcolm não contou o julgamento ―narrado à exaustão pela mídia e até em livros e filmes― mas as consequências de uma escolha. O livro começava assim: “Qualquer jornalista que não seja tão estúpido ou vaidoso a ponto de não ver a realidade sabe que o que faz é moralmente indefensável. O jornalista é uma espécie de homem de confiança, que explora a confiança, que explora a vaidade, a ignorância ou a solidão das pessoas, que ganha a sua confiança e depois as trai sem remorso”. O dardo não caiu bem entre seus detratores.

Janet Malcolm contou em ‘Duas vidas’ a história de Gerturde Stein e Alice Toklas, duas judias lésbicas durante a II Guerra Mundial. Além desse livro célebre, Malcolm fez incursões exemplares na arte da biografia (e nas vidas de quem a praticam), com ensaios sobre Sigmund Freud e o zelo com que seu legado é guardado (Nos arquivos de Freud), Chekhov (Lendo Chekhov), Gertrude Stein e Alice B. Toklas (ou como duas lésbicas judias sobreviveram à Segunda Guerra Mundial na França ocupada, em Duas vidas) ou A mulher calada, sobre os poetas Sylvia Plath e Ted Hughes. Sua obra é amplamente publicada em espanhol e português.

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