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Henri Kagan e Kenso Soai ganham Nobel de Química de 2026 por descobrir mistério das “moléculas espelhadas”

Vencedores dividem US$ 1,2 milhão, um pouco mais de R$ 6 milhões, além da fama de ganhar o que é considerado o prêmio científico mais prestigioso do mundo.

Os vencedores do Prêmio Nobel de Química de 2026 foram anunciados na manhã desta quarta-feira (7). Os vencedores são Henri Kagan, da França, e Kenso Soai, do Japão, pela “descoberta de efeitos não lineares e autocatálise na síntese orgânica assimétrica”.

A premiação é concedida pela Real Academia Sueca de Ciências, em Estocolmo, na Suécia. Os vencedores dividem US$ 1,2 milhão, ou seja, um pouco mais de R$ 6 milhões, além da fama de ganhar o que é considerado o prêmio científico mais prestigioso do mundo.

Mão esquerda e mão direita: como entender o projeto

Algumas moléculas, como os aminoácidos, existem em duas variantes que são imagens especulares uma da outra. No entanto, os organismos vivos contêm apenas uma dessas imagens especulares.

Para entender o feito dos vencedores, imagine as suas próprias mãos. A mão esquerda e a mão direita parecem idênticas, mas são imagens espelhadas uma da outra, por mais que você as gire, nunca conseguirá sobrepor perfeitamente a palma da mão esquerda às costas da mão direita.

Na química, o fenômeno é chamado de quirilidade, um termo derivado da palavra grega para “mão”. Muitas moléculas essenciais para a vida existem nessas duas formas simétricas, conhecidas como enantiômeros.

Curiosamente, a natureza fez uma escolha rigorosa. Todas as proteínas das células humanas usam exclusivamente aminoácidos “canhotos”, enquanto a estrutura do DNA usa apenas açúcares “destros”. A preferência exclusiva por um lado na química da vida é chamada de homoquirilidade.

A chave e a fechadura

Para explicar a importância do projeto no dia a dia, a própria Academia Sueca usou a analogia de um chaveiro.

A explicação parte do imaginário de que em um processo comum de facbricação, metade das chaves sai com os dentes voltados para a direita e a outra metade para a esquerda. Apenas a chave de um dos lados consegue abrir a fechadura. A chave espelhada não só falha em abrir a porta, como pode emperrar ou danificar o mecanismo.

Na medicina, acontece o mesmo. A célula humana tem receptores que funcionam como fechaduras minunciosas. Quando um medicamento é desenvolvido, apenas um dos lados da molécula tem o efeito terapêutico desejado. Já o lado espelhado pode ser inútil ou até provocar efeitos colaterais.

O verdadeiro desafio e a genialidade de Kagan

Quando os químicos tentavam fabricar essas moléculas em laboratório a partir de ingredientes neutros, obtinham sempre uma mistura de 50% de cada lado. Assim, por mais de um século, a ciência se perguntava como seria possível “forçar” uma reação química a fabricar apenas o lado desejado.

Na década de 1980, o químico francês Henri Kagan, da Universidade Paris-Sud, quebrou uma crença antiga da química. Até então, acreditava-se que se um cientista usasse um catalisador (substância que acelera reações) com 70% de pureza em um dos lados, o produto final teria exatamente os mesmo 70% de pureza. Isso significa que seria uma proporção direta e linear.

Kagan percebeu que a reação funcionava de forma diferente. Ele descobriu que o átomo de metal do catalisador pode se ligar a duas moléculas quirais ao mesmo tempo, formando três combinações: direita-direita, esquerda-esquerda e uma combinação mista esquerda-direita.

A sacada de Kagan foi constatar que a combinação mista é lenta e ineficiente. Ela funciona como uma espécie de “armadilha” que trava e neutraliza as moléculas do lado indesejado. O resultado foi que, mesmo partindo de um catalisador com baixa pureza, o produto final saía muito mais puro do que o esperado. O fenômeno é chamado de efeito não linear.

Soai e a reação do surgimento da vida na Terra

Na década de 1990, o pesquisador japonês Kenso Soai, da Universidade de Ciência de Tóquio, deu o passo seguinte no projeto de Kagan. Soai projetou uma reação na qual o próprio produto formado atua como catalisador de si mesmo. O processo ficou conhecido como autocatálise assimétrica.

Em experimento finalizados em 2003, Soai provou que, ao misturar substâncias sem nenhuma quiralidade inicial, pequenas flutuações estatísticas casuais geravam uma pequeníssima vantagem para um dos lados.

Graças ao efeito multiplicador da reação, conhecida como Reação de Soai, aquela vantagem micrsocópica inicial de apenas 0,0005% era amplificada exponencialemnte a cada etapa atingindo uma pureza superior a 99,5% do produto de um único lado.

Foi a primeira vez que a ciência conseguiu criar pureza quiral a partir do zero em laboratório, imitando o processo que permitiu o surgimento da vida na Terra.

Mas como somos impactados no dia a dia?

Além de oferecer respostas sobre como a vida se desenvolveu no planeta, as descobertas de Kagan e Soasi revolucionam a indústria moderna. Como contribuições estão medicamentos modernos e mais seguros, que seriam livres de contaminação por moléculas espelhadas nocivas.

Além disso, há contibuições para defensivos agrícolas e pesticidas mais eficazes e com menor impacto ambiental, aromas e fragrâncias para alimentos e cosméticos e também para novos materiais e tecnologias avançadas.

Com as descobertas, os laureados do Nobel de 2026 entregaram à humanidade as ferramentas para dominar o espelho molecular, garantindo produtos e tratamentos mais precisos e seguros.

O Prêmio Nobel

Os Prêmios Nobel foram instituídos pelo testamento do inventor e empresário sueco Alfred Nobel, cuja fortuna foi construída em parte com a invenção da dinamite.

Concedidos pela primeira vez em 1901, os prêmios homenageiam conquistas nas áreas de ciência, literatura e paz, com o prêmio de economia adicionado posteriormente pelo banco central da Suécia.

Por vezes ofuscados por laureados mais famosos nas áreas da física, literatura e paz, os prémios de química reconheceram ainda muitas descobertas influentes, como a fissão nuclear e as técnicas de sequenciação genética.

O prêmio de química do ano passado foi concedido aos cientistas Susumu Kitagawa, Richard Robson e Omar Yaghi pelo desenvolvimento das chamadas estruturas metalorgânicas, construções moleculares que podem ajudar a enfrentar desafios como as mudanças climáticas e a escassez de água doce.

Os laureados receberão suas medalhas do Rei Carl XVI Gustaf da Suécia em uma cerimônia em Estocolmo, no dia 10 de dezembro, aniversário da morte de Alfred Nobel. A entrega dos prêmios será seguida por um banquete suntuoso na Prefeitura de Estocolmo.


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