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EUA ameaçam asfixiar economia do Irã, mas China desafia estratégia de Trump
A China, um dos principais parceiros comerciais do Irã e destino de grande parte de suas exportações de petróleo, rejeitou a pressão de Washington.
Os Estados Unidos anunciaram uma nova ofensiva para sufocar economicamente o Irã, mas ainda não detalharam como e quando pretendem aplicar as punições contra países e empresas que mantêm relações com Teerã. A estratégia, apresentada pelo governo de Donald Trump como um “Dia D econômico”, enfrenta um obstáculo central: a resistência da China, principal destino do petróleo iraniano.
Secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, anunciou ontem novas sanções contra Teerã. Os principais alvos das sanções são cinco setores considerados estratégicos para a economia iraniana: ativos digitais, tecnologia, ouro, aviação e transporte marítimo. Mais de 60 empresas e indivíduos também foram incluídos nas medidas.
Casa Branca afirma que o objetivo é cortar as fontes de receita que ainda sustentam o regime iraniano. As medidas pretendem obrigar Teerã a escolher entre o isolamento econômico e uma eventual reintegração à economia global. Bessent chegou a dizer que Washington pretende eliminar todas as “linhas de vida” econômicas do Irã.
Na prática, porém, a ofensiva anunciada até agora ficou mais próxima de um ultimato do que de um bloqueio imediato. Os EUA ameaçam aplicar as chamadas sanções secundárias contra bancos, empresas e países que continuarem fazendo negócios com o Irã, mas não apresentaram uma lista completa de alvos nem um cronograma para a aplicação das punições.
“Ninguém está acima das sanções norte-americanas”, afirmou Bessent. Ao ser questionado sobre a possibilidade de atingir grandes instituições financeiras estrangeiras, o secretário indicou que Washington pretende inicialmente dar aos países uma oportunidade para interromper as relações consideradas problemáticas.
China é o principal desafio
A estratégia americana depende da capacidade de convencer outros países a cortar relações econômicas com Teerã. O problema é que a China, um dos principais parceiros comerciais do Irã e destino de grande parte de suas exportações de petróleo, rejeitou a pressão de Washington.
O governo chinês afirmou que sanções e pressão econômica não solucionam conflitos e podem aumentar as tensões. Pequim também sinalizou que tomará medidas para proteger seus próprios interesses.
A posição chinesa coloca em xeque a estratégia de Trump. Os Estados Unidos têm pouca relação comercial direta com o Irã, o que reduz a capacidade de Washington de pressionar Teerã apenas por meio de medidas bilaterais. Para que o plano funcione, a Casa Branca precisa convencer países que efetivamente negociam com os iranianos a cortar esses vínculos.
Antes da guerra, China e Emirados Árabes Unidos eram, de longe, os principais parceiros comerciais do Irã. Turquia, Iraque e Rússia também mantêm relações importantes com Teerã.
Atingir uma pequena empresa ou um intermediário que ajuda o Irã a driblar sanções é uma decisão relativamente simples para Washington. Punir um grande banco chinês, porém, poderia provocar uma crise econômica e diplomática muito maior.
Bessent reconheceu esse dilema ao ser questionado sobre a ausência, até o momento, de sanções contra grandes instituições financeiras chinesas. “Por que eu iria querer explodir o sistema financeiro global?”, respondeu o secretário. Ele indicou que uma grande instituição financeira chinesa poderá ser alvo ainda nesta semana, mas não revelou qual seria a empresa.
Emirados já recuaram
Enquanto Pequim desafia a pressão americana, os Emirados Árabes Unidos adotaram uma postura diferente. O país anunciou na semana passada a suspensão do comércio, dos intercâmbios comerciais e das transações financeiras com o Irã, após um ataque de míssil.
Bessent afirmou que a decisão dos Emirados “não foi uma coincidência” e sugeriu que ela está relacionada à pressão exercida por Washington sobre os parceiros de Teerã. O caso mostra o possível efeito da ameaça americana: países que dependem fortemente dos EUA podem concluir que o custo de manter negócios com o Irã é alto demais.
A situação é diferente no caso da China. Pequim tem interesses econômicos próprios no relacionamento com Teerã e vem resistindo às tentativas anteriores de Washington de interromper o comércio entre os dois países.
Paquistão tenta mediar
O Paquistão adotou uma terceira estratégia. Em vez de aderir à campanha americana ou confrontar diretamente Washington, Islamabad tenta assumir um papel de mediador.
Uma delegação paquistanesa de alto nível viajou a Teerã ontem. O grupo é liderado pelo chefe do Exército, Asim Munir, para tentar reduzir as tensões e incentivar uma retomada das negociações entre EUA e Irã. O ministro do Interior do Paquistão, Mohsin Naqvi, afirma que houve “progresso significativo” nessas conversas.
Trump conversou com Munir antes da viagem. O movimento permite ao Paquistão manter relações com os dois lados em um momento de forte pressão internacional.
Índia, Rússia e Turquia também estão sob atenção de Washington. Esses países mantêm relações comerciais com o Irã, mas não apresentaram uma nova resposta oficial específica às ameaças de sanções secundárias até esta terça-feira (25).
Irã também ameaça reagir
Teerã, por sua vez, rejeita a ofensiva americana e ameaça retaliar países que colaborarem com o esforço para isolar economicamente o país. O governo iraniano já enfrenta sanções internacionais há décadas. Mesmo com as restrições, porém, a economia do país mantém canais de comércio com parceiros como China, Rússia, Turquia e Emirados Árabes Unidos.
O governo Trump pretende justamente fechar essas brechas. A Casa Branca afirma que a nova operação busca atingir setores que permitem ao Irã obter receitas e movimentar recursos no exterior. Entre os alvos estão criptomoedas utilizadas por integrantes do regime, tecnologias relacionadas a armamentos, ouro, companhias aéreas e transporte marítimo ligado a petróleo e componentes militares.
Trump afirmou que o Irã estaria em “colapso total” e que as novas medidas representam uma etapa decisiva da campanha contra Teerã. Bessent, por sua vez, descreveu a operação como uma das maiores ofensivas financeiras já lançadas contra um adversário.
Mas a efetividade da estratégia ainda depende de uma decisão que Washington não tomou: até onde está disposto a ir contra os parceiros comerciais do Irã. Se a China continuar comprando petróleo iraniano e mantendo relações econômicas com Teerã, Trump terá de escolher entre aplicar sanções contra empresas e instituições chinesas e correr o risco de ampliar o confronto com Pequim ou evitar uma punição que poderia comprometer a credibilidade do próprio ultimato.
Por enquanto, portanto, o “Dia D econômico” representa mais uma ameaça do que um bloqueio completo. Os Estados Unidos já ampliaram as sanções contra o Irã, mas o sucesso da estratégia de isolamento dependerá da disposição de outros países em abandonar Teerã — sobretudo da China, que é justamente o parceiro que Washington terá mais dificuldade para pressionar.
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