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Nota técnica do Cemaden alerta sobre início de ‘super El Niño’ e sugere ações de prevenção ao governo federal

O documento que “a condição atual observada em janeiro, fevereiro, março e abril de 2026 já evidencia sinais iniciais de aumento do risco potencial.

A situação está pior no extremo norte do estado do Amazonas. (Foto: Ana Cláudia Leocádio)

O Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) emitiu uma nota técnica tendo como interessados a Casa Civil da Presidência da República e o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação indicando a possível ocorrência de um super El Niño, com grandes impactos a serem percebidos no país a partir do segundo semestre do ano.

Veja a íntegra do documento.

A nota diz que “a condição atual observada em janeiro, fevereiro, março e abril de 2026 já evidencia sinais iniciais de aumento do risco potencial em algumas áreas historicamente sensíveis aos impactos do El Niño, principalmente no noroeste da região Norte e nas regiões Nordeste e Centro-Oeste, em um contexto de probabilidade de desenvolvimento de um novo evento de El Niño ao longo do segundo semestre de 2026”.

Segundo o Cemaden, as regiões Norte e Nordeste apresentaram aumento expressivo da persistência do risco potencial de seca durante os meses SON/2023, atingindo valores superiores a 50% das ocorrências trimestrais em condição Moderado+, indicando elevada recorrência de condições desfavoráveis à manutenção da umidade do solo e ao desenvolvimento adequado das culturas agrícolas.

A nota aponta que os dados já mostram um aquecimento rápido na superfície do oceano Pacífico —fator gerador do El Niño. “Pode-se observar um aumento rápido na anomalia de temperatura desde janeiro, que se intensificou nas últimas semanas”, diz o texto.

O alerta chama a atenção que esse super El Niño traz “risco de eventos de alto impacto, como inundações massivas, secas severas, ondas de calor e trajetórias de tempestades significativamente alteradas”. Para isso, sugere ações imediatas para conter danos.

“Uma das coisas que insistimos nessa nota é que, de fato, o El Niño já está instalado aqui. Possivelmente os primeiros impactos começam a se observar agora no inverno, na região Sul-Sudeste”, informou ao UOL José Marengo, coordenador-geral de Pesquisa e Desenvolvimento do Cemaden e um dos 11 pesquisadores que assinam o documento.

Segundo o documento, as previsões sugerem que esse “poderá se tornar o mais forte El Niño da história moderna, potencialmente superando o evento recorde de 1877/1878”. Para o Cemaden, todos os dados indicam que evento será um “fator determinante do clima global em 2026/2027”.

Riscos por região

A nota técnica detalha um cenário de extremos dividido pelo território brasileiro.

Para as regiões Norte e Nordeste, a tendência é contrária: a redução drástica das chuvas no verão e outono de 2027.

No caso da Amazônia, o El Niño intensifica o risco de incêndios e secas hidrológicas prolongadas. Bacias como as dos rios Negro, Xingu e Tocantins-Araguaia já apresentam déficits hídricos acumulados, o que aumenta a vulnerabilidade regional.

O impacto da seca deve ser especialmente sentido na agricultura familiar, com condições desfavoráveis à manutenção da umidade do solo, especialmente no noroeste da região Norte e em partes do Nordeste.

A região Sul, diz, é um local com grande impacto previsto. Segundo o documento, é esperado um aumento de chuvas intensas e frequentes, especialmente na primavera de 2026.

“O Rio Grande do Sul apresenta o sinal mais robusto, com atenção especial para as partes oeste/noroeste, centro, sul, Serra Gaúcha, Planalto Meridional e região de Porto Alegre”, cita a nota.

A nota diz ainda que o fenômeno pode comprometer a estação chuvosa nestas regiões Centro-Oeste e Sudeste, afetando a recuperação de reservatórios hidrelétricos e aumentando as temperaturas.

Diante do cenário, o órgão recomenda seis ações:

– Reforçar o monitoramento, com atenção a acumulados recentes, previsões de chuvas e secas, níveis de rios, vazões, cotas de transbordamento, umidade antecedente do solo e condições de encostas.

– Garantir o pleno funcionamento de radares meteorológicos, pluviômetros, estações hidrológicas, sensores de umidade do solo, sistemas de transmissão de dados e rotinas de controle de qualidade.

– Ampliar o uso de previsões de multimodelos, incluindo produtos de curto, médio e subsazonais, para apoiar cenários de evolução de risco.

– Reavaliar áreas críticas, incluindo encostas ocupadas, margens de rios, fundos de vale, travessias, pontes, taludes viários, áreas urbanas com drenagem insuficiente e comunidades isoladas.

– Fortalecer a integração operacional entre União, estados e municípios, conectando a previsão, o monitoramento, a análise de risco, o alerta, a comunicação pública e a resposta.

– Conectar os alertas de riscos de desastres do Cemaden e os avisos do INMET (Instituto Nacional de Meteorologia) e do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais) aos fluxos decisórios do Sistema Nacional de Proteção e Defesa Civil.

Segundo José Marengo, diante das informações já existentes, é fundamental planejar imediatamente ações preventivas.

“O Brasil é um país muito da reação, não da prevenção. Quando ocorrem situações de desastres, muitas vezes dentro de um ministério não existe coordenação entre agências, não há também coordenação entre os ministérios. Tudo deve estar preparado porque a ciência já fornece os subsídios científicos. Agora, compete aos tomadores de decisões”, disse.

De acordo com o Cemaden, num cenário de El Niño moderado a intenso, e com a tendência de aumento na frequência de ondas de calor já observada sobreposta a tendência de aquecimento global, pode-se esperar que ondas de calor em 2026 e 2027 sejam mais intensas e tenham um grande impacto na população.


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