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Desmatamento pode transformar a Amazônia em savana mais rápido do que o previsto, diz estudo

Cientistas alertam que avanço do desmatamento reduz limite de estabilidade do bioma.

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A Amazônia pode estar perigosamente próxima de uma mudança irreversível de funcionamento. Um estudo publicado na última segunda-feira (6) na revista “Nature” concluiu que, sem desmatamento, a floresta suportaria um aquecimento global entre 3,7°C e 4°C antes de perder estabilidade em larga escala. Mas, quando o avanço da destruição da floresta entra na equação, o risco crítico aparece muito antes: entre 1,5°C e 1,9°C de aquecimento — faixa próxima da temperatura atual do planeta.

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A principal descoberta do trabalho, que foi conduzido por pesquisadores do Potsdam Institute for Climate Impact Research (PIK), é que a combinação entre aquecimento global e desmatamento altera profundamente a capacidade da Amazônia de manter seu próprio equilíbrio climático. Em vez de responder apenas localmente às secas e ao calor, a floresta passa a sofrer efeitos em cadeia capazes de espalhar degradação por centenas ou até milhares de quilômetros.

Os pesquisadores utilizaram modelos matemáticos e climáticos para simular como a umidade circula pela Amazônia. A análise combinou cenários futuros de emissões de gases do efeito estufa, transporte atmosférico de vapor d’água e avanço do desmatamento para medir em que ponto o sistema perde estabilidade.


‘Ponto de não retorno’ pode chegar antes do previsto

O chamado “ponto de não retorno” é o momento em que a Amazônia perde a capacidade de se regenerar sozinha e entra em um processo contínuo de degradação. Mesmo que o desmatamento diminua depois, parte do sistema já teria perdido as condições necessárias para sustentar o clima úmido típico da floresta tropical.

— A floresta começaria a entrar num comportamento auto-organizado de degradação. Isso ficaria cada vez mais difícil de controlar porque o próprio sistema passaria a reforçar essa mudança — afirmou ao jornal O GLOBO o biólogo Bernardo Flores, um dos autores do estudo.

Isso acontece porque a Amazônia depende da própria vegetação para produzir chuva. As árvores retiram água do solo e liberam vapor na atmosfera em um processo chamado evapotranspiração. Esse vapor forma nuvens e retorna em forma de chuva, mantendo um ciclo contínuo de umidade.

Em algumas regiões, quase metade da chuva depende desse mecanismo. A floresta funciona como uma espécie de “bomba biótica”, puxando umidade do Oceano Atlântico para o interior do continente e distribuindo vapor d’água pela América do Sul por meio dos chamados rios voadores.

Estudos anteriores analisavam separadamente os efeitos do aquecimento global e do desmatamento sobre a floresta. Segundo Flores, o diferencial do novo trabalho foi combinar os dois fatores no mesmo modelo climático, permitindo simular como essas pressões atuam juntas sobre a estabilidade da Amazônia.

O estudo aponta que o maior risco não está apenas na perda direta de árvores, mas na forma como a degradação consegue se espalhar pela floresta. Quando uma região perde capacidade de reciclar umidade, áreas localizadas na direção dos ventos passam a receber menos chuva.

Esse mecanismo produz os chamados efeitos em cascata, apontados pelos pesquisadores como o principal motor das mudanças simuladas. Em vez de um colapso isolado, a Amazônia poderia enfrentar uma reação em cadeia em larga escala.

Regiões mais vulneráveis já mostram sinais de mudança

As áreas mais vulneráveis ficam principalmente no oeste e sudoeste da floresta, regiões altamente dependentes da umidade produzida em outras partes da Amazônia. Isso significa que impactos provocados pelo desmatamento no sul e no leste do bioma podem se espalhar por milhares de quilômetros por meio da alteração do transporte de vapor d’água na atmosfera.

— O artigo conseguiu combinar os modelos climáticos com modelos de fluxos de umidade da atmosfera. Então dá para identificar onde uma perda de floresta reduz chuva em outras regiões da Amazônia — explicou Flores.

Segundo ele, alguns sinais desse processo já podem estar aparecendo em áreas fortemente pressionadas pelo desmatamento, como o Xingu e partes do sul da Amazônia.

— A região do Xingu provavelmente é uma das que mais está aquecendo e secando em toda a Amazônia. E isso deve ser reflexo do efeito combinado do aquecimento global com décadas de desmatamento acumulado no entorno — afirmou.

Os cenários analisados consideram níveis de desmatamento entre 22% e 28% da Amazônia. Hoje, a devastação acumulada já supera 15% do bioma e, em partes do chamado Arco do Desmatamento — faixa que atravessa o sul e o leste da floresta — os índices passam de 25%.

O estudo destaca ainda que a Amazônia não funciona apenas como vítima das mudanças climáticas, mas também influencia diretamente o clima da América do Sul. Os rios voadores levam umidade para o Centro-Oeste, Sudeste e Sul do Brasil, além de países vizinhos.

O enfraquecimento desse fluxo pode alterar regimes de chuva em áreas agrícolas, afetando produção de alimentos, abastecimento de água e geração de energia hidrelétrica. As projeções também apontam possíveis impactos sobre Bolívia, Paraguai e a bacia do Rio da Prata, na Argentina.

O aquecimento global intensifica ainda mais o estresse sobre a floresta. Temperaturas mais altas e secas prolongadas reduzem a capacidade das árvores de realizar fotossíntese — processo usado pelas plantas para produzir energia — e aumentam a mortalidade vegetal. Ao mesmo tempo, queimadas e fragmentação florestal deixam a mata mais exposta ao calor e ao ressecamento.

Degradação invisível pode acelerar o colapso

Flores afirma que ainda existe uma incerteza importante que pode fazer o ponto de não retorno chegar antes do previsto: a degradação florestal, fenômeno que ainda não aparece totalmente nas análises sobre perda de cobertura vegetal.

— Muitas áreas continuam sendo consideradas floresta, mas já perderam parte importante das árvores por incêndios ou extração madeireira. Isso ainda não entra totalmente nessas avaliações — afirmou.

Segundo ele, isso significa que a Amazônia pode estar mais próxima do limite crítico do que os números oficiais de desmatamento sugerem.

Em áreas degradadas, o fogo se espalha com mais facilidade, criando um ciclo em que incêndios matam árvores, reduzem a umidade e favorecem novas queimadas. A fragmentação também acelera a perda de umidade porque deixa a floresta mais exposta ao vento seco e às altas temperaturas.

O estudo afirma ainda que a chamada savanização da Amazônia não significaria o surgimento de um Cerrado biodiverso. O cenário projetado seria o de uma vegetação degradada, pobre em espécies e dominada por gramíneas invasoras e árvores resistentes ao fogo.

Apesar do alerta, os autores afirmam que o colapso não é inevitável. As simulações mostram que limitar o aquecimento global e interromper o desmatamento ainda pode evitar que a Amazônia ultrapasse esse limite crítico. Projetos de restauração florestal também aparecem como uma forma de recuperar parte da capacidade da floresta de reciclar umidade e aumentar sua resistência às mudanças climáticas.


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