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Brasil

Advogado amigo de Flávio Bolsonaro foi o maior apostador de bets do país em 2025, aponta documento do Ministério da Fazenda

Nota técnica também afirmou que empresa de apostas falhou em mecanismos para prevenir lavagem de dinheiro e no monitoramento de clientes.

Uma nota técnica do Ministério da Fazenda apontou que o advogado Willer Tomaz, amigo do candidato a presidente e senador Flávio Bolsonaro (PL), foi a pessoa física no país que mais apostou em bets. Um documento produzido pela pasta indica que ele movimentou cerca de R$ 5 bilhões nos jogos online.

A Polícia Federal apura se esses valores foram de fato investidos ou se trataram de apostas fictícias. Willer e Flávio são alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF) sob suspeita de lavagem de dinheiro.

Em nota, a assessoria de Willer afirmou que todo os recursos apostados “têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal”. “As cifras apresentadas não correspondem à realidade: o chamado volume apostado soma reapostas sucessivas de um mesmo montante e, por isso, não representa dinheiro novo”, diz o texto. Também procurada, a assessoria de Flávio não se manifestou.

O levantamento sobre o volume de apostas, realizado por técnicos da Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), cita Willer como exemplo de que a empresa Foggo Entertainment, operadora da marca Blaze, falhou na adoção de mecanismos para prevenção à lavagem de dinheiro e monitoramento de clientes.

“Essa pessoa foi a que teve o maior volume total de depósitos em plataformas de quota fixa no Brasil (bets) em 2025, sendo que o valor por ela depositado constituiu quase o dobro do valor depositado pela pessoa que figurou como segunda colocada nesse ranqueamento”, diz o texto da nota técnica datada de 1 de outubro de 2026. O documento foi relevado pelo portal Uol e obtido posteriormente pelo GLOBO.

Segundo o texto, no mesmo período, Willer fez saques que somaram R$ 200 milhões a partir da plataforma da empresa.

Mesmo diante do alto volume de dinheiro apostado, a empresa atribuiu a Willer a classificação de “risco médio”. Segundo os técnicos da Fazenda, isso “evidencia” a falha nos procedimentos da empresa que deveria ter levado em consideração o critério de “padrões atípicos em jogos on-line” e o colocado como “risco máximo”.

“Essa constatação se torna ainda mais flagrante ao identificar-se que o cliente em questão também poderia se enquadrar na categoria de risco máximo utilizada pela empresa (‘crítico’), em razão de nela constar o elemento da ‘potencial violação sistêmica da legislação aplicável’, dado que uma rápida pesquisa em fontes abertas na internet mostra que o cliente já esteve detido sob suspeita de corrupção; e ainda o elemento da ‘incompatibilidade manifesta entre capacidade econômico-financeira e volume de operações’, haja vista a debilidade da empresa em avaliar essa capacidade”, diz o texto.

De acordo com a SPA, há indícios de “culpa ou dolo” por parte da empresa por não ter identificado e analisado os riscos envolvendo o advogado. A nota afirma que essa “nengligência” pode ter ocorrido para que não houvesse perda de receita pela empresa.

“Sendo praticamente impossível que uma empresa não identifique que um de seus clientes, por exemplo, operou e pode ainda estar operando movimentações na ordem dos bilhões de reais, parece haver indícios de culpa ou dolo”, diz o órgão do Ministério da Fazenda.

A plataforma Blaze é alvo de uma outra ação cível movida por Willer Tomaz na Justiça de São Paulo. Segundo comprovante anual da plataforma apresentado no processo, o advogado registrou R$ 4,8 bilhões em ganhos e quase R$ 5 bilhões em perdas nos jogos de cassino em 2025, com resultado líquido anual negativo de R$ 163,2 milhões. No processo, a defesa de Willer alega que ele sofre de ludopatia, vício em jogos, e pede a devolução dos valores.

As cifras bilionárias citadas acima contabilizam os resultados das sucessivas apostas, incluindo dinheiro ganho e usado para jogar novamente. Não significam, portanto, que Tomaz tenha depositado dinheiro novo a cada rodada. No processo, a defesa de Willer alegou que ele sofre de ludopatia, vício em jogos.

Inquérito no STF

A investigação que apura um suposto esquema de lavagem de dinheiro está sob relatoria do ministro Alexandre de Moraes, do STF. O inquérito é um desdobramento de uma apuração da PF do Rio Grande do Sul sobre supostos crimes de evasão de divisas e lavagem de dinheiro por meio de plataformas de apostas esportivas, as bets.

Os policiais encontraram indícios de que Tomaz controla a Rede Loto, uma casa de apostas que obteve autorização do governo do Rio para operar em maio de 2023. A partir das informações, os agentes pediram a quebra de sigilo telemático do advogado, o que deu acesso a mensagens, e-mails e outras informações do celular dele.

A partir dessa análise, a PF encontrou vínculos com Flávio, o que fez a investigação ser enviada ao STF. O relatório da PF diz que os “elementos analisados” mostram proximidade entre o presidenciável e o advogado.

Após a revelação sobre a nova investigação na Corte, Flávio disse que o inquérito se trata de “fake news”. Tomaz, por sua vez, afirmou que não há irregularidades.

A nota na íntegra enviada pela assessoria de Willer Tomaz:

“O tema é objeto de ação judicial em curso e já foi amplamente noticiado pela imprensa, o que torna a pauta mais uma repetição de informações conhecidas.

Os recursos têm origem lícita, são compatíveis com seus rendimentos e constam de sua declaração à Receita Federal.

As cifras apresentadas não correspondem à realidade: o chamado volume apostado soma reapostas sucessivas de um mesmo montante e, por isso, não representa dinheiro novo.

O advogado Willer Tomaz nunca recorreu a ferramenta automatizada nem fracionou operações para contornar qualquer controle.

Na 7K, foi cliente como qualquer outro, sem vínculo societário, comercial ou pessoal com a empresa ou seus controladores, e não é alvo da Operação Narco Bet.

Causa estranheza que um documento técnico de órgão federal, contendo dados protegidos por sigilo, chegue à imprensa justamente em período eleitoral. Por se tratar de assunto de natureza estritamente pessoal e submetido ao Judiciário, Willer não fará outros comentários.”


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