Conecte-se conosco

Mundo

Cortes obrigam ONU a suspender ajuda alimentar a meio milhão de palestinos em Gaza; 200 mil vivem risco de fome extrema

Programa Mundial de Alimentos reduzirá distribuição de cestas básicas, refeições e auxílio financeiro; quase 1,4 milhão enfrentam situação de insegurança aguda.

Crianças palestinas imploram por comida em área de ajuda humanitária próxima a Khan Younis, na Faixa de Gaza, em 22 de julho de 2025 (Foto: AFP/Reprodução)

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) das Nações Unidas anunciou na segunda-feira que será obrigado a reduzir suas operações humanitárias na Faixa de Gaza devido à falta de financiamento, deixando cerca de 500 mil palestinos sem assistência alimentar a cada mês. A decisão é tomada no momento em que quase 1,4 milhão de pessoas, cerca de dois terços da população do enclave, continuam enfrentando níveis críticos de insegurança alimentar, enquanto outras 200 mil estão em situação de emergência, um estágio abaixo das condições de fome generalizada. Segundo a agência, os cortes ameaçam reverter os avanços obtidos desde o cessar-fogo entre Israel e o Hamas, iniciado há pouco mais de um ano.

— São decisões que precisamos tomar para garantir que nossos recursos durem o maior tempo possível — disse à AFP Shaun Hughes, diretor do PMA para os territórios palestinos, durante entrevista nos escritórios da organização em Beit Hanina, bairro de Jerusalém Oriental. — Não é o momento de desviar o olhar do que acontece em Gaza.

Desde o início da ofensiva israelense, lançada em resposta ao ataque do Hamas em 7 de outubro de 2023, a população de Gaza enfrenta condições humanitárias extremamente difíceis. Apesar da trégua, mediada pelo presidente americano, Donald Trump, a reconstrução prometida ainda não começou, as oportunidades de emprego são escassas e a grande maioria dos moradores continua dependendo da assistência humanitária para se alimentar. Segundo dados da ONU, cerca de 80% da população local está desempregada.

Em agosto de 2025, a Classificação Integrada de Segurança Alimentar (IPC, na sigla original em inglês), utilizada pela ONU para avaliar a gravidade das crises alimentares, declarou situação de fome em Gaza, conclusão que Israel classificou como uma “mentira”. Em dezembro, a ONU anunciou que o território já não era considerado em situação de fome, graças ao cessar-fogo que havia entrado em vigor dois meses antes e ao aumento das remessas de ajuda humanitária.

Desde então, o PMA conseguiu ampliar suas operações, atendendo entre 1,5 milhão e 1,8 milhão de pessoas por mês. Neste ano, seus programas chegaram a alimentar três quartos da população de Gaza, cerca de 1,6 milhão de palestinos. O financiamento, no entanto, caiu mais da metade em comparação com os níveis de 2025, obrigando a agência a reduzir o número de beneficiários para 1,1 milhão por mês a partir de outubro.

— Isso tem sido uma tábua de salvação. Mas agora, em vez de podermos manter e ampliar a ajuda, nos vemos obrigados a reduzi-la — afirmou Hughes. — E não é porque não tenhamos acesso humanitário para distribuir alimentos, e sim porque não contamos com financiamento.

Alimentos e refeições

Além de diminuir o número de pessoas atendidas, o PMA terá que reduzir pela metade os pacotes de alimentos distribuídos às famílias. Os beneficiários passarão a receber apenas uma cesta, em vez de duas, acompanhada de um saco menor de farinha de trigo. O número de refeições quentes servidas diariamente pelas cozinhas comunitárias também cairá de 250 mil para 150 mil, enquanto a assistência financeira destinada a 75 mil famílias para a compra de alimentos será reduzida de 1.250 shekels (R$ 2 mil) para 750 (R$ 1,2 mil) mensais.

Financiado por governos e doadores privados, o PMA sofreu uma forte redução de recursos depois que o governo Trump desmantelou grande parte da Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional (Usaid) e diminuiu drasticamente as contribuições para agências da ONU e programas de assistência bilateral. Outros países doadores também reduziram seus gastos humanitários em meio às dificuldades econômicas e às crises relacionadas ao custo de vida.

A agência afirma que precisará de quase US$ 450 milhões (R$ 2,2 bilhões) nos próximos seis meses para manter e restabelecer programas essenciais em Gaza e na Cisjordânia. Em 2026, porém, o PMA recebeu metade do financiamento habitual destinado aos territórios palestinos. Em setembro, a organização já havia reduzido pela metade o número de beneficiários na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967, passando de 400 mil para 200 mil pessoas.

‘Situação brutal’

Hughes alertou que os avanços obtidos desde o cessar-fogo permanecem extremamente frágeis. Atualmente, cerca de dois terços dos moradores de Gaza enfrentam a fase três da IPC, caracterizada por níveis críticos de insegurança alimentar. Outros 200 mil palestinos estão na fase quatro, considerada de emergência, na qual o fornecimento imediato de assistência humanitária é necessário para evitar mortes por fome.

— Esses avanços são muito frágeis, podem ser facilmente revertidos, e a situação continua brutal — disse Hughes ao Guardian.

Crianças pequenas e suas mães estão entre os grupos mais vulneráveis. Depois de anos de escassez de alimentos, uma em cada oito crianças de Gaza sofre de desnutrição crônica ou apresenta atraso no crescimento, segundo uma pesquisa recente do Fundo da ONU para a Infância (Unicef). De acordo com o levantamento, parte delas pode ter sofrido danos permanentes em consequência da privação alimentar prolongada.

Antes da guerra, Gaza era autossuficiente na produção de frutas e verduras, mas a maior parte das terras agrícolas foi ocupada pelas forças israelenses, enquanto os sistemas de estufas e irrigação que sustentavam a produção foram destruídos. A pesca, historicamente uma importante fonte de proteína para os moradores, também está comprometida pelas restrições impostas pela Marinha israelense à circulação de embarcações nas águas próximas à costa.

— Precisamos investir na recuperação. Essa operação humanitária não é financeiramente viável nem sustentável no longo prazo — disse Hughes. — No fim das contas, é isso também que todos em Gaza estão nos dizendo. Eles realmente não querem depender dessas distribuições de alimentos, não querem ficar na fila das refeições quentes todos os dias. Querem ter alguma possibilidade de estabilidade e recuperação.


Clique para comentar

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

dezenove − 16 =