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Brasil

Fenômeno El Niño ameaça serviços e liga alerta no setor de telecomunicações no Brasil

Tempestades, ventanias e queimadas podem danificar cabos, fibras e antenas; provedoras defendem integração entre órgãos.

Diante da formação do Super El Niño que já atua no Brasil e deve se intensificar nos próximos meses, o setor de telecomunicações se prepara para possíveis impactos de eventos climáticos na infraestrutura de transmissão de dados e conexão à internet do país.

De acordo com reportagem do site Poder 360, associações e empresas que atuam no segmento avaliam que o fenômeno climático traz risco concreto para a rede e a continuidade dos serviços de telecomunicações, que podem enfrentar ao menos até fevereiro episódios de fortes tempestades, vendavais, enchentes, deslizamentos, secas e queimadas.

No Sul e no Sudeste, onde o El Niño deve provocar chuvas excessivas e ventos fortes, a maior preocupação é com danos a antenas de transmissão e a infraestrutura instalada em postes, normalmente compartilhados com distribuidoras de energia elétrica.

Durante vendavais e tempestades, a queda de árvores pode derrubar postes, romper cabos elétricos e destruir, simultaneamente, vários trechos das redes ópticas.

Já no Norte e no Nordeste, a ocorrência de fortes secas eleva a probabilidade de queimadas em áreas de vegetação próximas a rodovias, ameaçando cabos de fibra óptica e estruturas de transmissão.

A Conexis, que reúne as principais empresas de telecomunicações e conectividade do país, afirma que o setor investiu R$ 36,3 bilhões em modernização e ampliação de redes em 2025.

Ao Poder360, a entidade disse que as empresas adotam medidas preventivas como monitoramento meteorológico e mapeamento de áreas críticas, além de manutenção preventiva e gestão de rede, com uso de inteligência artificial, análise de dados e sistemas de acompanhamento em tempo real.

“O setor também desenvolve soluções de rápida mobilização para restabelecimento da conectividade em áreas afetadas por desastres naturais, contribuindo para a recuperação das comunidades e para o funcionamento de serviços públicos, atividades econômicas e comunicações de emergência”, afirmou a Conexis, que costuma representar grandes operadoras como Claro, Vivo e Tim.

PROVEDORAS DEPENDEM DO SETOR ELÉTRICO

Diferentemente das operadoras, que atuam em grandes infraestruturas de comunicações na transmissão de dados em escala nacional, os provedores operam em âmbito local ou regional, fornecendo sinal e serviços de conectividade aos consumidores. Na prática, o provedor é quem fornece o acesso à internet para residências e empresas.

“Em um evento climático severo, a interrupção das telecomunicações raramente começa apenas dentro da rede do provedor. Ela costuma ser consequência de uma falha em cascata que atinge, ao mesmo tempo, a rede elétrica, os postes, as vias de acesso e os cabos de fibra óptica”, afirma Breno Vale, diretor-presidente da Abrint (Associação Brasileira de Provedores de Internet e Telecomunicações), ao Poder360.

Como os provedores atuam nas cidades, suas redes de telecomunicações estão instaladas, na maioria das vezes, nos mesmos postes utilizados pelas distribuidoras de energia. Em vendavais e tempestades fortes, as estruturas mais afetadas são justamente os postes, onde estão posicionados os cabos elétricos e as fibras de telecomunicações. Segundo Vale, esse compartilhamento de infraestrutura cria uma dependência em relação às distribuidoras, que muitas vezes demoram para restabelecer a rede elétrica nos pontos divididos com os provedores, atrasando a recuperação dos serviços de telecomunicações.

“Nessas situações, o provedor não pode simplesmente iniciar o reparo. Enquanto a distribuidora de energia não eliminar o risco elétrico, substituir os postes danificados e liberar a infraestrutura, as equipes de telecomunicações ficam impedidas de acessar os cabos com segurança. Portanto, mesmo que o provedor tenha técnicos, veículos, fibra e equipamentos disponíveis, a recomposição do serviço pode depender de uma etapa anterior que está fora de seu controle”, declara o diretor-presidente da Abrint.

MEDIDAS PREVENTIVAS

Breno Vale diz ser comum no setor que as empresas construam rotas alternativas para manter o tráfego quando ocorre o rompimento de um cabo. Ele alerta, no entanto, que episódios como tempestades severas, enchentes ou deslizamentos podem atingir simultaneamente a rota principal e uma ou mais rotas de contingência, sobretudo quando passam pela mesma área geográfica, utilizam os mesmos corredores urbanos ou dependem da mesma infraestrutura de postes.

Diante da intensificação de eventos climáticos nos últimos anos e da projeção de possíveis ocorrências nos próximos meses, o diretor-presidente da Abrint afirma que as empresas têm aprimorado práticas de monitoramento meteorológico e planos de contingência.

As medidas preventivas também incluem distribuição de estoques de cabos e equipamentos para áreas de maior risco, escalas emergenciais e inspeções preventivas das redes, além de investimentos em rotas alternativas, redes em anel, baterias, geradores, monitoramento remoto e estruturas de atendimento prioritário a hospitais, defesa civil e outros serviços essenciais.

Para Vale, no entanto, a preparação individual das empresas não é suficiente: “Nenhum provedor consegue garantir sozinho a continuidade do serviço quando postes, energia, vias de acesso e múltiplas rotas de fibra são atingidos ao mesmo tempo”, diz.

O executivo defende a articulação e a criação de protocolos integrados entre todos os agentes envolvidos nos eventos climáticos: distribuidoras de energia, empresas de telecomunicações, prefeituras, concessionárias de rodovias, defesa civil e demais órgãos públicos.

A Abrint propõe a criação de canais emergenciais de comunicação, critérios de priorização, e mecanismos de compartilhamento de informações para otimizar a recuperação de infraestrutura elétrica e de telecomunicações. “O El Niño mostra que a resiliência digital do país não depende apenas de cabos e equipamentos. Ela depende da coordenação entre setores que hoje ainda atuam de maneira excessivamente separada. Quando a energia, os postes e as telecomunicações falham conjuntamente, o impacto não é apenas técnico ou comercial. É uma interrupção da capacidade de comunicação e reação de toda a sociedade”, disse Vale.

Infográfico mostra o que o El Nino pode causar em cada região do Brasil

 

 


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