Brasil
Golpistas criam falso padre com IA e enganam fiéis pedindo doações via Pix
O golpe foi descoberto em Valinhos (SP) após um abrigo de idosos suspeitar do vídeo.
Um golpe digital sofisticado usa inteligência artificial e um padre falso criado por inteligência artificial para desviar doações de fiéis católicos.
Padre Mateus, o falso sacerdote criado por IA
O golpe foi descoberto em Valinhos (SP) após um abrigo de idosos suspeitar do vídeo. Reginaldo Jesus Flor, de 80 anos, achou a gravação estranha e pediu ajuda ao filho para analisar.
Felipe Zangari, jornalista e teólogo, identificou falhas na sincronia labial das imagens. “O mexer dos lábios não era um negócio normal”, afirmou Felipe, que descobriu o esquema após simular um Pix para o link indicado.
Personagem criado por IA pede dinheiro para próteses
O vídeo apresenta o “padre Mateus”, um personagem inteiramente criado por inteligência artificial. A gravação, impulsionada pela página do Facebook “Caminhada Curta”, criada em 18 de agosto de 2026, afirma que o sacerdote de 38 anos amputou as pernas e precisa de próteses urgentes em até quatro meses.
A farsa inclui outros personagens criados por IA, que visam comover os internautas. O roteiro cita “dona Lourdes”, de 72 anos, e o “coroinha Enzo”, de 14, que ajudariam na rotina do padre.
Golpe cria urgência para estimular doações
Roteiro cria um senso de urgência para enganar vítimas. Os personagens citam que resta uma janela de apenas quatro meses para a compra de próteses caras, antes que a musculatura das coxas do padre atrofie definitivamente.
O vídeo falso soma milhares de visualizações e mais de mil compartilhamentos. Enquanto alguns fiéis oferecem orações e dinheiro, internautas mais atentos já alertam nos comentários que a campanha é um golpe. O uso de inteligência artificial para golpes pode configurar fraude eletrônica.
Reginaldo, acostumado à rotina e à estrutura da Igreja Católica, estranhou o apelo público: “Se um padre tem uma situação dessa, com certeza a diocese daria toda assistência para esse padre”.
O rastro do dinheiro e empresas envolvidas
As doações são direcionadas ao site “Ande com Padre Mateus”, registrado de forma oculta no mesmo dia que a página do Facebook. Ao fazer o Pix, o verdadeiro beneficiário é a empresa Gestão Solidar Digital LTDA, de Florianópolis.
O nome do sócio-administrador da Gestão Solidar, de acordo com o site Jusbrasil, é de um jovem entre 18 e 24, de São Paulo. As contradições cadastrais continuam no email de contato registrado na Receita Federal, lemesmagazine@gmail.com. A marca associada ao CNPJ, Lemes Magazine, acumula 53 reclamações no Reclame Aqui por fraudes financeiras.
Pix apresenta dados de uma idosa de Goiás
Os pagamentos Pix aparecem no nome de “Helena Farias”, mas o CPF é de uma idosa de Goiás. A cidadã provavelmente não sabe que está sendo usada para golpes.
A fintech Cartwave intermedia os pagamentos e tem reputação “ruim” no Reclame Aqui. O telefone cadastrado pela empresa pertence, na verdade, a uma barbearia em Goiânia.
Nenhum dos números de telefone associados à Gestão Solidar, à Lemes Magazine e à Cartwave atendeu à reportagem. Foram enviados emails formais com pedidos de esclarecimento a todas as empresas envolvidas, mas não houve qualquer retorno até a publicação deste texto.
Especialista alerta para dificuldade de detectar IA
Para o advogado Rafael Maciel, especialista em IA, tentar treinar o cidadão para identificar deepfake é “pedir que ele vença uma disputa que perderá estruturalmente”. Mesmo sendo alguém com rotina de analisar esse tipo de material, Maciel apontou uma dificuldade para essa identificação.”Vendo o vídeo do caso concreto, não se consegue perceber claramente que é um material sintético”, avalia.
“O perfil que faz essa campanha tem, parece, apenas 400 seguidores e não segue ninguém. Nestes casos, é importante desconfiar. O caminho seguro é checar a campanha com a diocese ou a arquidiocese”, diz Rafael Maciel, advogado especialista em uso de inteligência artificial.
Uso de IA pode configurar fraude eletrônica
Do ponto de vista penal, a farsa não passa impune. O criminalista André Fini Terçarolli esclarece que o uso de IA “pode configurar fraude eletrônica, modalidade mais grave de estelionato, hoje punida com reclusão de quatro a oito anos e multa”.
Terçarolli acrescenta que falhas de KYC (política de conhecer o cliente) geram responsabilidade civil e regulatória. Para quem doou, os advogados recomendam abrir o Mecanismo Especial de Devolução (MED) no banco imediatamente e registrar boletim de ocorrência, alertando que o MED não é garantia se a conta de destino já foi esvaziada pelos golpistas.
Vítimas podem contestar contas usadas no golpe
Terçarolli esclarece que a fraude de dados “não transforma a idosa em cúmplice”. A responsabilidade exige prova de participação consciente. “Ela deve fazer boletim de ocorrência, contestar a conta e ativar o BC PROTEGE+, recurso gratuito do Banco Central que bloqueia preventivamente novas aberturas de contas em seu nome”.
Os especialistas alertam para a responsabilidade do gateway. “As instituições intermediárias falham no seu dever jurídico de buscar prevenir a lavagem de dinheiro” e pecam no compliance ao permitir contas com dados divergentes, aponta Maciel. Ele destaca que as vítimas podem pleitear indenização e restituição contra elas com base no Código de Defesa do Consumidor, como “consumidores por equiparação”.
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