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Homicídios caem no país, mas subnotificação e alta das mortes no Norte e Nordeste são desafio, aponta Atlas da Violência

Quando se analisa todos os municípios brasileiros, o mais violento foi Barcelos, no estado do Amazonas.

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Dados oficiais da área da saúde mostram que o Brasil viu o número de homicídios registrados em 2024 reduzir 7,4% em relação ao ano anterior, segundo o Atlas da Violência, divulgado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) nesta terça-feira. Em 2024, foram contabilizados oficialmente 42.590 homicídios em todo o país, representando uma taxa de 20,1 casos por 100 mil habitantes. Trata-se do menor patamar desde 2014. As informações são de O Globo.

homicidios-caem-no-pais-mas-suApesar da queda, que segue uma tendência já identificada em outros anos, o Atlas da Violência elenca a subnotificação e o elevado número de mortes em municípios das regiões Norte e Nordeste como desafios. As maiores taxas de homicídio concentram-se no Amapá, Bahia, Pernambuco, Alagoas e Ceará. Dezessete dos 20 municípios mais violentos com mais de 100 mil habitantes estão no Nordeste, enquanto as 20 cidades menos violentas encontram-se exclusivamente no Sul e Sudeste.

Um dos fatores que contribui para a disparidade é demográfico. As regiões mais violentas são as que mantém uma proporção maior de jovens, recorte da população que tende a estar mais envolvido, seja como vítima ou perpetrador, nos homicídios. Esse, no entanto, não é o único elemento, com as movimentações recentes do crime organizado, cada vez mais presente no interior do país, tendo peso relevante.

“O que explica isso é o processo de interiorização das facções, com o surgimento de grupos locais que não tem uma organização como a do Primeiro Comando da Capital (PCC), que não olham o lucro, mas o controle do território”, explica Daniel Cerqueira, um dos coordenadores do levantamento.

Cerqueira compara a dinâmica do crime organizado em Santa Catarina, estado mais seguro do país, com a situação vivida na Bahia, que reúne dez das mais violentas cidades do país com mais de cem mil habitantes, como Jequié e Juazeiro:

— O controle do crime organizado em Santa Catarina é feito pelo Primeiro Grupo Catarinense (PGC). No entanto, o PCC, que é rival, também está lá, mas nos municípios com portos, como Itajaí e Navegantes. O interesse deles é apenas pegar a droga e exportar. Existe uma acomodação e um não ataca o outro — diz Cerqueira, que acrescenta — Em outras áreas onde o crime não é tão organizado, esses grupos são compostos por jovens que querem se firmar e se firmam pela violˆncia. A Bahia é um bom exemplo, com um maior numero de facções, como o Bonde do Maluco.

Os dados de municípios mais violentos coletados pelos Ipea e o FBSP confirmam o cenário de interiorização do crime organizado, que deixa de se restringir apenas aos grandes centros urbanos. Entre as cidades com população superior a 100 mil habitantes, a mais violenta foi Maranguape (CE). Nos últimos anos, o município foi palco de um confronto entre as facções Comando Vermelho, originária do Rio de Janeiro, e os grupos locais Guardiões do Estado (GDE) e Massa Carcerária. Em setembro de 2025, 39 pessoas ligadas ao CV foram presas pela Polícia Civil do Ceará no município. única capital na lista é Salvador, no vigéssimo lugar.

Quando se analisa todos os municípios brasileiros, o mais violento foi Barcelos, no estado do Amazonas. Com uma população de 18 mil pessoas, a cidade viu 32 de seus moradores morrerem de forma violenta em 2024. O município, que faz fronteira com a Venezuela, abarca a Terra Indígena Yanomami, classificada pelo governo federal como altamente vulnerável ao avanço do crime organizado, segundo dados do recém-lançado Índice de Vulnerabilidade ao Crime Organizado (IVCO).

A cidade integra uma rota de tráfico de drogas. No início do mês, 200 quilos de maconha do tipo skunk, avaliada em aproximadamente R$ 5 milhões, foram apreendidos pelas autoridades locais em Barcelos.

Homicídios ocultos

O pesquisador atribui a queda no número total de homicídios a uma série de fatores, como o aprimoramento das iniciativas de segurança pública, além do envelhecimento da população. Ele também destaca o arrefecimento do confronto entre PCC e Comando Vermelho (CV) pelo controle de rotas de tráfico, que atingiu o auge entre 2016 e 2017. Segundo Cerqueira, a sensação de insegurança da população, por outro lado, aumenta.

Esse desencontro seria explicado pelo destaque dado à pauta da criminalidade no debate público, o que se soma à mudanças na dinâmica criminal. “Antes as pessoas tinham medo de serem roubadas. Hoje, seguem com esse medo, mas também passaram a temer sofrer uma fraude” diz Cerqueira, citando o aumento de estelionatos virtuais identificado por outros estudos, como mostram as edições mais recentes do Anuário da Segurança Pública, feito pelo FBSP

A partir dos casos de homicídios ocultos, os pesquisadores calculam a chamada taxa de homicídios estimada, somando os casos registrados aos descobertos pela metodologia desenvolvida. Os dados indicam que entre 2023 e 2024 os homicídios ocultos aumentaram 88,6%, indo de 3.755 para 7.083. A taxa, por sua vez, subiu de 1,8 para 3,3 a cada 100 mil habitantes.

Entre 2014 e 2014 foram 55.212 homicídios ocultos. Na avaliação do Atlas da Violência, a piora na qualidade da informação pode estar criando um “ponto cego estatístico”.


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