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Amazônia Legal concentrou mais da metade dos assassinatos no campo em 2025, mostra relatório da CPT

Entre as vítimas estão trabalhadores sem terra, posseiros, pescadores, servidores públicos e integrantes de organizações não governamentais.

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A Amazônia legal concentrou mais da metade dos assassinatos no campo em 2025, de acordo com a nova edição do relatório Conflitos no Campo, da Comissão Pastoral da Terra, lançada nesta segunda-feira (27/04). Foram registrados 26 assassinatos em todo o Brasil, sendo 61% (16) nos estados de Rondônia, Pará e Amazonas. No último sábado (25/04), às vésperas da divulgação do documento, um novo massacre com três mortos em Lábrea (AM) reforçou a escalada da violência na região.
A nova edição do relatório Conflitos no Campo, da Comissão Pastoral da Terra aponta a intensificação de conflitos por terra, exploração ilegal de recursos naturais e disputas envolvendo terras indígenas, territórios quilombolas e áreas de expansão agropecuária.

Em 2025 foram registrados assassinatos em três estados da Amazônia: Rondônia e Pará, com sete casos cada, e Amazonas, com dois registros. Em relação a 2024, quando foram contabilizados oito assassinatos, o número dobrou na região, um aumento de 100%. Também foram registradas 39 tentativas de assassinato registradas no mesmo período, o que reforça um cenário de agravamento dos conflitos. Segundo a análise do relatório, essa escalada costuma começar com ameaças, avançar para agressões físicas e, depois, resultar em mortes.

Na avaliação da coordenadora da CPT, Maria Petronila, o aumento dos assassinatos está ligado às pressões econômicas em expansão sobre a Amazônia. “Não é só o desmatamento. É um ciclo. Vem o desmatamento, depois a pecuária, a soja, a mineração. Tirar os povos desses territórios faz parte desse processo”.

Nos estados amazônicos que lideram as ocorrências, os dados indicam que fazendeiros são apontados como responsáveis por 14 assassinatos. A Polícia Militar de Rondônia aparece vinculada a uma morte, e o outro caso ocorreu em conflito com um madeireiro.

“Você vê que é uma violência muito generalizada, muito planejada na região da Amazônia. Tudo isso com uma falta de atuação do Estado. É uma violência que já conta com a impunidade. Não há investigação nem punição, então ela se repete”, afirma Petronila.

Entre as vítimas estão trabalhadores sem terra, posseiros, pescadores, servidores públicos e integrantes de organizações não governamentais. É o caso do agricultor Ronilson de Jesus Santos, de 52 anos, liderança do Assentamento Vale do Pacuru, no município de Anapu, no Pará. Ele foi morto a tiros em abril do ano passado, e o principal suspeito é um fazendeiro dono de terras próximas às comunidades de assentados.

Outro caso envolveu uma disputa por terra entre camponeses do acampamento Marielle Franco, que reivindicam a posse do território, e fazendeiros da Fazenda Palotina. O conflito resultou na morte de José Jacó Cosotle, de 55 anos, em Lábrea, em janeiro de 2025.

No mesmo município, às vésperas do lançamento do relatório, um novo episódio de violência reforçou a gravidade do cenário no campo. Na noite do último sábado (25/04), três pessoas foram mortas em uma emboscada na Gleba Recreio do Santo Antônio, no sul de Lábrea, na divisa entre Amazonas e Acre.

Antônio Renato, Josias Albuquerque de Oliveira e o adolescente Arthur Henrique Ferreira Said estavam em uma caminhonete quando foram atacados por homens armados. O caso ocorreu em uma área marcada por conflitos fundiários e crimes ligados à disputa por terra.

De acordo com os dados consolidados da CPT, a Amazônia Legal registrou, em geral, 1.080 ocorrências de violência no campo em 2025. A organização organiza os dados por temas, incluindo conflitos por terra, por água, trabalho escravo e violências contra a pessoa.

Os conflitos por terra são os mais frequentes. Foram 714 registros, e o Pará lidera as estatísticas, concentrando 15% do total, com 112 ocorrências. O município mais impactado é Santarém, com 18 ocorrências, das quais 13 foram registradas em comunidades quilombolas. Em seguida, o estado do Maranhão aparece como o segundo principal foco de conflito, com 109 casos, seguido pelo Amazonas, com 74.

Os dados sobre trabalho escravo na Amazônia Legal também são expressivos: 780 trabalhadores foram resgatados em 38 operações contra situações degradantes e ilegais de trabalho. Na comparação com o ano anterior, o aumento foi de mais de 300% — em 2024, foram 185 resgates.

Os conflitos por água são ações de resistência, geralmente coletivas, travadas por comunidades tradicionais e pequenos agricultores contra a apropriação privada, o uso excludente e a degradação dos recursos hídricos., foram registrados 72 casos, incluindo tentativas de assassinato e intimidação. O Pará também lidera, com 21 ocorrências, seguido de Rondônia, com 12, e Tocantins, com 11.


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