Brasil
Brasil anuncia acordo com EUA para ampliar cooperação no combate ao crime organizado
Parceria com EUA prevê troca de dados em tempo real e ações conjuntas para frear tráfico de armas e drogas.
O ministro da Fazenda, Dario Durigan, anunciou nesta sexta-feira (10/4) um acordo do governo federal com os Estados Unidos para reforçar o combate ao crime organizado transnacional. A iniciativa envolve a integração de esforços entre a Receita Federal do Brasil e o U.S. Customs and Border Protection.
Batizado de Projeto MIT (Mutual Interdiction Team), o acordo prevê o compartilhamento de informações de inteligência e a realização de ações coordenadas para interceptar cargas ilegais, especialmente de armas e drogas, que circulam entre os países.
A iniciativa faz parte de uma agenda de cooperação bilateral entre os governos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, voltada ao enfrentamento de organizações criminosas com atuação internacional.
O anúncio ocorre em um momento de maior atenção das autoridades norte-americanas sobre organizações criminosas na América Latina. Nos bastidores, cresce o debate nos EUA sobre o enquadramento de facções estrangeiras como grupos terroristas — medida que pode ampliar sanções e mecanismos de repressão.
Ainda que não haja confirmação oficial sobre eventuais classificações envolvendo grupos brasileiros, a discussão reforça o ambiente de pressão internacional por ações coordenadas contra o crime organizado.
– Recebi representantes do governo dos Estados Unidos para uma informação, um reporte para mim, que foi dado tanto pela Receita Federal quanto pela Polícia Federal quanto pelas autoridades norte-americanas, autoridades da Embaixada dos Estados Unidos e autoridades da alfândega norte-americana, o CBP. Hoje marca o primeiro passo relevante depois da conversa do Presidente Lula com o Presidente Trump no sentido de avançar na cooperação no combate ao crime organizado entre os nossos dois países – disse Durigan.
– O que nós estamos fazendo é demonstrando e fazendo as medidas executivas e concretas que nos permitem manter tanto o Brasil quanto os Estados Unidos mais seguros e com inteligência e combate ao crime organizado – completou.
Segundo ele, são duas grandes expectativas: mais efetividade no combate ao crime organizado e se espera que a circulação de armas no Brasil diminua; e a segunda é avançar em outras frentes de cooperação com os EUA.
– Isso abre caminho para uma serie de outros acordos.
Durigan destacou ainda que, do lado brasileiro, a estratégia é liderada pela Polícia Federal, com apoio do Ministério da Fazenda, especialmente na área de inteligência financeira.
Compartilhamento em tempo real
Uma das principais mediadas do acordo prevê o lançamento do “Programa Desarma”, sistema informatizado da Receita Federal que amplia a capacidade de rastreamento internacional de armas e materiais sensíveis.
Esse sistema permite o compartilhamento estruturado, em tempo real, de informações entre os dois países, sempre que a aduana brasileira identificar produtos de origem americana relacionados a armas, munições, peças, componentes, explosivos e outros itens sensíveis e vice-versa.
A ferramenta registra e organiza dados das apreensões, como tipo de material, origem declarada, informações logísticas da carga e eventuais identificadores ou números de série, permitindo o rastreamento da origem desses produtos e o mapeamento de redes ilícitas de comércio internacional de armas.
Além disso, o sistema permite o envio de alertas às autoridades aduaneiras dos países de origem ou procedência das mercadorias apreendidas, fortalecendo a cooperação internacional baseada em gestão de riscos e a integridade da cadeia logística global.
Outro mecanismo apresentado foi o chamado “remote targeting”, que permite a análise remota de cargas antes da chegada ao destino. Na prática, contêineres enviados passam por uma espécie de “raio-x”, com imagens cruzadas com dados de inteligência e compartilhadas digitalmente em fluxo contínuo entre os países.
As informações compartilhadas podem incluir dados sobre exportadores, remetentes e outros operadores envolvidos nas operações, sempre nos limites dos acordos internacionais firmados pelo Brasil e com garantia de tratamento sigiloso, seguro e rastreável das informações.
O sistema poderá ser utilizado tanto em apreensões em portos e aeroportos quanto em remessas internacionais, operações especiais de fiscalização e ações integradas com outros órgãos de investigação, ampliando a capacidade de resposta do Estado brasileiro.
Troca de informações e rastreabilidade
Segundo o ministro, o acordo inaugura um nível de troca de informações que não existia anteriormente, com compartilhamento recíproco de dados entre Brasil e Estados Unidos.
Na prática, quando cargas ilegais não são interceptadas na origem e chegam ao Brasil, o país passa a informar às autoridades americanas detalhes como tipo de armamento, rota e forma de envio, ampliando a capacidade de rastreamento internacional.
O diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afirmou que a medida reforça o trabalho integrado entre os órgãos no enfrentamento às organizações criminosas.
Já o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, destacou que o combate ao crime envolve tanto o ataque às finanças das organizações quanto o bloqueio de insumos como armas e drogas nas fronteiras.
Apreensões
Dados apresentados mostram a dimensão do problema. Nos últimos 12 meses, mais de 1.100 armas ou peças foram apreendidas vindas dos Estados Unidos, somando cerca de meia tonelada.
Apenas no primeiro trimestre de 2026, mais de 1,5 tonelada de drogas com origem americana foram interceptadas, com destaque para drogas sintéticas e haxixe.
Segundo a Receita Federal, o compartilhamento de dados já permitiu identificar métodos sofisticados de ocultação, como partes de fuzis escondidas em equipamentos de airsoft e drogas camufladas em produtos comuns enviados por remessas postais.
“O compartilhamento de dados já apresenta resultados práticos duplamente para Brasil e Estados Unidos. As informações partilhadas pelos EUA permitiram identificar métodos sofisticados de ocultação envolvendo armas de fogo, com partes de fuzis escondidas em estruturas de equipamentos de airsoft, e entorpecentes, com drogas camufladas em embalagens de produtos comuns, como ração animal, enviadas por remessas postais”, disse a Receita Federal.
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