Brasil
Estudo aponta que a eleição que a imprensa cobre não é a eleição que as redes falam
Uma análise de 5.417 manchetes e 508 mil posts mostra que a eleição de 2026 acontece em duas esferas desconectadas.
À medida que o Brasil se aproxima do ciclo eleitoral de 2026, uma análise sistemática de dados revela uma fragmentação profunda na esfera pública. De um lado, a mídia tradicional, estruturada em torno de pesquisas de intenção de voto, alianças partidárias e indicadores econômicos. Do outro, as redes sociais, um ecossistema onde a relevância é determinada pelo poder de mobilização de narrativas identitárias e de confronto sobre a forma como cada espectro enxerga o que é certo para o país.
Para mapear essa divisão com rigor, realizei uma coleta e análise de dados abrangente, comparando a cobertura de seis temas eleitorais em ambas as plataformas ao longo de 2026. Os resultados indicam que os temas que dominam a pauta jornalística são bastante tímidos nas redes, e vice-versa. A diferença de cobertura em alguns temas chega a 27,82 pontos percentuais.
A divisão da atenção
Cobertura na mídia tradicional
A mídia tradicional dedica sua atenção principalmente a dois temas: articulação política (34,21% das menções) e economia (28,58%). Juntos, esses dois temas representam 62,79% de toda a cobertura jornalística sobre as eleições de 2026.

A narrativa jornalística é estruturada em torno do “jogo político”: quem se alinha com quem, qual é a viabilidade de cada candidato, como as alianças se formam. Manchetes sobre a possível candidatura de Flávio Bolsonaro, o posicionamento de Tarcísio de Freitas e as estratégias de Lula para a reeleição dominam a pauta. A economia aparece como o pano de fundo que pode selar o destino da eleição, com discussões sobre inflação, dólar e crescimento do PIB. Segurança pública é tratada como um tema de gestão, com análises sobre políticas de segurança de diferentes governadores.
Cobertura nas redes sociais
As redes sociais apresentam uma distribuição radicalmente diferente. O tema dominante é debate cultural/moral (26,79% das menções), seguido por segurança pública (22,45%) e economia (14,54%). Os temas que dominam a mídia, como articulação política (6,39%), são bastante marginais.

A narrativa nas redes é movida por pautas de identidade, valores e confronto. Debate cultural/moral abrange discussões sobre costumes, gênero, religião, educação e a “ideologia de esquerda” versus “valores tradicionais”. Segurança pública é discutida não como política pública, mas como medo e insegurança, frequentemente associada a um espectro político específico. Economia, diferentemente da mídia, aparece com peso significativo nas redes (14,54%), refletindo discussões sobre custo de vida, inflação e impacto nas famílias. Declarações de pré-candidatos aparecem como majoritariamente críticas sobre frases e vídeos repercutidos na imprensa, reforçando visões antagônicas e manifestações de discordância e, por muitas vezes, ódio e ofensas.
O abismo de cobertura
A diferença de cobertura entre as duas plataformas é dramática:

O tema com maior dissonância é debate cultural/moral, com uma diferença de 23,61 pontos percentuais. O tema que é praticamente marginal na imprensa (3,19%) é o mais discutido nas redes (26,79%) — uma inversão quase completa de prioridades. Em seguida, articulação política (27,82 pontos de diferença) mostra que o principal assunto da imprensa é praticamente irrelevante nas redes sociais.

Engajamento: A força multiplicadora das redes
Enquanto a cobertura em menções já revela uma divisão, o engajamento (curtidas, compartilhamentos, comentários) amplifica essa diferença de forma exponencial. Na mídia tradicional, cada menção gera um engajamento médio de 3.400 interações. Nas redes sociais, o engajamento varia dramaticamente por tema.
Quando esse ajuste é feito, apenas um tema mantém vantagem estrutural nas redes sociais: debate cultural/moral, cujo engajamento médio por menção é mais de três vezes superior ao da mídia tradicional. Em todos os demais temas, a lógica se inverte. Articulação política e economia, que concentram grande parte da agenda jornalística, apresentam engajamento unitário extremamente baixo nas redes, indicando circulação ampla, mas pouca mobilização efetiva. Segurança pública e declarações de pré-candidatos revelam um padrão intermediário: são temas recorrentes e emocionalmente carregados, mas cuja capacidade de gerar reação por post é limitada quando controlada pela frequência.
O resultado aponta que a assimetria entre mídia e redes não se explica apenas pela viralidade, mas por um fenômeno mais específico: a hiper-eficiência das pautas morais em converter cada publicação em atenção ativa, turbinadas pelo algoritmo, enquanto os demais temas dependem de repetição massiva para produzir impacto.
Distribuição de engajamento: concentração vs. dispersão
A distribuição de engajamento revela outra dimensão da divisão. Na mídia tradicional, o engajamento é relativamente disperso entre seus temas prioritários: articulação política (34,21%) e economia (28,58%) somam 62,79% do engajamento total. Nas redes sociais, a concentração é muito maior: debate cultural/moral sozinha consome 54,54% de todo o engajamento, enquanto articulação política e Justiça Eleitoral somam apenas 3,93%.
Distribuição de engajamento – mídia tradicional:
Articulação política: 34,21%
Economia: 28,58%
Segurança Pública: 16,52%
Justiça Eleitoral: 11,74%
Declarações de pré-candidatos: 5,78%
Debate cultural/moral: 3,19%
Distribuição de engajamento – redes sociais:
Debate cultural/moral: 54,54%
Segurança pública: 27,57%
Declarações de pré-candidatos: 11,21%
Economia: 2,76%
Justiça Eleitoral: 2,08%
Articulação política: 1,85%

Essa concentração sugere que as redes sociais operam em lógica de “tudo ou nada”: um tema que mobiliza identidade e confronto domina absolutamente a conversa, enquanto temas pragmáticos tendem a ser mais marginalizados. A economia, embora tenha 14,54% de menções nas redes, representa apenas 2,76% do engajamento total — indicando que as pessoas falam sobre economia, mas não se engajam intensamente com o tema.
Conclusão: o voto será decidido fora da imprensa
Os dados revelam algo que nenhuma pesquisa de intenção de voto ainda consegue capturar: o Brasil está testemunhando duas eleições de 2026 acontecendo em universos paralelos. A eleição da mídia tradicional, estruturada em torno de pragmatismo político e econômico, segue as regras do xadrez institucional. A eleição das redes sociais, movida por narrativas de identidade e confronto, segue a lógica do engajamento emocional.
Mas há algo mais profundo em jogo. A assimetria não é meramente temática, mas epistemológica: as duas esferas públicas operam com diferentes critérios de relevância, diferentes métricas de sucesso e diferentes formas de mobilização. Um candidato pode liderar nas pesquisas tradicionais (baseadas em intenção de voto) e estar em desvantagem no engajamento digital (baseado em reação emocional). Inversamente, um candidato pode dominar as redes sem ter necessariamente mais votos.
Não deixe de curtir nossa página no Facebook, siga no Instagram e também no X.













Faça um comentário