Mundo
Surto de catapora agrava crise humanitária em Gaza em meio a escalada de ataques israelenses, denuncia ONU
Pelo menos 12 pessoas foram mortas em ataques nesta terça; Unicef contabiliza mais de 9,3 mil casos de doença em acampamentos superlotados para deslocados.
Nove meses após o anúncio do cessar-fogo na Faixa de Gaza, a ONU denunciou a intensificação dos ataques israelenses no enclave, afirmando nesta terça-feira que ao menos 57 palestinos morreram entre 13 e 20 de julho em bombardeios que atingiram áreas residenciais, tendas de deslocados e outras regiões densamente povoadas. Outros 12 palestinos, entre eles seis integrantes de uma mesma família e “várias crianças”, morreram nesta terça em diferentes ataques no enclave, disseram autoridades e testemunhas.
Enquanto os ataques prosseguem, médicos e famílias deslocadas afirmam que um surto de catapora surgiu nos últimos meses em acampamentos no enclave.
Os comunicados surgem enquanto um surto de catapora se espalha pelos acampamentos superlotados do território, onde mais de 9,3 mil casos suspeitos da doença foram registrados no início do mês, segundo o Unicef.
— Ainda não há nenhum lugar seguro para os palestinos em Gaza — disse à imprensa, em Genebra, o Alto Comissariado da ONU para os Direitos Humanos, Thameen al-Kheetan, que lamentou que o Exército de Israel tenha “intensificado nos últimos dias” seus ataques ao território, “matando e ferindo dezenas de palestinos”.
Segundo a Defesa Civil de Gaza, que atua sob a autoridade do Hamas, um bombardeio atingiu durante a madrugada a casa da família al-Masri, na Cidade de Gaza, no norte do território. O hospital al-Shifa confirmou ter recebido os corpos das vítimas e vários feridos. No local, equipes da AFP constataram danos significativos na residência, cujo telhado ficou praticamente destruído e parcialmente carbonizado.
No hospital, o corpo de uma menina pequena foi colocado em um saco mortuário branco e alinhado ao lado de outros cadáveres envoltos em grossos cobertores, diante de familiares, alguns dos quais choravam em silêncio. Uma fonte militar israelense declarou à AFP que um dos ataques “tinha como alvo um terrorista do Hamas”, sem fornecer detalhes.
— Fomos pegos de surpresa — disse à AFP Ahmed al-Masri, que se identificou como sobrevivente do bombardeio. — Toda a família do meu irmão foi eliminada do registro civil: ele, sua esposa e seus quatro filhos.
De acordo com al-Kheetan, as ofensivas israelenses atingiram edifícios residenciais, pelo menos uma tenda que abrigava deslocados e outras áreas densamente povoadas. As Forças Armadas do Estado judeu, por sua vez, anunciaram ter realizado uma série de ataques no enclave contra diversos integrantes do Hamas e da Jihad Islâmica, supostamente envolvidos no ataque terrorista de 7 de outubro de 2023 ou na manutenção de reféns em cativeiro.
Pelo menos 1.168 palestinos morreram desde a entrada em vigor do cessar-fogo, em outubro de 2025, segundo o Ministério da Saúde do território, cujos números são considerados confiáveis pela ONU. Do lado israelense, as autoridades relataram a morte de cinco soldados e de um prestador de serviços que trabalhava para o Ministério da Defesa desde o início do cessar-fogo. As restrições impostas à imprensa e o acesso limitado a Gaza impedem a verificação independente do balanço de vítimas, ou a cobertura livre da violência no território.
Crise de saúde
A doença, catapora, que é altamente contagiosa, tem obrigado centenas de milhares de palestinos a permanecerem em barracas superlotadas, em condições precárias de higiene e com acesso limitado à água potável. De acordo com o Unicef, mais de 9,3 mil casos suspeitos da doença foram registrados no início do mês, especialmente na região de Khan Younis, hoje a área mais povoada do território.
— As famílias vivem praticamente umas sobre as outras — disse a porta-voz da agência, Louise Wateridge.
Ruba Saadeh, de 8 anos, passa os dias confinada na barraca onde vive com a família, coberta por bolhas vermelhas e inflamadas provocadas pela doença. Sua irmã, Alaa, de 19 anos, afirmou que um médico recomendou isolamento por 20 dias e higiene diária, mas disse que a medida é inviável. Ela atribui a propagação da catapora à “superlotação das barracas e ao fato” de que palestinos recebem água “apenas uma vez por semana, e ainda por cima salgada, não limpa”.
— O médico nos disse que ela precisa de higiene diária e deve permanecer isolada por 20 dias. Mas como vamos isolá-la? Todos vivemos em uma barraca — disse, acrescentando que a família também enfrenta dificuldade para conseguir produtos básicos de limpeza. — Vivemos três anos de guerra. Meu pai está desempregado e não temos dinheiro para comprar produtos de limpeza.
Em outros países, a catapora costuma ser considerada uma etapa incômoda, mas administrável, da infância. Nas condições insalubres dos acampamentos de Gaza, porém, as famílias dificilmente conseguem impedir sua disseminação. Raed Abdel Karim Abu Sariya, dermatologista da Sociedade do Crescente Vermelho Palestino, afirmou que a falta de espaço para isolar os pacientes favorece a disseminação da doença.
— Pacientes com catapora devem permanecer isolados porque a doença é transmitida por via respiratória. Nos campos de Gaza, porém, separar os doentes dos saudáveis é praticamente impossível. Imagine 10, 15 ou até 20 pessoas vivendo em uma barraca pequena. Onde elas vão isolar o paciente? —questionou, enquanto examinava uma criança com bolhas.
Imagens da AFP na Cidade de Gaza mostram poças de água turva cercadas de lixo ao redor dos abrigos improvisados, enquanto crianças caminham descalças entre as fileiras de barracas. Para famílias como a dos Saadeh, até mesmo as precauções mais básicas são um luxo.
— O que fizemos para viver assim? Estamos cheios de erupções — disse Ruba. — Antes eu tomava banho todos os dias. Agora não há sabão, nem xampu, nem detergente (…) Vivemos em barracas e não consigo dormir por causa dos ratos.
Segundo médicos, o surto evidencia os crescentes desafios de saúde pública enfrentados pela população deslocada de Gaza, onde é tão difícil prevenir uma doença quanto tratá-la. Ao mesmo tempo, organizações internacionais de ajuda humanitária alertam que os suprimentos médicos são insuficientes. Wateridge, do Unicef, ressaltou que um número cada vez maior de crianças precisa ser hospitalizado, mas que o sistema de saúde de Gaza foi gravemente danificado durante a guerra.
— A catapora é apenas uma parte do problema. Também há infecções respiratórias, diarreia, mais da metade das famílias relata doenças de pele, pulgas, piolhos e sarna — disse. — Quando falamos de catapora ou de algumas dessas doenças, elas não vão desaparecer enquanto não resolvermos a causa principal. É preciso haver espaço para que mais pessoas possam viver sem dormir no chão, entre esses roedores.
Não deixe de curtir nossa página no Facebook, siga no Instagram e também no X.













Faça um comentário