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Pressão na Europa tenta conter risco de desmatamento após fim da moratória da soja na Amazônia

Fim de pacto ambiental reacende temor de corrida por novas áreas agrícolas na Amazônia.

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Redes de supermercados do Reino Unido e da Europa intensificaram a pressão sobre grandes produtores globais de grãos para evitar uma retomada acelerada do desmatamento na Amazônia. A ação acontece após o enfraquecimento da moratória da soja, acordo considerado um marco na proteção da floresta e que, por quase duas décadas, freou a expansão da agricultura sobre áreas recém-desmatadas. As informações são da Veja.

Em carta aberta enviada a empresas como Cargill (EUA), Bunge e Louis Dreyfuss (Brasil) e à estatal chinesa Cofco, varejistas alertam que o abandono do pacto ameaça a credibilidade ambiental das cadeias globais de alimentos e pode provocar reação negativa dos consumidores europeus.

Assinam o documento redes como Tesco, Sainsbury’s, Asda, Lidl, Aldi, Morrisons, Marks & Spencer e a cooperativa Co-op, que respondem por uma fatia relevante do varejo alimentar europeu.

A Europa consome cerca de 10% da soja produzida no mundo, majoritariamente para alimentação animal. Para os varejistas europeus, a ausência de um acordo robusto cria insegurança jurídica e reputacional.

Na carta, as redes afirmam que continuarão a aplicar, de forma unilateral, o princípio central da moratória e cobram das tradings garantias claras de rastreabilidade, monitoramento e verificação independente.

Embora empresas como Cargill, Bunge, ADM e Cofco mantenham políticas próprias contra o desmatamento, investigações recentes mostram sinais de flexibilização.

A Repórter Brasil identificou que a Cargill alterou, em alguns documentos, o marco temporal de seus compromissos para 2020, o que ampliaria significativamente a área passível de conversão agrícola.

Para os supermercados europeus, o impasse não é apenas ambiental, mas econômico. Sem salvaguardas claras, alertam, cresce o risco de boicotes de consumidores e de instabilidade nas cadeias globais de alimentos.

Moratória

Criada em 2006, a moratória da soja surgiu após forte pressão internacional de organizações ambientais, como Greenpeace e WWF, que denunciaram o avanço acelerado da soja sobre áreas recém-desmatadas da Amazônia, impulsionado pela demanda global por ração animal e biocombustíveis.

O acordo voluntário reuniu produtores, tradings, sociedade civil e governo brasileiro e estabeleceu um princípio central: nenhuma empresa signatária poderia comprar soja cultivada em áreas da Amazônia desmatadas após julho de 2008, independentemente de a derrubada da floresta ser considerada legal pela legislação brasileira.

O mecanismo foi reforçado por sistemas independentes de monitoramento por satélite e auditorias periódicas. Caso fosse detectado plantio irregular, a fazenda era bloqueada das cadeias de fornecimento.

Diversos estudos acadêmicos e relatórios de institutos como o IPAM (Instituto dePesquisa Ambiental da Amazônia) indicam que a moratória foi decisiva para desacoplar o crescimento da produção de soja do desmatamento direto na Amazônia.

Estima-se que cerca de 17 mil km² de floresta deixaram de ser derrubados desde sua implementação.

Nos últimos dois anos, porém, o acordo passou a ser alvo de ataques crescentes do lobby do agronegócio no Brasil, especialmente em Mato Grosso, principal estado produtor de soja do país.

Parlamentares estaduais revogaram incentivos fiscais concedidos a empresas que participavam da moratória, sob o argumento de que o pacto penalizaria produtores locais.

Paralelamente, o governo brasileiro passou a questionar o acordo sob a ótica da concorrência, alegando que a troca de informações entre empresas poderia configurar prática anticoncorrencial. A ameaça de sanções levou as grandes tradings a recuar.

Em janeiro de 2026, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) retirou seu nome do site oficial da moratória, sinalizando a saída formal das principais empresas do pacto. Sem a adesão das tradings, o acordo perdeu sua eficácia prática.

Especialistas ouvidos por organizações como Repórter Brasil e Observatório do Clima afirmam que o argumento concorrencial é frágil. O Cade já havia indicado que as empresas poderiam manter, de forma independente, o marco temporal de 2008.

Ainda assim, as tradings optaram por abandonar o acordo, num movimento alinhado a uma tendência global de recuo de compromissos ambientais e de governança corporativa.

O temor de ambientalistas é que o fim do acordo desencadeie uma corrida por novas áreas agrícolas na Amazônia. Estudos científicos indicam que a floresta se aproxima de um ponto de não retorno, a partir do qual grandes porções podem entrar em processo de savanização, com impactos diretos sobre o regime de chuvas no Brasil e na América do Sul.

Organizações como Greenpeace e WWF afirmam que especuladores de terras já avançam sobre áreas da floresta, apostando que o marco temporal de 2008 será flexibilizado ou abandonado. Caso isso ocorra, alertam, uma área equivalente ao território de Portugal pode ser aberta à expansão da soja.


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