Conecte-se conosco

Mundo

Em dia de protestos, primeiro ministro do Líbano afirma que pedirá eleições antecipadas

Hassan Diab fez a declaração minutos após dezenas de manifestantes invadirem o ministério das Relações Exteriores em Beirute, onde queimaram um retrato emoldurado do presidente Michel Aoun.

Em meio a um imenso protesto em Beirute, capital do Líbano, neste sábado (8), o primeiro ministro libanês, Hassan Diab, disse que chamará eleições parlamentares antecipadas para desarmar a crise política detonada depois da explosão catastrófica no porto da cidade. As informações são da Reuters, com publicação no jornal Folha de S.Paulo.

“Não podemos sair desta crise sem eleições parlamentares antecipadas”, afirmou ele, lendo um comunicado. A data ainda não foi anunciada. Diab acrescentou que não é culpado pelos problemas econômicos e políticos do país. A declaração veio minutos após dezenas de manifestantes invadirem o ministério das Relações Exteriores, onde queimaram um retrato emoldurado do presidente Michel Aoun. Eles foram retirados do local pelo Exército. Em seguida, um grupo invadiu o ministério da Energia.

O presidente representa uma classe política que governa o Líbano há décadas e que os ativistas dizem ser responsável pelas profundas crises política e econômica do país. “Vamos ficar aqui. Pedimos ao povo libanês que ocupe todos os ministérios”, disse um manifestante, por megafone.

Momentos mais cedo, a polícia de choque disparou gás lacrimogêneo contra manifestantes que tentavam romper uma barreira para chegar ao prédio do Parlamento, em Beirute —ação em resposta à forma como o governo vem lidando com a explosão que devastou a cidade nesta semana.

O protesto reuniu cerca de cem mil pessoas na Praça dos Mártires, no centro de Beirute, onde manifestantes ergueram uma forca. Alguns atiravam pedras e outros gritavam “o povo quer a queda do regime”, reprisando um cântico popular dos levantes da Primavera Árabe de 2011. Eles também seguravam cartazes com dizeres como “saiam, vocês são todos assassinos”.

Foi o maior levante desde outubro, quando milhares de pessoas foram às ruas em protesto contra a corrupção da elite dominante, a má governança e a má administração. Os manifestantes culpam a classe política pela explosão de terça-feira (4), que matou mais de 150 pessoas e feriu cerca de 6 mil, de acordo com o ministério da Saúde. Mais de 60 pessoas continuam desaparecidas, enquanto a esperança de encontrar sobreviventes diminui. Além disso, há milhares de desalojados,.

Ao menos 110 foram feridos nos protestos deste sábado e 55 levados ao hospital, segundo a Cruz Vermelha. Um policial morreu no confronto entre os lados —segundo um colega, ele caiu no poço do elevador de um prédio após ser perseguido por manifestantes.

O incidente no porto, cujas circunstâncias ainda não estão claras, teria sido causado por um incêndio que afetou um enorme depósito de nitrato de amônio, um produto químico perigoso, usado para a produção de fertilizantes e de bombas.

O governo prometeu responsabilizar os culpados, mas poucos cidadãos estão convictos que isto acontecerá. Para muitos, a explosão foi uma terrível lembrança da guerra civil que durou de 1975 a 1990 e que dividiu a nação e destruiu áreas de Beirute, muitas das quais já haviam sido reconstruídas.

Alguns moradores, lutando para limpar as casas destruídas pela maior explosão da história do Líbano e uma das maiores explosões não-nucleares da história, reclamam que o governo os decepcionou novamente. Houve meses de protestos contra a forma da administração lidar com uma crise econômica profunda antes do desastre desta semana.

“Não confiamos em nosso governo”, disse a estudante universitária Celine Dibo, enquanto limpava o sangue das paredes de seu prédio destroçado. “Eu gostaria que as Nações Unidas assumissem o Líbano”.

Várias pessoas não se mostraram surpresas com o fato de o presidente francês, Emmanuel Macron, ter visitado seus bairros devastados esta semana, enquanto os líderes libaneses se ausentaram. Durante a visita, Macron disse estar do lado dos libaneses comuns, e não de seus líderes.

Dois dias após a visita histórica do presidente francês, a atividade diplomática se intensificou em Beirute para organizar o apoio internacional ao país, na véspera de uma conferência de doadores.

O presidente libanês, cada vez mais criticado, deixou claro na sexta-feira (7) que se opõe a uma investigação internacional, dizendo que as explosões poderiam ter sido causadas por negligência ou por um míssil. Cerca de vinte funcionários do porto e da alfândega foram presos, segundo fontes judiciais e de segurança.

Uma videoconferência de doadores em apoio ao Líbano acontecerá no domingo (9), co-organizada pela ONU e pela França, segundo informou a presidência francesa à agência de notícias AFP. O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, anunciou que participará. “Todo mundo quer ajudar!”, tuitou.

O Líbano atravessa uma severa crise econômica, e seus líderes não conseguiram chegar a um acordo sobre um resgate econômico com o Fundo Monetário Internacional (FMI).​ O presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, é esperado neste sábado em Beirute, para mostrar a “solidariedade” dos europeus. A UE já liberou 33 milhões de euros.

O chefe da Liga Árabe, Ahmad Aboul Gheit, junto com o vice-presidente turco, Fuat Oktay, e o ministro das Relações Exteriores, Mevlüt Cavusoglu, também visitarão Beirute para assegurar seu apoio. Vários países despacharam equipamentos médicos e sanitários, bem como hospitais de campanha. O Brasil está enviando pele de tilápia para ajudar na cicatrização de queimaduras.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) está preocupada com a saturação dos hospitais, já em situação complicada pela pandemia de coronavírus, escassez crônica de medicamentos e de equipamentos médicos. Enquanto as autoridades estrangeiras se sucedem e a ajuda internacional chega, os governantes do Líbano tentam claramente tirar vantagem da situação, segundo o analista Nasser Yassin, do Instituto Issam Fares.

“O temor é que as autoridades aproveitem este desastre e a atenção árabe e internacional para se manter na superfície”, disse.

Neste contexto, o líder do partido Kataeb, Samy Gemayel, anunciou neste sábado sua renúncia junto com outros dois deputados do histórico partido cristão após o desastre no porto, dizendo que havia chegado a hora de construir um “novo Líbano”. O Kataeb é um partido de oposição ao governo, apoiado pelo Hizbullah, organização ligada ao Irã.

A embaixada dos EUA em Beirute afirmou que o governo norte-americano apoia o direito dos manifestantes libaneses protestarem pacificamente.

Clique para comentar

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

cinco × 2 =