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Diante de Trump, Lula cobra respeito à soberania e critica fortuna de Musk

Sem citar as propostas de cooperação feitas ao governo norte-americano, a afirmação pode ser lida como um recado aos EUA.

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O presidente Lula (PT) cobrou que o combate internacional ao crime organizado tem de “respeitar soberania” dos países e criticou o unilateralismo em sua fala na cúpula do G7 hoje, na França, sem citar diretamente o novo tarifaço dos Estados Unidos ou o presidente Donald Trump, presente na reunião.

Lula afirmou querer cooperar no combate ao tráfico internacional, mas procurou impor limites. “Um deles [dos temas principais do encontro] é o desafio do crime organizado, que aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser direcionados para a construção de escolas, hospitais e estradas. Esse esforço deve levar em conta o respeito à soberania dos Estados”, disse na reunião com participação de convidados do bloco na cidade francesa Évian-les-Bains.

O presidente reforçou o discurso de que o combate tem de ser geral, envolvendo as diferentes camadas das organizações, e não voltado apenas “na ponta”. “O enfrentamento ao narcotráfico não pode ser dissociado de outros ilícitos como a lavagem de dinheiro e o tráfico de armas. Valorizar o diálogo e a cooperação institucional, inclusive por meio da Interpol, contribuirá para a localização de ativos e indivíduos vinculados a essas atividades criminosas.”

Sem citar as propostas de cooperação feitas ao governo norte-americano, a afirmação pode ser lida como um recado aos EUA. O governo brasileiro discorda —e se incomodou— com a classificação unilateral das facções criminosas PCC (Primeiro Comando da Capital) e CV (Comando Vermelho) como grupos terroristas por Washington.

“O protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, disse Lula. “Ficamos aprisionados em dogmas que defendem desregulamentação de mercados, Estado mínimo e austeridade fiscal como fins em si mesmos. O neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias.”

Ao falar de desigualdade, cutucou Elon Musk. “O primeiro trilionário do mundo é mais rico do que os 46% mais pobres da população mundial. A extrema concentração de riqueza decorre de décadas de políticas pró-bilionários”, afirmou Lula. O sul-africano, que já participou do governo Trump, atingiu a marca após a abertura de mercado da sua empresa espacial SpaceX.

“Nossa tarefa é corrigir as desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica. […] Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças. Está claro que o desafio não é administrar a escassez, o déficit que enfrentamos é de implementação e de vontade política”, disse Lula, em reunião do G7.

Já era esperado que Lula não abordasse o tarifaço nem a postura do governo norte-americano de maneira direta. Como o UOL mostrou, o plano era que o presidente “passaria um recado” sobre o já conhecido posicionamento do país contra as sobretaxações unilaterais de Trump, sem que este se tornasse o tema principal da fala.

O entendimento brasileiro é que uma fala pública em uma reunião internacional tem de ser mais ampla. Integrantes da diplomacia ponderam que o assunto se integra ao tema da reunião proposto pela França (“distorções macroeconômicas globais”), mas que não caberia transformar o discurso voltado a diferentes países em uma intriga particular, ainda mais na posição de convidado.

O governo brasileiro diz entender que não está sozinho. Uma das duas sobretaxas aplicadas ao Brasil neste mês, a de 12,5%, atingiu outros 59 países e a União Europeia, e acabou desagradando até aliados, como Israel. Com isso, diplomatas brasileiros dizem acreditar que o tom de Lula deverá ecoar em outras falas, mesmo que os Estados Unidos não sejam citados diretamente.

O governo tem falado em reciprocidade. Por meio de nota, o Itamaraty manifestou “profunda discordância” com o relatório do USTR (Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos) e disse que se fiará na prerrogativa aprovada no Congresso Nacional, caso a sobretaxação seja de fato implementada.

O prazo para aplicação das novas tarifas foi iniciado ontem. Com a soma das duas medidas, os EUA podem acabar taxando alguns produtos brasileiros em até 37,5%. Como justificativa, citaram práticas comerciais “irrazoáveis” do Brasil.

Lula tem feito um esforço grande para mostrar que o Brasil “está fazendo sua parte”. Desde a divulgação das medidas, o governo tem rebatido as sugestões do documento norte-americano área por área, mostrando números que mostram os avanços do Brasil no combate ao desmatamento e ao trabalho forçado, duas das justificativas citadas pelo USTR.

Na visão brasileira, confrontar com dados concretos desqualifica a acusação dos EUA. Além disso, manda um recado para o setor privado norte-americano —que já sofreu com o impacto do tarifaço no ano passado— de que o Brasil tem adotado ações e quer seguir com as relações comerciais normalizadas. Para o público interno brasileiro, mostra que está “defendendo os interesses nacionais”.


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