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Brasil

Para 6 em cada 10 brasileiros, violência contra mulher é a forma de criminalidade mais grave no País

Segundo o Datafolha, agressão à mulher vem antes de tráfico de drogas e assalto à mão armada na percepção geral sobre segurança pública.

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Para 60% dos brasileiros a violência contra a mulher é hoje a situação de criminalidade mais grave no Brasil, segundo pesquisa do Datafolha. Para se ter uma ideia da dimensão do problema, na percepção de 6 em cada 10 brasileiros, a agressão contra a mulher fica à frente do tráfico de drogas (16%) e do assalto à mão armada na rua (10%) como a criminalidade que mais preocupa.

Ao mesmo tempo, a população ainda não enxerga, de modo amplo, agressões psicológicas como uma forma de violência contra a mulher. Esse quadro, até então inédito, foi mapeado pelo Movimento Mulher 360 –associação sem fins lucrativos que atua promoção da equidade de gênero – por meio de pesquisa realizada pelo Datafolha em abril deste ano com 2.004 pessoas acima de 16 anos em todo o País.

É a primeira vez que a violência contra a mulher é apontada como o mais grave problema de segurança pública, segundo o instituto. “Os dados mostram que a pauta sobre violência contra mulher deixou de ser percebida como tema privado ou tema feminino. Virou questão central de segurança pública e social”, diz Margareth Goldenberg, diretora-executiva do Mulher 360.

A pergunta sobre a criminalidade mais grave foi a primeira feita aos entrevistados, sem saberem que se tratava de uma pesquisa específica sobre violência contra a mulher. Entre as mulheres, cerca de 3 em cada 4 (73%) consideram esta como a situação mais grave; já entre os homens a taxa é de 2 em cada 4 (49%).

Por outro lado, o entendimento sobre o que é violência contra mulher ainda é bastante limitado a manifestações físicas, segundo a pesquisa. Uma parte significativa da população tem ressalvas em reconhecer como violência situações envolvendo privações no direito de ir e vir, relacionamentos com outras pessoas, liberdade financeira e privacidade.

Outros dados apontados pela pesquisa 45% entendem que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é uma violência ou “depende da relação entre as pessoas envolvidas”. Neste caso, 55% entendem como violência; 42% acham que não é violência, ou depende da relação, o marido controlar o salário de sua esposa, contra 58% enxergando como violência.

Essa situação muda apenas quando há ações físicas contra as mulheres:

– 94% entendem como violência contra mulher um homem humilhar sua companheira em público;
– 95% consideram violência um marido forçar uma relação sexual com a esposa.

Margareth observa que o percentual de entrevistados que apontam a violência contra a mulher como a criminalidade mais grave está muito acima das demais situações apresentadas na pesquisa, que incluiu ainda uso de drogas em locais públicos (8%), invasão e roubo de casas (2%), furto e roubo de celulares (2%) e roubo de veículos (2%).

Chama a atenção que, entre mulheres de 16 a 24 anos, o índice que considera crime grave a violência contra a mulher chega a 77%, evidenciando a centralidade e a urgência do tema na percepção da população mais jovem.

Os dados também mostram que a maior parte da população (89%) avalia que os casos de violência de gênero aumentaram no último ano, índice ainda mais elevado entre as mulheres (94%) em comparação aos homens (83%). Além disso, a maioria dos entrevistados (71%) acredita que as mulheres hoje correm mais perigo dentro de casa do que fora dela.

Na percepção de 6 em cada 10 brasileiros, a agressão contra a mulher fica à frente do tráfico de drogas (16%) e do assalto à mão armada na rua (10%) como a criminalidade que mais preocupa.

Violência psicológica negligenciada

Embora agressões físicas e ameaças sejam amplamente percebidas como violência de gênero, a violência psicológica e coercitiva ainda é negligenciada, mesmo que cause impactos na saúde emocional, autoestima e liberdade das mulheres. A pesquisa mostrou que 45% entendem que um homem impedir uma mulher de sair de casa para uma comemoração não é uma violência ou “pode ser uma violência ou não, depende da relação entre as pessoas envolvidas”.

Já 41% dos entrevistados entendem que um homem pode controlar as amizades de uma mulher com quem tem um relacionamento. Apenas 44% consideram uma violência o homem pedir as senhas das redes sociais de sua mulher e exigir que mostre todas as conversas (37% homens e 50% mulheres).

A violência patrimonial também ainda não é percebida de maneira ampla. Segundo o Datafolha, para 42% o marido controlar o salário de sua esposa não é violência ou isso depende do relacionamento do casal.

Para Margareth, a pesquisa ajuda a mostrar que existe um vazio de reconhecimento justamente nas etapas anteriores à violência física, que são fundamentais para interromper o ciclo antes que ele se agrave. “Quando esses sinais não são reconhecidos socialmente como violência, homens e mulheres tendem a normalizar comportamentos abusivos por mais tempo. E isso reduz tanto a prevenção quanto a busca precoce por ajuda”, diz.

Na prática, segundo ela, isso significa que muitas mulheres só conseguem reconhecer que estão vivendo violência quando ela já escalou para ameaças físicas, agressões ou risco concreto à integridade. Quando, muitas vezes, já é tarde demais.

74% das mulheres sofreram violência

O Datafolha pediu para que as mulheres consultadas respondessem a um módulo de autopreenchimento do questionário, sendo que 875 aceitaram, ou 84% das 1.037 que participaram da pesquisa como um todo.

Neste caso, o levantamento mostrou que, em média, cada vítima já havia passado por 3 situações de violência de gênero. Além disso, três em cada quatro mulheres (74%) viveram alguma situação de violência, sendo insultos ou xingamentos a mais comum (59%), seguido por ameaça de bater, empurrar ou chutar (45%), e ser seguida ou intimidada (43%).

Houve também relatos significativos sobre violência sexual (ser tocada ou agarrada sem permissão), com 38% das mulheres tendo passado por essa situação. Uma em quatro mulheres também já foi espancada ou sofreu tentativa de enforcamento, enquanto 22% disseram já ter sido ameaçadas com armas ou facas.

Culpa das vítimas?

A pesquisa mostra que culpar a vítima continua sendo um padrão: 61% dos entrevistados concordam que muitos casos de violência contra a mulher são consequência de opções erradas feitas por elas ao escolher um parceiro.

Segundo o Datafolha, 37% das mulheres que sofreram a agressão de maior impacto no último ano afirmaram não ter tomado nenhuma atitude. “O silêncio ainda é uma das principais consequências da violência”, diz a diretora-executiva do Mulher 360.

A baixa confiança nas instituições e na efetividade das leis contribui para esse cenário, já que apenas 19% das mulheres afirmam confiar muito na polícia para protegê-las, percentual que sobe para 31% entre os homens.

Além disso, enquanto 55% dos homens consideram as leis de proteção às mulheres eficientes, o mesmo percentual de mulheres demonstra desconfiança em relação à sua efetividade.

Outros achados da pesquisa

Das 2.004 pessoas abordadas pessoalmente pelos entrevistadores em capitais e regiões metropolitanas de todo o País, entre os dias 06 a 11 de abril de 2026, 1.037 (52%) eram mulheres e 967 (48%) homens. Do total, 45% tinham ensino médio, 30% ensino fundamental e 25% curso superior. Outras constatações da pesquisa:

97% conhecem a Lei Maria da Penha
86% conhecem a Lei do Feminicídio
80% conhecem a Lei da Importunação Sexual
57% conhecem o número de telefone para chamar ajuda
90% concordam que a violência de gênero seja abordada nas escolas.
46% acham que a mulher deve priorizar a família antes da carreira
profissional.
45% admitem que a mulher ganhar mais que o companheiro pode gerar conflito na relação.

Sobre a diferença na percepção da violência contra a mulher:

41% dos homens concordam que a imprensa exagera na exposição dos casos de violência contra a mulher; apenas 29% das mulheres concordam.
39% dos homens concordam que não se deve interferir em briga de casal; apenas 28% delas concordam.
26% dos homens concordam que a última palavra na casa deve ser dele; só 14% das mulheres concordam.
40% dos homens concordam que o ciúme é sinal de amor e pode ser saudável na relação; 26% delas concordam.


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