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Brasil

Onça Gaspar viajou 2110 km quase em linha reta na Amazônia, diz estudo

Trajetória inédita e incomum revela fragilidades do deslocamento de grandes felinos pelos biomas brasileiros.

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Uma onça-pintada (Panthera onca) macho de oito anos realizou uma jornada nunca antes registrada entre esses felinos. Gaspar, como é chamado pelos pesquisadores, caminhou 2.122 quilômetros ao longo do rio Araguaia, cruzando a região sudoeste da fronteira entre a floresta amazônica e o Cerrado.

A precisão da distância vem do monitoramento feito por um grupo de biólogos que estuda as onças brasileiras desde 1999 junto ao Instituto Onça-Pintada. O próprio Gaspar é rastreado por uma coleira GPS desde 11 de novembro de 2024, o que possibilitou que a equipe traçasse a sua trajetória incomum: um caminho quase em linha reta. Os resultados observados foram publicados na revista científica Ecology em 16 de junho.

A jornada de Gaspar

Gaspar é a primeira onça-pintada, ao menos do que se tem registro, a ter ido tão longe em pouco mais de um ano. Como notou a revista New Scientist, é comum que, no mesmo período, onças não passem de distâncias entre os 60 e 100 quilômetros.

A má notícia é que. desde 27 de novembro de 2025, depois de chegar à marca dos mais de 2110 quilômetros percorridos, os pesquisadores não conseguiram rastrear a onça recordista outras vezes. Por outro lado, caso Gaspar esteja vivo, ele pode alcançar uma marca ainda maior do que a confirmada por ora.

Rota espacial sobreposta às principais classes de cobertura do solo — Foto: Ecology

Mas, afinal, o que levaria esse animal a aguentar tantos quilômetros? Não existe uma resposta definitiva. A suspeita mais relevante é a de que uma outra onça-pintada macho reivindicou (e acabou ganhando, claro) o território de Gaspar por precisar de melhores fontes de alimento, habitat e oportunidades de sobrevivência.

Quem explicou essa suposição foi Leandro Silveira, do Instituto Onça-Pintada. “Gaspar é um animal saudável com porte avantajado. Um animal nessas condições já está estabilizado em seu território [desde o 1º ou o 3º ano de vida]. Não é esperado que ele saia em busca de um novo território. Por isso estamos surpresos com sua movimentação. Ainda mais porque ele não se deslocou para uma área adjacente, ele simplesmente começou a viajar quase em linha reta”.

Todos os caminhos levam à conservação

Durante as suas andanças, Gaspar passou por diferentes propriedades rurais, como lavouras e plantações de cana-de-açúcar dos estados de Mato Grosso, Tocantins e Goiás. Ainda assim, os deslocamentos mais frequentes aconteceram dentro de áreas de reserva legal e Áreas de Preservação Permanente (APPs), previstas pelo Código Florestal.

Ainda que o felino possa ter sobrevivido, a sua passagem em regiões tão conhecidas pela presença de pecuaristas é um alerta para os especialistas. Afinal, é nessas áreas que as onças-pintadas enfrentam ameaças de caça-ilegal e podem ser mortas. Não à toa, os pesquisadores defendem que é preciso repensar a forma como as regiões florestais protegidas são, de fato, concebidas e organizadas.


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