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Brasil

Inpa alerta para impactos de barragens e secas extremas sobre florestas alagáveis da Amazônia

Instituído em 2 de fevereiro, o Dia Mundial das Zonas Úmidas reforça a relevância desses ecossistemas fundamentais para o equilíbrio em seus biomas.

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Na Amazônia, os estudos conduzidos por pesquisadores do Grupo de Pesquisa em Ecologia, Monitoramento e Uso Sustentável de Áreas Úmidas (GP-MAUA), vinculado ao Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa/MCTI), chamam a atenção para o papel fundamental das áreas alagáveis para a biodiversidade, o clima e as populações que dependem deste ecossistema.

As Áreas Úmidas, também conhecidas como Zonas Úmidas, são ambientes que se encontram na interface dos sistemas terrestres, como a terra firme, e sistemas aquáticos, como rios e lagos sob diferentes regimes de inundação. Nessas categorias se encaixam as várzeas, os igapós, os buritizais, os baixios e por boa parte das campinaranas, entre outros ambientes, que no total abrange 2.3 milhões de quilômetros quadrados na Bacia Amazônica.

O foco e preocupação com esses ecossistemas nunca esteve tão evidente nas últimas décadas, pois qualquer alteração nas dinâmicas naturais desses ambientes impacta diretamente o cotidiano e vida de populações tradicionais e centros urbanos da Amazônia brasileira.

Para o pesquisador do Inpa e coordenador do Programa de Pesquisas Ecológicas de Longa Duração (PELD MAUA), Jochen Schöngart, as áreas úmidas amazônicas exercem importantes funções em vários aspectos. “Além dos serviços ecossistêmicos fundamentais, esses ambientes armazenam e sequestram carbono, abrigando também uma biodiversidade parcialmente endêmica, adaptada a essas condições do regime de inundação”, explicou o pesquisador.

“São ecossistemas intrinsecamente relacionados com o desenvolvimento das culturas, de várias populações humanas – das populações indígenas e depois as populações tradicionais que habitam na Amazônia, principalmente as áreas alagáveis de várzea e também dos igapós”, completou o coordenador do PELD-MAUA.

Segundo Schöngart, várzeas e igapó são ecossistemas muito importantes na mitigação de impactos causados por cheias e secas extremas que aumentaram neste século na sua magnitude e frequência sem precedentes, afetando diretamente as populações no entorno, os municípios e na própria capital, Manaus (AM).

A Hidrelétrica de Balbina e a seca artificial no Rio Uatumã

Um exemplo marcante que alterou completamente as características naturais de um ecossistema, foi a barragem da hidrelétrica de Balbina. O represamento do rio Uatumã (AM) para o enchimento do reservatório no período de 1987 a 1989 causou uma seca artificial nas áreas alagáveis a jusante da barragem, pois o pulso de inundação – vital para a manutenção desse ecossistema – foi extinto naquela região. Em consequência, boa parte da floresta de igapó morreu, seguida por uma recuperação natural das áreas degradadas por uma vegetação florestal que apresenta uma composição diferente de espécies de árvores e com riqueza inferior em comparação com a floresta anterior. (Leia o artigo completo AQUI)

“Recentemente publicamos um estudo na revista internacional Forest Ecology and Management, que mostrou que o barramento do Rio Uatumã ocasionou uma profunda mudança na vegetação jusante. Os impactos foram detectados até 120 quilômetros rio abaixo, mostrando redução significativa na diversidade de espécies e mudanças na composição florística, mesmo após quarenta anos do impacto da instalação”, revelou a autora do estudo, a Colaboradora do Grupo MAUA Carla Iara Dantas.

O estudo liderado por Dantas e outros autores do GP MAUA, foi baseado em inventários florísticos realizados em 3,75 hectares de floresta, com parcelas (o mesmo que unidades amostrais de área definida) distribuídas a cada 10 km de distância da barragem. Os resultados indicam que a seca artificial causou mortalidade excessiva das florestas próximas à barragem, além de alterações profundas na estrutura da vegetação.

“Próximo à barragem, predominaram espécies indicadoras de distúrbios, caracterizadas por crescimento acelerado, por baixa longevidade e com baixa capacidade de estocagem de biomassa. Portanto, esses resultados reforçam a importância da conservação desses ecossistemas, com a alta vulnerabilidade e baixa resiliência desses ambientes de igapó”, alertou Dantas, que realizou esse estudo no âmbito da sua dissertação de mestrado no Programa de Pós-graduação em Ecologia do Inpa.

Segundo os autores, os achados são altamente relevantes diante dos planos de expansão de dezenas de usinas hidrelétricas na Amazônia e do aumento da frequência e intensidade das secas extremas observadas nas últimas três décadas, reforçando a importância de considerar impactos ecológicos de longo prazo no planejamento energético.

A floresta ao longo do tempo: o que mostram os estudos de longa duração

Um segundo estudo realizado pelo PELD-MAUA teve como foco compreender a dinâmica da sucessão pós-fogo em florestas de igapó no Parque Nacional do Jaú na Amazônia Central, analisando como secas severas associadas com eventos de El Niño pode tornar áreas úmidas vulneráveis a incêndios florestais (leia AQUI).

A pesquisa teve como objetivo entender como essas florestas se recuperaram após incêndios florestais, ao longo de 36 anos, além de avaliar a mudança na composição de espécies, na diversidade, na estrutura da vegetação e nos estoques de biomassa, especialmente em eventos climáticos extremos associados ao El Niño.

“Esses eventos acontecem com uma certa frequência e quando a gente tem eventos de seca extrema, principalmente relacionados El Niño, esses ambientes de igapó passam a ter um acúmulo maior de serapilheira (camada de folhas secas, galhos, restos de frutas, flores que está na superfície do solo), que acumula, seca mais rápido e acaba se tornando altamente vulnerável a incêndios. Lembrando que o incêndio não ocorre naturalmente nas florestas e nem na Amazônia, mas ele precisa de um agente externo, geralmente um fator antrópico, ou seja, um ser humano para dar essa ignição e iniciar o fogo”, detalhou o autor do estudo, Gildo Vieira Feitoza, que foi abordado na sua tese de doutorado no Programa de Pós-graduação em Botânica do Inpa.

O estudo revelou que cerca de 80% a 90% de árvores da floresta desses ambientes podem ser perdidas com um único evento de fogo. “Descobrimos que a floresta que se recupera nas áreas afetadas por incêndios quase quarenta anos atrás, recuperou somente 16% de toda a biomassa e aproximadamente 50% da diversidade que ela possuía antes da queimada”, completou Feitoza, pesquisador INCT WETSCAPE vinculado ao GP MAUA.

Sobre o PELD-MAUA

Em sua quarta fase, o PELD-MAUA é um dos projetos mais importantes de monitoramento ecológico de longa duração nas áreas úmidas da região amazônica, com foco na investigação dos impactos de distúrbios naturais, como cheias e secas extremas e de ações humanas, como queimadas e hidrelétricas.

Coordenado pelo Inpa/MCTI e pelo Grupo MAUA, o projeto atua em diferentes tipos de áreas úmidas, promovendo ciência colaborativa, formação de jovens pesquisadores e geração de dados essenciais para a conservação da sociobiodiversidade amazônica.


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