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Artigo

Maués, minha mãe e o futuro que floresce – Armando Mendes

“Ambas as mães — Tarcila e essa terra generosa — moldaram o que de melhor trago em mim”.

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A primeira lembrança que tenho de Maués é o aroma inconfundível do guaranazal orvalhado, às cinco e meia da manhã. Minha mãe, dona Tarcila, fazia questão de me trazer, ano após ano, para passar as férias na terra onde nasceu, se casou e deixou raízes que permanecem vivas até hoje. Antes mesmo do sol nascer, subíamos na bicicleta e atravessávamos a guaranazal mergulhados no frescor das flores de guaraná, respirando aquele ar doce que parecia nos alimentar a alma.

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Fotografias: Denilson Novo

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As manhãs começavam com um café com leite fresco, pão quentinho preparado com a mesma dedicação dos imigrantes italianos, como meu bisavô, que escolheu Maués como destino definitivo. O almoço era sempre um banquete simples e inesquecível: um peixe recém-pescado, uma galinha caipira, um pato ou uma caça. Depois, vinham as conversas demoradas com minha avó Santina e minha tia Branca Rosa, que ensinavam mais que livros. À tarde, o café com minha bisa Jacy Prado de Negreiros e o carinho protetor da Dinda, do tio Antônio José, sempre prontos a me defender das minhas danações de menino.

À noite, quando a energia da cidade era cortada às nove horas, a vida seguia vibrante na praça, iluminada pela lua e pela alegria das bicicletas. Era uma sensação de liberdade sem igual.

Foi em Maués também que aprendi a nadar com meus amigos Sateré-Mawé, que frequentavam nossa casa. Eles me ensinaram a mergulhar no rio, a pescar tucunarés com as mãos, a reconhecer a calma dos jacaretingas e a respeitar o tempo da natureza. Riam do meu óculos de mergulho, coisa de “menino da cidade”, mas me tornavam mais amazônida a cada braçada nas águas do Maués-Açu.

Voltar agora, depois de quatro décadas, é reviver tudo isso. É sentir novamente o perfume da manhã, o frescor da terra, a presença invisível, mas real, de minha mãe. Porque ninguém morre. Voltamos para a natureza. E eu sei que ela está aqui, presente no vento, no aroma exalado do guaranazal, na memória coletiva que agora se renova com a inauguração do Centro de Educação Profissional Tarcila Prado de Negreiros Mendes.

Este centro não é apenas concreto, tijolo ou investimento. É um gesto de futuro. São 2.198 m² de salas modernas, seguras, acolhedoras — algo raro e extraordinário em tempos de quase uma década de ausência do Estado e de suas políticas públicas. Um investimento de mais de R$ 11 milhões do Sistema Fecomércio, Sesc e Senac, que prova que a iniciativa privada, quando inspirada pela missão de servir, pode ser motor de transformação, cidadania e dignidade.

E faço aqui uma comparação inevitável: este centro de Maués é tão significativo quanto a criação da Universidade do Estado do Amazonas (UEA) por Amazonino Mendes, que revolucionou a educação no Estado ao levar ensino superior gratuito a cada canto do Amazonas. Assim como a UEA abriu portas para milhares de jovens no interior, este centro abre horizontes para novas gerações em Maués. Ambos são marcos históricos que provam que investir em educação é investir em futuro.

Quero destacar a visão de Roberto Tadros, presidente da Confederação Nacional do Comércio (CNC), amazonense que leva nossa terra no coração e que inspira todo o Sistema Sesc-Senac a ousar, mesmo diante de incertezas. Ao lado dele, o presidente da Fecomércio Amazonas, Aderson Frota, parceiro incansável, e a prefeita Macelly Veras, que recebeu esta conquista para o povo de Maués com coragem e carinho. Representantes do Estado, do município e de nossas comunidades ribeirinhas e originárias estavam presentes, testemunhando uma integração perfeita: um centro que não exclui, mas inclui, que não divide, mas soma.

O auditório leva o nome de Zanoni Magaldi, empresário que acreditou em Maués e incentivou a chegada do Senac. Sua família esteve presente, simbolizando a união de gerações em torno de um mesmo propósito: educar e transformar. E, como gesto simbólico, plantamos juntos uma árvore de guaraná, reafirmando que este espaço nasce enraizado na identidade cultural da “Terra do Guaraná”.

Minha mãe, Tarcila, homenageada por este centro, partiu em 2015, aos 74 anos. Advogada, juíza do trabalho, presidente da Legião Brasileira de Assistência, líder estudantil nos anos 1960 e primeira-dama em mandatos de meu pai, Amazonino Mendes, ela sempre acreditou que a dignidade começa pelo acesso ao conhecimento. Mais do que títulos e funções, ela deixou uma marca social, intelectual e humana que agora se perpetua em Maués.

Antes mesmo da inauguração, o centro começou a pulsar vida: cursos de Técnico em Vendas, Excelência na Recepção em Eventos, Qualidade no Atendimento em Hospedagem, Atendimento ao Cliente em Farmácias e Drogarias. Jovens e trabalhadores já começaram a se qualificar. E muitos outros virão. São novas turmas, novas esperanças, novos caminhos.

Este centro é símbolo e promessa. Símbolo de um passado que nos formou e promessa de um futuro que nos cabe construir. Maués não oferece apenas guaraná ao mundo: oferece talento, inteligência, oportunidade.

Isso me faz ter a certeza de que ninguém morre, mas volta para a natureza. O espírito dela está aqui, agora materializado numa obra tão significativa, tão necessária em tempos de incertezas. Este centro abre novos caminhos, renova esperanças.

Escrevo estas linhas tomando minha dose de guaraná ralado numa língua de pirarucu com bastão do Marau, como minha mãe fazia todos os dias. Em homenagem a ela. Em homenagem a este dia tão importante para Maués, que com toda certeza merece e vai cuidar desse novo patrimônio social e visionário de uma organização privada gerida por Roberto Tadros, um verdadeiro amazônida, um grande homem e sua equipe de homens e mulheres.

*Armando Mendes é empresário, sócio-diretor da rádio Mix Manaus, primogênito do casal Tarcila-Amazonino.


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