Amazonas
Projeto identifica primeiras pinturas rupestres no lado brasileiro do Alto Rio Negro, no Amazonas
O estudo contribui para elucidar processos antigos e diversificados das ocupações e adaptações humanas na bacia amazônica brasileira.
Longe de olhos não indígenas, na região da Cabeça do Cachorro, extremo noroeste do Amazonas, na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), pesquisadores identificaram um vestígio inédito da permanência milenar dos povos originários da Amazônia brasileira, uma prova da ancestralidade da ocupação da floresta. São as primeiras pinturas rupestres conhecidas pela arqueologia nessa região da bacia amazônica, habitada pelos povos Baniwa e Koripako.
A identificação do sítio arqueológico é um dos resultados do primeiro ano da pesquisa intercultural “Vozes da Amazônia Indígena: processos históricos da sociobiodiversidade frente aos desafios do antropoceno”. Coordenado pelo Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG), órgão vinculado ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o projeto conta com o envolvimento de, aproximadamente, 100 pessoas indígenas e não indígenas, de comunidades tradicionais e de mais de 20 instituições científicas.
Os arqueólogos do projeto destacam a importância do achado para documentar a biodiversidade amazônica e a sua relação com conhecimentos e práticas de povos indígenas do presente e do passado. Os pesquisadores e integrantes das comunidades indígenas consultadas e envolvidas na pesquisa veem, nesses primeiros resultados do projeto, uma oportunidade de fortalecer a conexão entre o território, as histórias contadas por seus antepassados e as marcas deixadas nos lugares sagrados ancestrais. Por causa do seu valor científico e cultural, por decisão dos indígenas do Tiarn, o acesso ao sítio arqueológico está restrito aos participantes da pesquisa intercultural.
Um projeto e três territórios
O “Projeto Vozes”, iniciado em fevereiro de 2025, abrange pesquisas diversas em três territórios: a Terra Indígena (TI) Alto Rio Negro, no Amazonas, onde está a arte rupestre recém-identificada; a TI Kaiapó, no Pará, que teve sua primeira expedição este ano; e a TI do Xingu, no Mato Grosso, onde o projeto está dando continuidade às décadas de pesquisas realizadas com o povo Kuikuro. Além da arqueologia, os estudos avançam em várias frentes, desde inventários biológicos e descrição de novas espécies, passando pela documentação de práticas culturais, até o geoprocessamento e levantamentos com Light Detection and Ranging (Lidar), uma tecnologia a laser que coleta dados topográficos de alta precisão e resolução.

Nesse primeiro ano de pesquisa, somente na Terra Indígena Alto Rio Negro (Tiarn), foram realizadas três viagens de campo, em fevereiro, em agosto e em outubro do ano passado. Entre mais de uma dezena de pesquisadores, estavam Helena Lima, coordenadora do projeto, arqueóloga do Museu Goeldi; Raoni Maranhão Valle, arqueólogo, da Universidade Federal do Oeste do Pará – Ufopa; Thiago Chacón e Arthur Waliperi Baniwa, linguistas vinculados à Universidade de Brasília (UnB); Filippo Stampanoni Bassi, arqueólogo e diretor do Museu da Amazônia (Musa); e Sidney Garcia, pesquisador e professor Baniwa (AM).
Um dos objetivos dessas expedições foi o estabelecimento de um diálogo intercultural entre os pesquisadores das instituições e os indígenas que estão nos territórios. Nessas viagens, os dois grupos trocaram saberes, definiram as atividades de campo e planejaram outras ações do projeto.
Na região do rio Içana, afluente do rio Negro (AM) habitado majoritariamente pelos povos Baniwa e Koripako, por exemplo, foram visitados e caracterizados locais para escavações arqueológicas e para a coleta de amostragens geoarqueológicas e paleoecológicas. Foi nessa oportunidade que os pesquisadores identificaram os primeiros sítios de pintura rupestre naquela região, que – devido ao formato do desenho do mapa geográfico – é conhecida como “Cabeça do cachorro”, onde fica o município de São Gabriel da Cachoeira, na fronteira entre o Brasil, a Colômbia e a Venezuela.
De acordo com dados do Instituto Socioambiental (ISA), o Brasil tem aproximadamente 833 terras indígenas em diferentes fases de procedimento demarcatório, sendo 540 homologadas e reservadas. Nas TIs abrangidas pelo projeto Vozes da Amazônia Indígena, segundo estimativa do ISA, vivem mais de 38,5 mil pessoas, sendo mais de 26 mil na TI Alto Rio Negro, 6,3 mil na TI Kayapó e 6,1 mil na TI Xingu.
“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos”
Sidney Garcia é pesquisador do povo indígena Baniwa (AM). Com Licenciatura Intercultural Indígena, pela Universidade Federal do Amazonas (Ufam), ele foi um dos indicados para compor a equipe do Projeto Vozes da Amazônia Indígena. Sua indicação surgiu devido às pesquisas que desenvolveu sobre os lugares sagrados dentro do seu território.
Nesta entrevista, Sidney Baniwa falou sobre a dificuldade para chegar aos locais de pesquisa, que são de difícil acesso e nos quais nem mesmo ele havia estado antes. Inclusive, o pesquisador relata que a arte rupestre identificada no Tiarn não era conhecida – no sentido de ser vista presencialmente – por seus contemporâneos. “Foi muito bom. Eu tenho certeza que daqui pra frente a gente vai ter mais, porque estamos no começo ainda”.
O pesquisador também destaca o valor desses espaços, não apenas como lugar de pesquisa, mas, principalmente, como espaços sagrados para o seu povo. Por causa disso, em uma decisão tomada pela comunidade, o acesso à localidade onde estão as pinturas rupestres foi restrito aos pesquisadores do Projeto Vozes.
“A gente não quer que alguém chegue querendo ver, tirar fotos. Na nossa reunião, a gente (decidiu que) não vai liberar ainda… A gente não vai aceitar pesquisadores, qualquer pesquisador, pode ser do nosso país ou de fora”, afirmou, acrescentando que qualquer mudança em relação a essa decisão será discutida na e pela comunidade.
Para não desvirtuar a fala do professor Sidney Garcia, na tentativa de atender regras da língua portuguesa não seguidas pela cultura indígena, o trecho da entrevista foi mantido em áudio e pode ser acessado pelo canal do Museu Goeldi no Youtube:
“Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado” (Raoni Valle).
Achado pode ser apenas “a ponta do iceberg”
A presença de pinturas rupestres foi identificada em dois sítios ao longo do rio Içana, na TI Alto Rio Negro, São Gabriel da Cachoeira, no Amazonas. De acordo com o pesquisador Raoni Valle, existem centenas de locais com “gravuras” rupestres no Tiarn, talvez milhares em toda a bacia, e a maioria é conhecida dos povos nativos. Entretanto, “pinturas” rupestres são menos conhecidas no lado brasileiro do mapa do noroeste amazônico. Assim, o achado pode elucidar processos antigos e diversificados das ocupações humanas na região. No entanto, o arqueólogo alerta para o cuidado de não se tratar o fato como “uma descoberta” (pensamento colonizador), pois, apesar da geração atual de pesquisadores indígenas ter pisado nesses sítios pela primeira vez nessa expedição, esses lugares são conhecidos de seus ancestrais e estão presentes nos registros orais de seus povos. Portanto, os cientistas postulam o ineditismo desse achado apenas do ponto de vista do conhecimento arqueológico ocidental.
“São lugares ancestralmente conhecidos, pelos quais os Baniwa e os Koripako têm grande respeito e com os quais estão entrelaçados. Alguns indígenas (especialistas em rituais, pajés) possuem chaves espirituais e corporais que permitem abrir essas casas de conhecimento para que pesquisem com os ancestrais, com os espíritos, com os animais, com as plantas, com as rochas, e com os heróis míticos que habitam esses lugares. Dessa maneira, esses sítios somente podem ser considerados ‘descobertas’ arqueológicas inéditas do ponto de vista da limitação amostral da arqueologia ocidental na Amazônia. Não estamos descobrindo e explorando o desconhecido e o abandonado, estamos, sim, generosamente sendo recebidos como aprendizes e sendo cobrados para pormos nossos conhecimentos técnicos e teóricos a serviço de demandas dos donos dessa casa-território, voltadas à proteção, à defesa, à promoção, à valorização e à reativação do território sagrado”, pontuou Raoni Valle.
Ainda de acordo com o arqueólogo, o local investigado foi dividido em dois setores e, em cada um deles, foi achado um abrigo com pinturas rupestres. “Na área também chamada de ‘Cabeça do cachorro’, não havia registros de pinturas rupestres até recentemente, quando identificamos um sistema de abrigos sob rocha numa formação serrana. No setor 1, um abrigo apresenta pinturas rupestres identificadas com 100% de certeza, onde figuras pintadas com tinta vermelha, provavelmente derivada de hematita (ocre ou óxido de ferro), com traços grossos (>1,0 cm), podem ser percebidas como possíveis biomorfos (formas de organismos vivos) e figuras geométricas. Nos outros abrigos, as condições de preservação e de exposição da superfície rochosa são precárias. Foram observadas manchas que precisam ser verificadas com maior detalhamento para asseverar se são marcas antrópicas (feitas por gente humana). No setor 2, o mesmo se repete. O levantamento é preliminar e outros sítios com essas características podem existir nessa área. Topamos com a ponta do iceberg, apenas”, considerou.
Temas e formas apontam para novo estilo
A arte rupestre identificada é descrita no relatório preliminar do projeto como “pinturas feitas nas cores vermelha e amarela, provavelmente de ocre; que encontram-se massivamente recobertas por uma camada orgânica esbranquiçada, provavelmente líquenes que se formaram sob as condições de umidade do ambiente atual; com ocorrência em toda a extensão dos paredões rochosos da base da serra”. O pesquisador Raoni Valle explica que o termo “ocre” se refere à matéria-prima corante com a qual a tinta em questão foi feita, a partir de alguns minerais, como óxido de ferro ou hematita. Segundo ele, o ferro é um mineral bastante usado no mundo todo para a produção de pigmentos naturais em tons de vermelho, marrom e amarelo.
“Essas são as bases minerais mais comuns para as tintas e pigmentos das pinturas rupestres, mas há registros de outras tintas, cores e matérias-primas. Essas tintas poderiam e deveriam ter muito mais componentes em suas receitas, sobretudo de origem orgânica, vegetal e animal, mas essa fração da matéria é justamente a que é mais afetada pelos processos naturais de alteração e preservação, resultando que, nas análises químicas desses pigmentos, normalmente a fração mineral é detectada com mais proeminência ou quase com exclusividade”, explicou.
Em relação aos temas das pinturas, o pesquisador disse que essa análise ainda é prematura, mas que ainda não foram identificadas figuras reconhecíveis, sem ambiguidade, como figuras antropomórficas (semelhantes à forma humana), nem zoomórficas (formas de outros animais). Segundo ele, por isso, o achado está sendo tratado como constituído por “grafismos puros ou abstrato-geométricos, alguns potencialmente biomórficos ”. No geral, a amostra apresenta alguns casos de aplicação de pigmento sobre as superfícies rochosas para emular e seguir os contornos e feições naturais dos suportes geológicos. Valle, no entanto, ressalta que esse fenômeno não é inteiramente novo na Amazônia, pois, em Monte Alegre (PA), também existem pinturas que seguem as formas naturais das rochas. Mas, segundo ele, a maneira como isso é feito, na interface tinta-rocha, e a forma das figuras, apresentam diferenças.
“Sugerem fortemente que o suporte (formações geológicas naturais), em si, já era significativo, sensorial e simbolicamente ativo para as pessoas que pintaram naqueles abrigos, e que o uso de tinta, eventualmente, funcionaria como processo de reativação cognitiva da sacralidade situada no espaço geológico paulatinamente familiarizado por humanos e espíritos”, disse Valle, acrescentando que a observação aponta potencialmente para um “estilo novo de pinturas rupestres amazônicas” que poderá ser confirmado com o andamento das pesquisas.
Possíveis datações das pinturas
Apesar de deixar claro que ainda não é possível estabelecer datações confiáveis das pinturas, trabalha-se inicialmente com uma hipótese de que elas podem ter sido feitas em um período geologicamente associado ao holoceno médio, aproximadamente entre 8.000 AP (antes do presente) e 4.000 AP. “Uma janela culturalmente longa, mas, em todo caso, é uma estimativa fundamentada na relação entre as pinturas e fatores e processos naturais que ocorreram e se acumularam depois que os grafismos já existiam”, explicou Valle.
Por exemplo, observou-se que há formação de líquenes (colônias simbióticas entre microrganismos, que se desenvolvem sob condições específicas de temperatura, umidade, luz solar, chuva, ausência de poluição atmosférica) apenas sobre as pinturas, e não sob elas. “O raciocínio é: se as pinturas foram feitas em superfícies sem os líquenes, então, há uma grande probabilidade de que foram pintadas em uma época em que as condições climático-ambientais eram diferentes das atuais. Há estudos paleoambientais na Amazônia que identificam indicadores de uma menor umidade, menos água no ambiente no holoceno médio”. Um dos passos seguintes é tentar datar os líquenes encontrados para se ter um limite mínimo de idade plausível para a arte sob eles.Os pesquisadores também ratificam que os objetivos atuais da investigação passam pela pesquisa etnográfica sobre a relação dos Baniwa com as pinturas rupestres, o que tem sido possível graças à presença de pesquisadores indígenas no projeto, e pela continuidade do processo prospectivo, da documentação digital dos sítios arqueológicos e das pinturas. Atualmente, também estão sendo feitas análises e pós-processamento digital do material produzido em campo (fotografias, vídeos, pequenos mapas e plantas descritivas, decalques digitais e modelos 3D de feições no ambiente, painéis e figuras, estruturas, artefatos relacionados às pinturas), no Laboratório de Antropologia Visual e Arqueologia da Imagem, na Universidade Federal do Oeste do Pará (Lavai/Ufopa), instituição a qual o pesquisador Raoni Valle é vinculado. Segundo ele, as análises resultarão em imagens digitalmente modificadas ou fabricadas, mapas finalizados e em um relatório descritivo que integrarão o acervo de dados do Projeto Vozes. Os pesquisadores ressaltam que os dados sobre a arte rupestre serão devidamente tratados e apresentados em futura publicação científica interepistêmica liderada pelos pesquisadores Baniwa envolvidos na pesquisa.
Gravuras e pinturas: diferenças e ocorrências
É importante destacar que a gravura rupestre é diferente da pintura rupestre. A primeira (petróglifo) é uma marca feita a partir da remoção ou retirada de matéria rochosa de uma superfície, deixando sulcos, ranhuras, raspagens, incisões, percussões, buracos, cicatrizes em depressão no relevo da superfície rochosa. Já a segunda (pictograma ou pictografia) é a aplicação de matéria corante, de tinta, sobre rocha. Ambas as expressões são chamadas de arte rupestre.
De acordo com o pesquisador Valle, na Amazônia, assim como em outros lugares, existem tanto pinturas rupestres quanto gravuras rupestres . Mas, segundo ele, é mais comum achar gravuras nos afloramentos rochosos mais baixos, nas beiras dos rios e dos igarapés da Amazônia, lugares de alta visibilidade nas secas. Já as pinturas rupestres amazônicas são muito mais raras na beira dos rios e recorrentes em contextos ambientais mais elevados, dentro de abrigos sob rocha e de cavidades rochosas, onde tendem a estar mais preservadas, mais longe dos impactos das cheias, das chuvas e do sol.
“Além disso, as ações de produção, modificação e uso da arte nesses lugares podem ter deixado outros vestígios enterrados. Portanto, sítios em abrigos sob rocha são potencialmente mais ricos em informações sobre o contexto arqueológico da arte rupestre”, apontou o pesquisador, explicando a relação que existe entre o achado de arte rupestre e outros vestígios ou marcas da ocupação humana identificadas, bem como, possíveis relações com outros sítios sagrados pesquisados pelo Projeto Vozes no noroeste amazônico.
O valor dos achados (como pedras e lugares sagrados) é o reconhecimento do manejo dos sítios arqueológicos, dos caminhos, das paisagens, pelos povos ancestrais. O mapeamento da biodiversidade e da riqueza tem, na visão da ciência indígena, um valor de reconhecimento do manejo ancestral, de fortalecimento da conexão cultural com o território. Então, é a prova da ancestralidade da ocupação da floresta. O valor para a ciência indígena é de proteção desses lugares, a partir da visão da arqueologia (Artur Walipere)
Guia e mediação nos lugares sagrados
Artur Garcia Gonçalves ou Artur Walipere também integra o Projeto Vozes da Amazônia Indígena, desde seu início. Pesquisador, doutor em linguística pela Universidade de Brasília (UnB), ele estuda línguas indígenas, especialmente, as faladas pelos povos Aruak, da TI Alto Rio Negro, no Amazonas. Atualmente, coordena o “Inventário da Diversidade Linguística Medzeniakonai: Língua, Educação e Patrimônio Cultural”, do Iphan, e o projeto “Speak, Sing, Pray: diversity and special language use among the Medzeniakonai (Baniwa and Koripako), no Northwest Amazonia”. Com atuação em escolas indígenas e em pesquisas relacionadas ao conhecimento sobre a língua e a cultura dos povos Baniwa, ele participou da equipe que produziu o Dicionário Multimídia ‘Iakottinai Kaakonaperi Medzeniakonai – Lugares sagrados do povo Medzeniakonai”.
Para ver a reportagem completa e entrevistas, acesse o link.
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