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Amazonas

DW: descontrole nas prisões, falta de coordenação e pouco uso de inteligência favorecem facções no Amazonas.

Segundo a reportagem do site da Alemanha, no caso dos recentes ataques em Manaus, o próprio poder público reconheceu que a ordem para os atentados veio de dentro de um estabelecimento prisional.

Em uma reportagem sobre as causas de cidades como Manaus ficarem reféns de ataques criminosos, no site Deutsche Welle (DW), da Alemanha, um dos meios de comunicação internacionais mais relevantes do mundo, especialistas dizem que o descontrole nos presídios, a falta de coordenação entre órgãos públicos e pouco uso de inteligência favorecem facções.

Segundo a reportagem, no caso dos recentes ataques em Manaus, o próprio poder público reconheceu que a ordem para os atentados veio de dentro de um estabelecimento prisional, padrão verificado em outras ondas de ataques semelhantes em diferentes estados.

O DW informa que isso ocorre, entre outros motivos, porque a situação nas penitenciárias do Amazonas, assim como em outras unidades da Federação, é de “completo descontrole”, o que favorece a atuação desimpedida das facções nesses locais, segundo Rafael Alcadipani, membro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV).

Da noite de sábado (05/06) à manhã de segunda-feira, Manaus e outras seis cidades do estado do Amazonas enfrentaram uma onda de ataques promovidos por criminosos sob o comando de líderes presos, que afetaram o cotidiano de milhares de pessoas, com suspensão do transporte coletivo, do atendimento do governo à população e da vacinação contra a covid-19.

Os criminosos incendiaram pelo menos 29 veículos, dos quais 15 ônibus, atacaram oito prédios públicos com tiros e provocação de incêndios, e vandalizaram sete agências bancárias. Os alvos incluíram uma delegacia, na qual foi atirada uma granada que não explodiu, e uma Unidade Básica de Saúde, onde houve um princípio de incêndio.

Em Manaus, além da interrupção do transporte, da vacinação e dos atendimentos médicos sem urgência, foi suspensa a entrega de cestas básicas a famílias afetadas pela cheia do Rio Negro. Os serviços públicos foram retomados nesta terça, após cessarem os ataques.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas afirmou que a ordem para os atentados veio de dentro de um presídio de Manaus, após um integrante do alto escalão de uma facção ter sido morto no sábado na cidade durante uma operação da Polícia Militar. Desde o início dos ataques, 35 pessoas foram presas, e na segunda-feira o ministro da Justiça, Anderson Torres, anunciou que enviaria tropas adicionais da Força Nacional ao estado, a pedido do governador Wilson Lima (PSC).

O ponto de maior interesse das facções no estado é o controle de rotas de tráfico de cocaína produzida na Colômbia. A partir do Amazonas, a droga pode ser escoada para outras regiões do Brasil e para o exterior. “É uma forma de as facções terem uma janela para o Atlântico Sul, para exportar para Europa, África e para o próprio Brasil”, diz Alcadipani.

Problema

A principal falha na atuação do Estado brasileiro que favorece a expansão e a atuação das facções nos presídios e fora deles é a falta de articulação entre órgãos públicos estaduais e federais, afirma Alcadipani.

As organizações criminosas atuam em nível nacional, com conexões internacionais, e o cerne da política de segurança para combatê-las ocorre de forma isolada, nos estados. O correto, segundo ele, seria articular forças-tarefas com polícias civis e militares de diferentes estados, Polícia Federal, Ministério Público, Poder Judiciário e, no caso da região amazônica, o Exército, “para conseguir ir secando as fontes financeiras das facções”.

Além disso, o uso de inteligência para mapear o funcionamento e financiamento das facções é escasso. No lugar, adota-se uma postura reativa para conter crises com o uso de força bruta, diz o professor da FGV.

“Usar inteligência é raríssimo, ficamos no mesmo roteiro. Espera-se o problema acontecer, quando acontece chama a Força Nacional, e por aí vai. A chave da segurança pública hoje é a truculência, e não a inteligência, fruto de uma mentalidade primitiva e atrasada para a resolução de conflitos”, afirma.

O envio da Força Nacional, como determinado pelo ministro da Justiça nesta segunda, tem um papel paliativo, segundo Melina Risso, diretora de programas do Instituto Igarapé. “Ela só funciona quando um rápido aumento de efetivo por um curto período de tempo possa ter algum efeito dissuasório. No caso de Manaus, pode ter algum resultado de curtíssimo prazo, mas está longe de resolver o problema”, diz.

Para reduzir a força das facções criminosas nos presídios, especialistas em segurança pública também costumam sugerir diminuir o número de presos provisórios, aplicar mais penas alternativas, aumentar as opções de trabalho e estudo para presos, reformar as penitenciárias e separar os presos provisórios dos condenados. “Além disso, é essencial que haja investimento na prevenção da violência para criar caminhos saudáveis para uma juventude vulnerável”, afirma Risso.

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