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Brasil

ACM Neto e Rueda recebiam 10% de aportes de previdências ao Master, inclusive os da Amazonprev, diz Vorcaro em proposta de delação

A proposta de delação afirma que ACM Neto e Rueda teriam atuado para abrir as portas ao Master no instituto de previdência do Amazonas.

O banqueiro Daniel Vorcaro afirmou, em proposta de delação, que os dirigentes do União Brasil ,ACM Neto e Antônio Rueda atuaram em favor do Banco Master em institutos de previdência dos estados em troca de 10% dos valores investidos na instituição. Entre os institutos, de acordo com o site UOL, estaria a Amazonprev – Fundação do Estado do Amazonas, gestora dos benefícios previdenciários de servidores públicos inativos e pensionistas.

Ainda de acordo com a delação, no Amazonas, a autorização do repasse de R$ 50 milhões ao Banco Master foi assinada por um presidente empossado 28 dias antes, ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

A investigação sobre os dois políticos veio à tona após o ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes divulgar um relatório de inteligência da Polícia Federal que cita a suposta demora do ministro André Mendonça em autorizar uma operação contra Rueda.

As propostas de delação de Vorcaro foram negadas pela PF e pela PGR (Procuradoria-Geral da República) por falta de informações inéditas e ausência de garantias para a devolução dos valores oriundos das fraudes. O banqueiro tenta reabrir as negociações por uma colaboração premiada, sem sucesso.

Procurado, Rueda, candidato a deputado federal no Rio de Janeiro e presidente do União Brasil, disse ter “dificuldade em se pronunciar sobre documento ao qual não teve acesso” e negou irregularidades.

ACM Neto, que é candidato a governador na Bahia pelo União Brasil, afirmou que as “insinuações são absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas” (leia a íntegra das manifestações ao final do texto).

Entenda abaixo os detalhes do que disse Daniel Vorcaro na terceira proposta de delação premiada enviada pelo banqueiro, a que o UOL teve acesso.

O que Vorcaro disse

A proposta de delação afirma que ACM Neto e Rueda teriam atuado para abrir as portas ao Master nos institutos de previdência do Rio de Janeiro, do Amapá e do Amazonas, além da Cedae (Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro).

Como resultado dessa movimentação, o Master teria captado R$ 2 bilhões, segundo relato do ex-banqueiro.

Pela versão de Vorcaro, a aplicação da alíquota de 10% teria gerado uma obrigação de R$ 200 milhões com os dois políticos do União Brasil. Ele não informou, contudo, quanto teria sido efetivamente pago.

Vorcaro afirmou também que, para “cada grupo político que captasse o investimento, seria destinado 10% do valor da aplicação ou 1% por ano que o recurso ficasse investido no Banco Master”. O ex-banqueiro não explicou como era feita essa escolha.

Um anexo da proposta de delação trata especificamente da “captação de recursos públicos promovida por Antônio Carlos Magalhães Neto e Antônio de Rueda”. Vorcaro disse que os pagamentos para os dois eram tão constantes que foi criada uma conta corrente no Master.

“Uma vez que ACM Neto e Antônio de Rueda intermediaram diversos negócios para o Banco Master, como o Credcesta, captação de investidores institucionais e intermediação junto ao BRB, sempre mediante o pagamento de vantagens indevidas, ambos passaram a ter uma espécie de conta corrente gerencial de valores a receber junto ao Banco Master”, diz o trecho da proposta de delação de Daniel Vorcaro.

O documento detalha como eram feitos os repasses para cada um dos políticos da cúpula do União Brasil. Para ACM Neto, Vorcaro diz que repassava valores de quatro formas distintas:

– em espécie, por meio de recursos de empresas e pessoas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo, dono da Entre Investimentos e Participações; mediante contratos fictícios de consultoria entre a A&M Consultoria LTDA e o Banco Master;

– mediante contratos fictícios de consultoria entre a A&M Consultoria LTDA e a Reag;

– mediante contratos fictícios firmados com a gestora de ACM Neto, a B6 Capital.

Já para Rueda, o banqueiro diz que usava dois métodos:

– em espécie, por meio de recursos de empresas e pessoas ligadas a Augusto Lima e Antônio Freixo, dono da Entre Investimentos e Participações;
– mediante contratos firmados entre empresas do conglomerado Master com o seu escritório de advocacia, o Rueda & Rueda Advogados, que previam, se somados, o pagamento de cerca de R$ 3 milhões por mês.

O ex-banqueiro apresentou mensagens trocadas com funcionários do Master e contratos com a A&M Consultoria Ltda (empresa de ACM Neto) e com o escritório de advocacia de Rueda.

Ele destacou que se reuniu com ACM Neto e Rueda na sede do Master, acompanhado de seu então sócio Augusto Lima, para “monitorar o andamento das demandas” sobre as “contrapartidas”.

A defesa de Lima diz que não vai comentar, “pois classifica esses relatos fictícios divulgados pela reportagem como um verdadeiro absurdo”.

Uma das evidências, segundo Vorcaro, é uma mensagem enviada a uma funcionária do Master no dia 13 de novembro de 2023, na qual ele pediu para que ela acrescentasse em sua agenda um encontro com Rueda às 17h30.

Em outra ocasião, recebeu dela: “Daniel, o Nando está perguntando sobre helicóptero para o ACM e Rueda. Se está tudo certo?”. Ele respondeu que sim.

Vorcaro conta que recebeu uma ligação de Rueda em junho de 2024. Era um convite para ele se reunir em Brasília com Paulo Henrique Costa, presidente do BRB (Banco de Brasília).

O encontro ocorreu na casa de Rueda, em Brasília, segundo a proposta de delação. O banqueiro diz que foi explicado a ele que o BRB enfrentava dificuldades para uma proposta de aumento de capital de cerca de R$ 1 bilhão, que não havia tido adesão do mercado.

“Rueda e Paulo Henrique Costa pediram que o colaborador conseguisse o valor para cobrir o aumento de capital do BRB em 2 ou 3 dias, que é quando se encerraria o prazo da proposta de aumento de capital”, diz a defesa de Vorcaro na proposta de delação.

O banqueiro relatou aos investigadores que, para convencê-lo, Paulo Henrique Costa se comprometeu a comprar ativos do Master pelo BRB “em até 10 vezes o valor investido e capitaneado pelo colaborador”.

Segundo Vorcaro, o negócio era atrativo ao Master e ele se propôs a ajudar no aumento de capital. “Já que não poderia deter mais de 5% do controle acionário sem divulgação do fato ao mercado, o colaborador adquiriu as ações por meio de fundos interpostos, administrados pela Reag, Trustee e pela Master Corretora”, continua.

Ainda de acordo com o ex-banqueiro, seu grupo aportou cerca de R$ 750 milhões no BRB. Em troca, o BRB comprou cerca de R$ 6 bilhões de carteiras do Master no mesmo período, em 2024.

“Além disso, Paulo Henrique Costa e Antônio de Rueda passaram a exigir como vantagem indevida 10% de comissão dos valores efetivamente desembolsados pelo BRB para compra de ativos do Banco Master, descontando-se as quantidades investidas a partir do colaborador no BRB, a exemplo do aumento de capital”, diz o trecho da proposta de delação de Daniel Vorcaro.

“Os pagamentos indevidos seriam divididos em 3 partes e beneficiariam diretamente Rueda, Paulo Henrique e ACM Neto”, diz outro trecho da proposta de delação de Daniel Vorcaro.

Vorcaro indicou que confirmações do relato poderiam ser obtidas pelo testemunho de João Carlos Mansur, dono da Reag, pela obtenção dos contratos fictícios e trocas de mensagens de seu WhatsApp.

Como mostrou o UOL, a delação de Mansur tem um anexo sobre ACM Neto, que investiu R$ 7,9 milhões em um fundo gerido pela Reag.

O que reforça o relato

A quebra de sigilo do Master já havia revelado contratos de consultoria assinados pelo banco com ACM Neto e de advocacia firmados com Rueda. Segundo disse Vorcaro às autoridades na proposta de delação, esses contratos seriam usados para justificar contabilmente parte dos pagamentos. Ou seja, eles existiriam somente para justificar a comissão aos políticos.

A cúpula de fundos de previdência citados e sua relação com o União Brasil também já era investigada pela Polícia Federal.

O ex-presidente do Rioprevidência Deivis Marcon Antunes foi preso pela PF em fevereiro deste ano. Ele foi indicado ao cargo por Rueda, em articulação com o governador Cláudio Castro (PL), segundo a investigação.

No Amapá, o aporte de R$ 400 milhões no Master foi aprovado por um comitê presidido por Jocildo Silva Lemos, ex-tesoureiro de campanha de Davi Alcolumbre (União Brasil) e indicado ao cargo pelo senador.

Já no Amazonas, a autorização de R$ 50 milhões foi assinada por um presidente empossado 28 dias antes, ex-contador da campanha de reeleição do governador Wilson Lima (União Brasil).

O que não está claro

Alguns pontos na proposta de delação deixam questionamentos abertos, de acordo com o site UOL:

O documento não informa quanto foi efetivamente repassado aos políticos. Das seis formas de pagamento que Vorcaro descreve, apenas uma informa o valor: os contratos com o escritório Rueda & Rueda Advogados, que somariam cerca de R$ 3 milhões por mês.

No total, os quatro investidores que Vorcaro diz terem sido levados ao Master por Rueda e ACM Neto aplicaram cerca de R$ 3,62 bilhões no Master, segundo dados já divulgados:

Rioprevidência: aplicou R$ 2,97 bilhões entre 2023 e 2025 em letras financeiras e fundos ligados ao banco;
Amprev, do Amapá: aplicou R$ 400 milhões;
Cedae: aplicou R$ 200 milhões;
Amazonprev: aplicou R$ 50 milhões.

O número é maior que os R$ 2 bilhões citados por Vorcaro —na proposta de delação, ele não deu detalhes sobre de onde vem essa soma e o porquê da diferença.

A proposta também não informa quanto cada fundo de previdência aplicou no banco nem cita qualquer dirigente. Também não descreve um ato concreto de ACM Neto ou de Rueda junto a qualquer um deles. Diz apenas que os dois “intermediaram” os investimentos.

Além disso, a quebra dos sigilos bancário e fiscal do Master e os relatórios do Coaf entregues à CPI do Crime Organizado mostram que Vorcaro repassou R$ 6,4 milhões para escritórios ligados a Rueda entre 2022 e 2025, um valor muito menor do que o relatado por Vorcaro.

A empresa de consultoria de ACM Neto também aparece nas planilhas, tendo recebido R$ 5,4 milhões de 2023 a 2025.

Pagamentos de demais instituições financeiras ligadas ao Master —como Vorcaro diz terem acontecido—, porém, não aparecem no relatório.

O ministro André Mendonça, relator do caso do Master, disse na decisão que afastou o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, que o relatório de inteligência divulgado por Moraes atrapalhou a operação contra Rueda.

A PGR se manifestou contra a busca e apreensão em Rueda, alegando fragilidade das provas —o relatório da PF indica que Mendonça decidiu separar a investigação sobre ele e ACM Neto.

Outro lado

Antônio Rueda:

“O presidente do União Brasil manifesta ter dificuldade em se pronunciar sobre documento ao qual não teve acesso. Reafirma, contudo, que todos os contratos firmados pelo escritório do qual foi sócio com as instituições referidas são lícitos, versam sobre objetos legítimos, e que os serviços contratados foram efetivamente prestados.

Destaca ainda que não exerce qualquer cargo público, de forma que qualquer alusão a propinas é absolutamente fora de propósito.

Todas as relações entre o escritório e a referida instituição decorrem de atividade profissional legítima e regular, plenamente compatível com o exercício da advocacia no país, no âmbito da representação de mais de 2 mil processos judiciais. Ao todo, foram mais de 20 mil protocolos, 400 audiências e cerca de 200 acordos firmados pelo escritório junto ao Poder Judiciário — volume que evidencia a natureza técnica e institucional do trabalho realizado.”

ACM Neto:

“ACM Neto afirma que essas insinuações são absurdas, completamente fantasiosas e mentirosas e que não tem como se manifestar sobre uma suposta proposta de delação que não foi aceita e nem assinada, e muito menos homologada. Isso é mais absurdo ainda num contexto em que, segundo a imprensa vem noticiando, outras propostas de delação já teriam sido recusadas por duas vezes pelas autoridades.

Não é possível, portanto, atestar a origem, a autenticidade ou a validade dos trechos apresentados. Neto diz ainda estranhar o vazamento para a imprensa de informações supostamente atribuídas a essa nova proposta de delação de origem desconhecida. Nesse contexto, ACM Neto considera completamente absurda qualquer alegação baseada em informações cuja veracidade sequer pode ser confirmada.

ACM Neto destaca ainda que, no período em questão, não exercia qualquer cargo público e tampouco teve qualquer atuação ilícita em benefício de quem quer que seja. Os serviços prestados foram realizados mediante contratos formais, com o devido recolhimento de impostos, e os trabalhos de consultoria contratados foram efetivamente executados, tendo se colocado, desde março de 2026, à disposição das autoridades para prestar todas as informações que se fizessem necessárias para o total esclarecimento dos fatos.”


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