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Servidor do STJ antecipava decisões para advogado amigo de Flávio, diz PF

Pradera foi exonerado pelo STJ na última sexta-feira, depois que o presidente do tribunal, Luis Felipe Salomão, abriu um procedimento interno.

O ex-secretário de Tecnologia da Informação do STJ (Superior Tribunal de Justiça) Humberto Fontoura Pradera vazava minutas de decisões para Willer Tomaz, advogado amigo de Flávio Bolsonaro, segundo investigação da PF (Polícia Federal), divulgadas pelo site UOL.

Pradera foi alvo de busca e apreensão nesta segunda-feira na Operação Linceu. O mandado foi expedido pelo STF (Supremo Tribunal Federal) em uma investigação de violação de sigilo funcional, peculato eletrônico, corrupção ativa e passiva e lavagem de dinheiro.

Pradera foi exonerado pelo STJ na última sexta-feira, depois que o presidente do tribunal, Luis Felipe Salomão, abriu um procedimento interno.

Um relatório da PF obtido pelo UOL mostra como documentos do STJ e pareceres do MPF (Ministério Público Federal) chegavam a Willer antes de serem publicados. As provas vêm de uma quebra de sigilo telemático do advogado em investigação da PF.

Foto da tela

Em outubro de 2024, Pradera mandou a Willer a foto de uma decisão da ministra Nancy Andrighi que ainda não tinha sido assinada. A decisão tratava da disputa entre a J&F e a Paper Excellence pelo controle da Eldorado Celulose.

A foto é de 24 de outubro. A ministra só assinou a decisão quatro dias depois, e a publicação oficial é do dia 30. Na decisão, a ministra rejeitou um recurso da J&F e da Eldorado, resultado favorável à Paper.

A imagem mostra o documento aberto na tela de um computador, com um carimbo sobre a mesa, num local que, segundo a PF, parece ser de trabalho. A PF identificou o texto comparando a foto com as decisões publicadas depois

Procurado na semana passada, Pradera disse que não tem acesso a processos em andamento e que seus acessos no tribunal são restritos.

Nas mensagens, o servidor também passava a Willer informações sobre demandas internas. Numa delas, contou que duas pessoas tinham sido designadas para cuidar de um assunto e disse que manteria o advogado informado.

Parecer antes dos autos

Willer também teve acesso a um parecer do MPF na disputa da Eldorado aparentemente no mesmo dia em que o documento foi anexado ao processo, em março de 2024. O arquivo, chamado “Parecer Formatado”, circulou com a mensagem “Irá logo mais para os autos”.

O parecer foi protocolado no STJ na manhã daquele dia, segundo o andamento do processo. É o mesmo recurso que Pradera mencionou na conversa em que mandou a foto.

No processo, a Paper atua por meio da CA Investment, empresa do grupo no Brasil. Willer não aparece entre os advogados da CA Investment, mas, segundo a PF, as mensagens mostram que ele atuava diretamente no caso.

As mensagens analisadas pela PF associam a esse trabalho um pagamento de R$ 12,3 milhões destinado à Difusora Comunicação, empresa ligada a Willer. O pagamento aparece vinculado a um contato salvo como “Marc Dhabi”.

Como Willer não era advogado formal da empresa no processo, o valor não seria pago como honorários. Nas conversas, os envolvidos discutem como justificar o recebimento, e surge a referência a uma “campanha de mídia”.

Os interlocutores também tratam de formalizar a atuação de Willer por meio da Zunway Limited, uma offshore, empresa aberta no exterior. As mensagens falam em pagamentos “de fora, via invoice” e dizem que, assim, “a blindagem fica total”.

Mensagem copiada no parecer

Segundo a PF, Willer discutia processos com o então subprocurador-geral da República Antônio Carlos Simões Martins Soares, que representava o MPF no STJ, e indicava as teses que considerava adequadas para os pareceres.

Num desses casos, trechos de uma mensagem enviada por Willer aparecem de forma quase literal num parecer do MPF entregue ao STJ em outubro de 2025. O processo é um recurso de Edemar Cid Ferreira, fundador do Banco Santos, contra a massa falida do banco.

Willer é um dos advogados de Cid Ferreira nesse processo, que ainda aguarda julgamento.

Os trechos sugeridos por Willer falam de um desconto de quase 90%, do valor de um fundo imobiliário chamado Eldorado, da exclusão de créditos considerados ruins e de laudos sigilosos.

Nas mensagens com Simões Soares, Willer tratavam de processos de seu interesse e de teses que o advogado considerava adequadas para a manifestação do MPF.

A PF lista sete casos em que Soares é suspeito de antecipar e moldar pareceres aos interesses de Willer. Ele se aposentou em março e chegou a ser cotado para procurador-geral da República em 2019, no governo de Jair Bolsonaro.

Ele não foi localizado pelo UOL para comentar. A investigação foi enviada ao MPF para opinar sobre o foro de Soares. Como subprocurador, ele seria investigado no STJ, mas, depois da aposentadoria, o caso tende a ir para a primeira instância.

Desistência na véspera

Na véspera de um julgamento marcado para setembro de 2025, Willer recebeu um voto desfavorável, ainda sem assinatura, num processo do senador Weverton Rocha (PDT-MA) contra a Editora Abril.

Cerca de duas horas depois, Weverton e a Abril protocolaram pedidos de desistência dos recursos. O caso foi retirado da pauta, e a desistência encerrou o processo sem julgamento.

Num processo sobre o terreno da antiga Academia de Tênis, em Brasília, o escritório de Willer recebeu a minuta de um acórdão, decisão de um grupo de ministros, dois dias antes da assinatura.

Antes dessa decisão, as construtoras defendidas por Willer tinham desistido de um recurso que já estava na pauta. O STJ reconheceu que herdeiros têm valores a receber delas, numa briga de R$ 176,4 milhões.

Relação com Flávio

Como o UOL revelou, Flávio aparecia como usuário master, com poder de gestão, da conta da Alcazar Holding, empresa ligada a Willer, no Santander. A PF levanta a hipótese de que o senador tenha participação de fato na empresa.

Uma empresa ligada ao advogado também comprou as passagens de viagens das duas famílias à Europa, segundo a PF.

Willer foi alvo de buscas em agosto, na Operação Sem Desconto, sob suspeita de lavar dinheiro desviado de aposentadorias para Weverton, que também é investigado.

Outro lado

Willer “nega categoricamente ter obtido acesso irregular ou não autorizado a decisões judiciais ou pareceres sigilosos, assim como ter interferido ou ajustado o conteúdo de manifestações do Ministério Público Federal”, segundo nota.

“As insinuações divulgadas são infundadas, distorcem o exercício regular da atividade profissional e configuram desinformação”, afirmou o advogado.

O STJ afirmou que Pradera ocupava cargo de confiança e foi exonerado. “As medidas criminais estão em andamento e são sigilosas, e sobre elas o Tribunal não vai se manifestar”, disse o tribunal.


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