Brasil
Estudo aponta risco de retrocesso na proteção da floresta amazônica no Brasil
Relatório inédito atribui queda do desmatamento à fiscalização e avalia que mudanças de governo podem comprometer a proteção da floresta.
(Foto: Fabio Rodrigues-Pozzebom/ Agência Brasil/Reprodução)
A retomada de políticas de proteção da Amazônia e o reforço da fiscalização no Brasil ajudaram a reduzir o desmatamento na América Latina e contribuíram para a queda da perda de florestas no mundo em 2025. Os avanços, porém, ainda são insuficientes para cumprir o compromisso de zerar o desmatamento até 2030 e podem sofrer reversões com mudanças de governo.
A conclusão consta da edição de 2026 do Forest Declaration Assessment, estudo inédito coordenado pela consultoria Climate Focus e divulgado nesta quarta-feira (14/10). O levantamento reúne mais de duas dezenas de organizações de pesquisa e da sociedade civil.
Segundo o relatório, medidas adotadas por países latino-americanos contribuíram para uma redução de 33% no desmatamento da região nos últimos cinco anos. Entre elas estão a retomada do plano brasileiro de combate à derrubada da Amazônia e o aumento da fiscalização. A melhora regional foi o principal fator por trás da queda mundial registrada em 2025.
Apesar disso, o mundo perdeu 7 milhões de hectares de florestas naquele ano. O volume foi 15% menor que o de 2024, mas ficou acima dos 4,2 milhões de hectares que, segundo os autores, seriam compatíveis com a trajetória necessária para chegar a 2030 sem desmatamento.
O resultado de um ano não compensa o atraso acumulado desde o compromisso firmado por 145 países na conferência do clima de Glasgow, em 2021. O estudo calcula que 10,7 milhões de hectares poderiam ter sido preservados desde então se a redução tivesse seguido o ritmo previsto.
Risco
O relatório avalia que a continuidade dos avanços latino-americanos depende das decisões de poucos governos. No Brasil, aponta que o resultado da eleição presidencial terá consequências para a proteção da Amazônia e para a manutenção das políticas adotadas pela gestão de Luiz Inácio Lula da Silva.
Essa disputa ocorre em um período de maior vulnerabilidade da floresta às mudanças climáticas. Os autores afirmam que a combinação de aquecimento e desmatamento pode comprometer a circulação de umidade e favorecer a transformação de áreas da Amazônia em ambientes mais secos e degradados.
O estudo também cita as pressões sobre a moratória da soja como exemplo da fragilidade dos compromissos voluntários. O acordo restringe a compra de soja produzida em áreas da Amazônia desmatadas após seu marco de referência.
Segundo o relatório, a retirada de incentivos fiscais por um estado brasileiro de empresas que seguem o pacto enfraqueceu o mecanismo.
A avaliação dos pesquisadores é que a proteção duradoura depende de legislação, fiscalização e garantia dos direitos territoriais de povos indígenas e comunidades locais. Compromissos empresariais, afirmam, ficam mais expostos a mudanças políticas e pressões econômicas.
Degradação
O levantamento também mostra que a redução do desmatamento não significa que as florestas estejam livres de danos. Incêndios e exploração de madeira degradaram 3,5 milhões de hectares de florestas tropicais em 2025, mesmo sem a remoção completa da vegetação.
Outro indicador, com dados de 2024, aponta que 23,1 milhões de hectares na América Latina tropical perderam integridade ecológica. Essa medida acompanha a fragmentação e a perda de capacidade das florestas de armazenar carbono, abrigar espécies e resistir a novas perturbações.
Enquanto a América Latina reduziu a derrubada, a bacia do Congo perdeu 2,4 milhões de hectares em 2025, quase o mesmo volume registrado em toda a América Latina tropical, de 2,5 milhões. Os autores associam a pressão na região africana à expansão agrícola, à extração de madeira e à mineração.
Para o Brasil, a preservação também tem implicações econômicas. O relatório destaca que a perda de florestas prejudica a disponibilidade de água, a produtividade agrícola e o abastecimento de cidades e indústrias.
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