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Queimadas disparam após eleição e geram destruição na Amazônia sob El Niño, apontam dados do Inpe
A média de focos de calor registrada até o dia 12 é de 130 por dia, o maior número para um mês de outubro desde 1998, início da série histórica do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
Municípios do Pará e do Amazonas estão registrando neste mês um aumento no número de focos de calor —que indicam queimadas na floresta. Em regra, outubro é um mês em que historicamente há redução de casos, após o pico entre agosto e setembro. Mas este ano registra uma tendência diferente, com altas especialmente após o primeiro turno da eleição, no dia 4. As informações são do colunista do Uol Carlos Madeiro.
O Amazonas registrou, em apenas 12 dias, 1.558 queimadas. É quase o dobro de outubro de 2025, com 874 focos em 31 dias. Como o estado enfrenta a seca provocada pelo El Niño, os focos de destruição se tornam ainda maiores.
A média de focos de calor registrada até o dia 12 é de 130 por dia, o maior número para um mês de outubro desde 1998, início da série histórica do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais).
O fogo tem levado nuvens de fumaça a cidades, onde reiteradamente a classificação do ar vem sendo apontada como “muito ruim”, inclusive na capital Manaus. O governo federal enviou ministros à cidade no feriadão, reconheceu emergência em 36 municípios amazonenses e mandou reforços para ajudar no combate ao fogo.
No Pará, a situação também é crítica, com os focos registrados nos primeiros 12 dias superando os 3.682 dos 31 dias de outubro do ano passado. Neste ano, foram 4.397 focos de calor em outubro —só entre os dias 9 e 12, foram 2,2 mil.
A média de outubro no estado é a segunda maior da série histórica do INPE, com 366 casos diários, contra 373 em 2008.
Na lista de municípios mais afetados por queimadas no país entre os dias 11 e 12, todos são do Pará. Quando se olha toda a Amazônia, o número de focos de outubro (7.455 até o dia 12) já é praticamente igual ao de todo o mês em 2025 (7.868). Os dados do INPE são atualizados diariamente.
Ane Alencar, diretora de Ciência do IPAM (Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia), explica que o descontrole do fogo visto nos últimos dias é reflexo do período seco, que neste ano atrasou por conta do El Niño.
“Em agosto, a gente estava com focos muito abaixo da média. Setembro já se aproximou da média, e outubro está bem acima”, aponta.
Ela explica que o El Niño tem afetado a porção nordeste do estado. “Isso acaba se refletindo na região que tem queimado mais. Mas o fogo não começa só, são pessoas que estão colocando fogo”.
“A gente vê isso com muito mais intensidade na calha do rio Amazonas, entre o Amazonas e o Pará; e na porção norte da BR-319 (que liga Manaus a Porto Velho e está em obras para completar asfaltamento).”, situa.
Alencar conta que o IPAM fez um levantamento para ver como o fogo se comportou antes e depois da eleição na região campeã em focos no Amazonas. “A quantidade nesses 19 municípios mais que triplica entre os oito dias antes e oito dias após a eleição”, aponta.
“A maior parte do fogo está relacionado a áreas convertidas, que já foram desmatadas. Importante dizer que essa área da porção norte da BR-319 é de especulação”, situa.
Em comparação a 2023, quando o Amazonas enfrentou uma seca histórica também gerada por um El Niño, Sales explica que o estado sofreu com aumento no número de focos de incêndios, mas não como agora.
“Neste ano essa área tem muito mais fogo. A gente tem visto uma animosidade, e vimos que estão usando mais fogo depois da eleição. O maior problema é que, daqui para frente, a tendência é ficar mais seco e a floresta, mais inflamável. Será mais difícil controlar”.
O colunista da Folha informa que conversou com um líder indígena de um município que vem sofrendo com queimadas, que pediu para não ter nome ou local informado. Ele fala que o clima entre eles é de medo com o que virá após a eleição. “A gente sabe que deve piorar, porque agora foi vitória [de Flávio Bolsonaro] só no primeiro turno”, diz.
O receio, relata, acontece porque as invasões de terra para desmatamento e garimpo durante o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio, eram mais frequentes do que hoje em dia. “O Lula não fez tudo que se esperava [para dar proteção], mas nos sentimos mais seguros. Muita gente já começou a preparar áreas pensando no futuro com menor fiscalização.”
Segundo Ana Clis Ferreira, porta-voz da frente de Desmatamento Zero do Greenpeace Brasil, o que chama atenção nos focos de outubro é a velocidade com que o fogo se multiplicou, especialmente no Amazonas. “Temos um pico de 494 registros em um único dia (10) no estado”.
Ela cita que a maior parte desses focos está localizada em áreas de desmatamento recente. “Isso indica uso criminoso do fogo para limpeza de terrenos para implantação irregular de atividades econômicas, como a pecuária ou até especulação imobiliária.”
O Greenpeace afirma que os dados apontam que a maioria dos focos de calor está concentrada em áreas sem registro fundiário (36,8%) e em florestas públicas não destinadas (26,6%), o que indica a probabilidade de fogo para grilagem.
Ana cita que é necessária uma investigação rigorosa sobre a origem do fogo, os interesses envolvidos e os responsáveis por ele. “Não podemos descartar que existam pessoas se aproveitando das condições de seca para provocar incêndios e avançar sobre áreas de floresta”, diz.
No caso do Amazonas, o pesquisador Philip Fearnside destaca que não é apenas devido ao El Niño, como aponta o governo do Amazonas. “É resultado do conjunto de ações do governo que efetivamente encorajam a invasão de terras públicas e a substituição de pequenos agricultores por grandes fazendeiros, além de limitar a fiscalização”, diz.
Ele afirma que houve redução na fiscalização do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas no período de campanha. “Eu estava em Apuí quando a equipe foi retirada pouco antes do primeiro turno. É provável que seja ligada às eleições, pois qualquer fiscalização é impopular em frentes de desmatamento e queimada, e poderia afetar votos”, explica.
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