Conecte-se conosco

Mundo

Na ONU, Lula aborda temas da campanha e revela temor de derrota: “retrocesso”

Presidente dedica final de seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU para falar da proximidade das eleições e do risco de “retrocesso” com vitória de adversário.

Na tradicional abertura da Assembleia Geral da ONU, que anualmente cabe ao Brasil, Lula começou falando de temas globais, foi paulatinamente caminhando para assuntos de interesse do Brasil e dos recentes conflitos com os Estados Unidos e terminou esquecendo onde estava e falando diretamente sobre as eleições de 4 de outubro, alertando para o que considera o risco de “retrocesso”, ou seja, a própria derrota e a volta do bolsonarismo ao poder, que apresentou como uma decisão entre a democracia e o negacionismo. As informações são do jornal O Globo.

No geral, o discurso começou como o de um estadista consternado com os caminhos da Humanidade e terminou como o de um político local muito preocupado com a própria biografia e o risco de encerrar a carreira com uma derrota. Ou seja: o presidente brasileiro, muito aplaudido na parte inicial e bem menos na final, foi se apequenando à medida que “vestia a carapuça” dos assuntos que Donald Trump ou a família Bolsonaro conseguiram, de uma forma ou de outra, introduzir no debate eleitoral.

Jair Bolsonaro, nos quatro anos em que presidiu o Brasil e representou o país nesse espaço, sempre pecou por apresentar discursos canhestros eivados de platitudes, temas locais de zero interesse da comunidade internacional, desinformação travestida de dados e alta carga ideológica. Lula fugiu dessa armadilha na última quadra.

Nesta terça-feira, foi bem sucedido em listar os grandes desafios da ONU e dos países que a integram na atualidade: guerras que fogem ao controle, a perda de relevância do multilateralismo, o obscurantismo científico, com reflexos em discursos anti-vacina e a perda de tração da coalizão contra a emergência climática, os riscos trazidos pelo avanço sem regulamentação da inteligência artificial, o retrocesso no direito das mulheres e o intervencionismo dos Estados Unidos de Trump.

Por tudo isso, soou arriscado enveredar para assuntos internos, como o que chamou de pressão de empresas financeiras contra o Pix, as questões ligadas à segurança brasileira, o tarifaço e, principalmente, o processo eleitoral. Ainda assim, foram falas que faziam sentido com o conjunto do discurso, voltado a condenar as tentativas dos Estados Unidos de promover o que chamou de “recolonização” do sul global.

Já a menção, que parece ser entendida por Lula como obrigatória, a Cuba e Venezuela, fatalmente vai ser usada pelos seus adversários para lembrarem a conhecida dificuldade do presidente e do PT de condenarem sem senões as ditaduras de esquerda. Portanto, um tiro no próprio pé num momento da campanha eleitoral em que cada voto conta e cada erro pode ser fatal.

Justamente por essa conjuntura interna muito complexa, deixar o país em plena campanha para ir a Nova York participar da assembleia da ONU desde sempre era uma decisão que embutia um risco. Lula preferiu ir para ter uma espécie de palanque mundial para defender a soberania brasileira e alertar para a associação entre Trump e os Bolsonaro e os riscos que ela traz ao Brasil e à democracia como um todo.

O presidente foi interrompido 4 vezes por aplausos, o que mostra que continua um líder respeitado mundialmente. Mas é bastante duvidoso que a fala tenha produzido algum efeito positivo para ele num momento em que a avaliação de seu governo é insistentemente negativa e que o empate com o adversário que ele julgava fácil de bater o preocupa a ponto de ele atravessar o mundo para passar um baita de um recibo justamente na despedida do seu discurso.

Veja a íntegra do discurso de Lula.


Clique para comentar

Faça um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

15 + 15 =