Brasil
Produtora de Dark Horse usou verba de emendas em projetos fraudados, diz PF
A PF fala em suposto desvio de dinheiro público. Para os investigadores, há “claros indícios de favorecimento e desvio de valores”.
A Polícia Federal aponta que o ICB (Instituto Conhecer Brasil), ligado à produtora do filme “Dark Horse”, foi usado para receber dinheiro de emendas parlamentares em projetos sociais considerados fraudulentos. Ao todo, o deputado Mario Frias destinou R$ 2 milhões para a ONG.
A PF fala em suposto desvio de dinheiro público. A investigação aponta que a verba seria usada para “custear contratos celebrados de forma fraudulenta e cuja execução não atendeu às finalidades previstas”. Para os investigadores, há “claros indícios de favorecimento e desvio de valores”.
O inquérito cita dois projetos que receberam o montante de R$ 2 milhões: Jovem Empreendedor e Lutando pela Vida. As ações seriam executadas em Pirassununga, no interior de São Paulo, e desenvolvidas pelo ICB, que é presidido por Karina da Gama, produtora de “Dark Horse”.
As emendas foram enviadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP), que é também produtor executivo do filme. Ele é apontado pela Polícia Federal como “agente central” do suposto esquema. A PF apresentou trechos do relatório da CGU (Controladoria-Geral da União) que apontam que o ICB não comprovou capacidade operacional para desenvolver os projetos. A investigação aponta ainda que o instituto subcontratava empresas para a execução dos projetos. Depois de receber os repasses financeiros, as mesmas empresas faziam pagamentos à Go Up, responsável pela produção de “Dark Horse”.
As informações constam em decisão de Dino que autorizou operação da PF contra Frias, Karina e outros 47 alvos. O ministro retirou o sigilo da determinação ontem, após a Polícia Federal cumprir os mandados de busca e apreensão.
Supostas irregularidades nos projetos
Uma das emendas foi destinada ao projeto Jovem Empreendedor, que previa a implementação de uma metodologia de letramento digital e empreendedorismo para estudantes do 4º e 5º ano do ensino fundamental de escolas públicas municipais de Pirassununga. No entanto, diretores de escolas e moradores da cidade afirmaram ao UOL que nunca ouviram falar do projeto.
A PF identificou vínculos societários cruzados entre as empresas subcontratadas para execução do projeto e doadores de campanha de Frias. Algumas dessas empresas também estão instaladas no mesmo endereço, tem o mesmo proprietário ou pertencem ao mesmo grupo empresarial.
Duas editoras de livros ligadas ao empresário Heric Dias receberam R$ 700 mil do ICB pelo Projeto Jovem Empreendedor. Pouco tempo depois, a NTT Brasil Ltda, também ligada a Heric, efetuou uma transferência de R$ 750 mil para a Go Up, produtora vinculada ao filme Dark Horse.
A investigação também cita a apresentação de orçamentos idênticos por três empresas de material didático, com a mesma estruturação, etapas do projeto e o mesmo valor. A CGU constatou, após análise dos metadados dos arquivos, que os três orçamentos foram criados pela mesma autora e no mesmo dia, com intervalo de 13 minutos.
As videoaulas do projeto Jovem Empreendedor foram disponibilizadas em 31 de maio de 2026, fora do prazo previsto. Segundo a auditoria, no dia 1° de julho, os vídeos tinham apenas sete visualizações, números incompatíveis com a proposta apresentada pelo ICB, que prometia o atendimento de 2.250 estudantes.
O instituto também pagou R$ 50 mil a MM7 Comunica por serviços de publicidade, mas não foram encontradas evidências de divulgação do projeto. A empresa pertence a Marcelo Machado, que na época da contratação era funcionário do próprio ICB e vice-presidente da ANC, também ligada a Karina.
A outra emenda foi destinada por Frias para o projeto Lutando pela Vida, que forneceria aulas de jiu-jisu para crianças de Pirassununga. A PF aponta “indicativos da prática de crimes de peculato, fraude em licitação ou contrato, contratação direta ilegal, falsidade ideológica, lavagem de dinheiro”, entre outros.
Segundo a investigação, o ICB apresentou notas fiscais de compra de 16 itens, entre quimonos, faixas, uniformes e 120 placas de tatames. O instituto teria pago R$ 457 mil à empresa Pulsa Uniformes e Camisetas Personalizadas em 26 de maio sem receber os itens acordados.
O instituto apresentou documento que dizia ter recebido parcialmente os materiais. A empresa, no entanto, disse à CGU que não entregou os itens. A auditoria citada pela Polícia Federal diz ainda que uma segunda empresa comprovou ter vendido ao instituto 120 tatames no valor de R$ 58,8 mil. O lote do material teria sido retirado da fábrica em 12 de abril.
Outra suposta irregularidade apontada pela PF é a contratação feita pelo instituto a uma pessoa que doou R$ 4 mil à campanha de Mario Frias em 2022. Segundo a PF, Rudyge Alex Scatolini Boldrini também trabalhou na equipe do deputado entre agosto e outubro daquele ano como “prestador de serviço” e recebeu R$ 7,5 mil. “Ele teria constituído microempreendedorismo individual poucos dias antes da contratação [pelo ICB], com possível assinatura retroativa do respectivo contrato”, afirma a PF.
Boldrini foi eleito para o conselho fiscal do instituto em 2024, mas renunciou ao cargo no fim daquele ano. “A primeira nota fiscal para o ICB já foi emitida em 9 de março de 2026, antes mesmo de todas as assinaturas no contrato, que prevê a prestação de serviços de coordenação técnica e organizacional das atividades de jiu-jitsu”, aponta a investigação. Segundo os agentes, o contrato teria vigência de 23 meses, no valor total de R$ 105.033,41.
A PF aponta que a execução do projeto não foi comprovada. O ICB apresentou fichas de matrícula dos alunos, planilhas de frequência, fotografias e um relatório parcial. A CGU, no entanto, concluiu que os documentos são insuficientes, já que as planilhas de frequência foram preenchidas pela equipe do projeto, sem a assinatura dos alunos.
Emendas barradas
A ANC (Academia Nacional de Cultura), ONG comandada por Karina da Gama, também é investigada. Os deputados Marcos Pollon, Bia Kicis e os ex-deputados Carla Zambelli e Alexandre Ramagem, todos do PL, enviaram R$ 2,6 milhões em emendas Pix à entidade para a produção da série documental “Heróis Nacionais”, em junho de 2024. Segundo a PF, os repasses não se concretizaram por causa de impedimentos normativos e técnicos. A entidade não adquiriu os direitos autorais necessários para produzir a série, segundo apurou o site UOL
Além disso, Pollon foi eleito por Mato Grosso do Sul e Kicis pelo Distrito Federal, enquanto as emendas parlamentares em questão foram destinadas ao estado de São Paulo. Segundo a PF, isso revela “aparente desconformidade com a exigência de absoluta vinculação federativa estabelecida nas decisões supracitadas”.
Na decisão, Flávio Dino suspendeu as atividades econômicas do ICB e da ANC e apontou “reiteradas evidências” de que as entidades não atuam de acordo com suas finalidades, mas sim como “instrumentos para operacionalização das atividades da organização criminosa”.
Outro lado: Em vídeo publicado em redes sociais ontem, Mario Frias criticou a operação da PF e as investigações, classificando a ação de “cortina de fumaça em ano de eleição”. “Não existe mandado de prisão contra mim e nem contra ninguém”, afirmou. Frias defendeu as emendas parlamentares destinadas por ele e alega que a defesa pede acesso ao inquérito há meses.
Em manifestações ao STF, Pollon, Kicis e Zambelli negaram irregularidades ou qualquer intenção de desvio dos recursos para Dark Horse e disseram que as verbas seriam destinados para a série Heróis Nacionais. Pollon afirmou ainda que, como o projeto não andou, pediu o cancelamento da emenda e o redirecionamento do valor para um hospital.
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