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Eventos climáticos extremos estão atingindo parte inesperada da Amazônia, aponta estudo

Região centro-norte, antes considerada menos vulnerável, registra avanço acelerado de calor intenso e estresse hídrico, com impactos sobre a floresta, a fauna e as populações locais.

O riacho Tiaracá, no Parque Nacional do Jaú, no Amazonas, em setembro de 2024, durante a seca extrema. A navegação pelo riacho só era possível remando, pois o nível da água estava muito baixo para o motor de popa (Foto: Cássio Alencar Nunes/Reprodução)

A região centro-norte da Amazônia, marcada por extensas áreas de floresta, savanas e importantes territórios indígenas, está entre as localidades que mais rapidamente vêm registrando aumento de eventos climáticos extremos, sugere nova pesquisa, encabeçada por uma equipe de mais de 50 cientistas internacionais. A constatação contrasta com avaliações anteriores, baseadas apenas nas temperaturas médias, que apontavam a Amazônia Meridional como a porção de aquecimento mais acelerado.

Detalhes das descobertas foram descritos em um artigo publicado nessa quarta-feira (9) na revista Communications Earth & Environment. Nele, é destacado que aproximadamente 10% da Bacia Amazônica — mais de 700 mil km², uma área superior ao território do Afeganistão — apresentou aumento de pelo menos 0,75ºC por década nas temperaturas extremas durante a estação seca. Desde 1981, o avanço acumulado na região supera 3,22ºC.

A fim de comparação, vale lembrar que, em média, a temperatura da Amazônia tem crescido cerca de 0,21ºC por década. Ou seja, os dados levantados pelos autores indicam que os episódios excepcionalmente quentes e secos no centro-norte têm avançado em um ritmo bem mais acelerado do que no resto do território ocupado pela floresta amazônica.

Resultado surpreendeu os pesquisadores

A Amazônia Meridional, onde o desmatamento e as mudanças no uso da terra foram intensos nas últimas décadas, continua sendo a região de aquecimento mais rápido quando se considera a temperatura média. Mas o cenário muda quando os pesquisadores analisam os anos mais excepcionais de calor e seca.

Nesse recorte, é a região centro-norte que aparece como a área de crescimento mais rápido dos eventos extremos. “Estamos mais interessados nos fenômenos ocorridos quando as condições climáticas são mais quentes e secas, pois é nesse período que as altas temperaturas podem causar os maiores danos”, explica o professor Jos Barlow, da Universidade de Lancaster, na Inglaterra, e principal autor do estudo, em comunicado.

Segundo o pesquisador, esse tipo de análise já havia sido realizado no sul da Amazônia, mas não para todo o bioma. A dificuldade está também na diversidade climática da floresta, que inclui áreas ao norte do Equador com períodos de estiagem diferentes daqueles observados em outras partes da região.

Distribuição espacial das mudanças climáticas na Amazônia ao longo de 43 anos (1981–2023). As taxas de variação decenais foram calculadas por célula de grade, com resolução espacial de 11 km, para (a) a temperatura média e máxima, (b) o déficit médio de pressão de vapor (VPD) e (c) o déficit hídrico cumulativo máximo (MCWD). — Foto: Jos Barlow et al.

Para entender essas diferenças, a equipe dividiu o olhar para a Amazônia em células de aproximadamente 11 quilômetros e combinou dados de temperatura e chuva obtidos por satélites e estações meteorológicas locais. Dessa forma, foi possível identificar a estação seca de cada área individualmente e calcular as mudanças ocorridas entre 1981 e 2023. Também se empregou uma medida de déficit hídrico, que indica o quanto uma região está sujeita à falta de água disponível e leva em conta que temperaturas mais altas aumentam a perda de água para a atmosfera.

Os cientistas fizeram duas formas de análise. A primeira, chamada de “tendência central”, considera a mudança média registrada ao longo dos anos. A segunda, denominada “tendência extrema”, dá mais peso aos períodos excepcionalmente quentes ou secos. Essa segunda abordagem é importante porque os efeitos mais graves para a floresta e para as pessoas nem sempre ocorrem quando a média climática muda, eles podem aparecer justamente durante episódios fora do padrão.

“As taxas de mudança nos eventos climáticos extremos são muito maiores do que as taxas de mudança do clima médio na Amazônia, e as regiões mais afetadas também são diferentes para os extremos e para o clima médio”, afirma Nathália Carvalho, pesquisadora de pós-doutorado no Lancaster Environment Centre, também na Inglaterra, e coautora do estudo. “Isso é importante porque mostramos que o clima da Amazônia não está mudando de forma uniforme. Essa informação é crucial para o planejamento e a implementação de estratégias de adaptação às mudanças climáticas.”

Eventos extremos ampliam os impactos locais

O agravamento dos extremos climáticos pode ter consequências que vão muito além do registro de temperaturas mais altas. Períodos excepcionais de calor e seca favorecem incêndios, aumentam a mortalidade de árvores e animais e podem prejudicar a saúde humana.

Há evidências recentes de impactos sobre a fauna amazônica, incluindo o primeiro episódio observado de morte em massa de mamíferos na região, com preguiças e outros animais encontrados mortos no solo da floresta ou pendurados em árvores. Estudos também apontam redução no tamanho de populações de aves e mudanças na expectativa de vida, aparência e comportamento desses animais.

A combinação de calor, seca e incêndios também pode piorar a qualidade do ar. Na região de Manaus (AM), por exemplo, grandes queimadas já contribuíram para episódios de intensa poluição atmosférica. Ao mesmo tempo, o baixo nível dos rios afeta o transporte, o acesso a serviços e a vida cotidiana das populações que dependem deles.

Os efeitos também atingem diretamente os meios de subsistência de comunidades tradicionais amazônicas. “Eventos climáticos extremos estão impactando os meios de subsistência locais de diversas maneiras, afetando produtos essenciais como o açaí”, observa Joice Ferreira, da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária) Amazônia Oriental, em Belém (PA), e colaboradora do estudo.

Tais alterações podem reduzir a proteção oferecida pela floresta, ameaçar a segurança alimentar e enfraquecer o papel dos recursos naturais em uma economia baseada na biodiversidade. “O mais preocupante é que isso pode comprometer políticas públicas que estão sendo elaboradas e implementadas pelos governos brasileiro e estaduais para impulsionar transformações positivas na região, como os planos de restauração florestal”, avalia Ferreira.

Alerta para os próximos anos

O estudo ganha relevância, sobretudo, diante da possibilidade de novos episódios extremos. O El Niño de grande intensidade esperado para 2026 poderá trazer temperaturas muito elevadas e condições de seca para a Amazônia apenas dois anos depois da grande seca registrada em 2024.

“Medidas de adaptação são urgentemente necessárias para lidar com os impactos dessas mudanças climáticas extremas e rápidas, incluindo a prevenção de fatores que amplificam os riscos climáticos, como o desmatamento”, pontua Barlow. Ele também defende a necessidade de apoio ao combate aos incêndios florestais e às populações afetadas quando os rios usados para navegação secarem.

Mike Barrett, consultor científico-chefe do WWF (World Wide Fund for Nature) do Reino Unido, que também contribuiu com o projeto, avalia que os resultados reforçam a necessidade de reduzir as emissões responsáveis pelo aquecimento global. “O rápido aumento dos extremos climáticos revelado neste estudo destaca a necessidade urgente de ação global contra as mudanças climáticas”.

Para Barrett, também será necessário ampliar medidas de proteção da floresta e iniciativas de financiamento da conservação para evitar que a Amazônia se aproxime de pontos de inflexão. Isso é, situações em que as alterações ambientais são tão profundas que podem desencadear mudanças difíceis ou impossíveis de reverter.


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