Brasil
Estiagem já reduz navegabilidade de rios na Amazônia, e donos de navios aplicam sobretaxa
Diante da seca, armadores (donos de navios) anunciaram sobretaxas às empresas que contratam o serviço.
A previsão de estiagem mais severa no Norte, agravada pelo El Niño, já provoca mudanças na logística de empresas de transporte de cargas na região amazônica. E, sob temor de tempestades no sul do país, concessionárias de rodovias se mobilizam para evitar grande impacto sobre a infraestrutura das estradas. As informações são da agência de notícias Folhapress.
Diante da seca, armadores (donos de navios) anunciaram sobretaxas às empresas que contratam o serviço. A MSC Brasil divulgou, em comunicado em agosto, a implementação da “Low Water Surcharge” (sobretaxa por baixo nível de água) para todos os embarques com destino a Manaus a partir de 5 de setembro.
A empresa cobrará sobretaxa de US$ 1.400 (mais de R$ 7.200 na cotação atual) por contêiner seco e US$ 1.900 (cerca de R$ 9.900) por contêiner refrigerado.
“É importante destacar que a Low Water Surcharge é uma cobrança excepcional e temporária, causada por condições extraordinárias de navegação, que poderá ser revisada, avaliada e excluída com base na gravidade ou melhora da seca e nas mudanças nas condições de calado do rio Amazonas”, escreveu a MSC Brasil em comunicado.
Também neste mês, a Ocean Network Express anunciou a clientes que aplicará a sobretaxa para importações de todas as origens para Manaus, a partir de setembro, e para exportações de Manaus para todos os destinos, a partir de outubro.
A taxa foi estabelecida em US$ 1.458 (quase R$ 7.600) por contêiner de qualquer tipo.
“As previsões atuais indicam uma redução significativa dos níveis de água nos próximos meses. Essas condições hidrológicas adversas previstas afetarão a navegabilidade e restringirão o transporte marítimo, resultando em custos extraordinários para a manutenção das operações do serviço”, escreveu a empresa em comunicado.
A previsão é de que rotas nacionais, entre estados, também sejam impactadas, segundo Augusto César Rocha, coordenador da Comissão de Logística do CIEAM (Centro da Indústria do Estado do Amazonas).
“A cabotagem [entre portos brasileiros] muito provavelmente vai cobrar também essa sobretaxa, só que, como as viagens dentro do Brasil são muito próximas, eles conseguem fazer isso muito mais perto do evento”, diz.
O Grupo Chibatão prepara novamente o uso de um píer temporário para viabilizar o tráfego de mercadorias nas hidrovias. A estrutura está em Manaus e deve ser deslocada para Itacoatiara (AM) entre setembro e outubro, com início da operação previsto para novembro.
O píer servirá para transbordo (transferência) das cargas dos navios para balsas, que são menores e mais leves e, por isso, conseguem navegar em águas mais rasas.
A estrutura tem 277,5 metros de comprimento e 24 metros de largura e é capaz de fazer sete movimentos de guindaste por hora.
Johny Fidelis Ramos, diretor-executivo do Grupo Chibatão, estima que a companhia terá um custo adicional de R$ 80 milhões com o uso da estrutura, o que inclui gastos como pessoal, alimentação, hospedagem, combustível e transporte.
Anteriormente, o píer já tinha sido utilizado em 2024, quando o país registrou outro período severo de estiagem.
“Se não tem navio para descarregar, o impacto financeiro é gigantesco, porque toda a estrutura fica parada. Com o advento de movimentar parte dessa estrutura para Itacoatiara, não para o porto Chibatão. O impacto é mínimo possível”, afirma Ramos.
Em paralelo, a diminuição do calado no Canal do Panamá também deve impactar a logística do transporte marítimo de cargas no Brasil, de acordo com Leandro Carelli, sócio da consultoria Solve Shipping.
A autoridade portuária do canal do Panamá anunciou neste mês uma diminuição no nível máximo do calado para eclusas Neopanamax categoria de tamanho para navios, são os maiores que transitam pelo canal e os que mais pagam pedágio.
O patamar caiu de 50 pés (15,24 metros), adotado em condições normais, para 47,5 pés (14,48 metros), que será o limite a partir de 3 de setembro deste ano.
“Hoje a Zona Franca de Manaus e o Nordeste são atendidos majoritariamente por navios que saem da Ásia e cruzam o canal do Panamá. Essas limitações de calado significam menor capacidade nesses navios. Num primeiro momento, o impacto é sobre essas cargas”, diz Carelli.
Concessionárias de rodovias e companhia aérea monitoram cenário
Concessionárias de rodovias estudam medidas a serem implementadas para prevenir estragos nas estradas por causa de eventos climáticos extremos, como queimadas e tempestades.
Segundo Juliana Silva, diretora de sustentabilidade da Motiva (ex-CCR), o grupo definiu 5.000 medidas de mitigação que podem ser adotadas diante deste cenário. A empresa está definindo neste mês quais dessas ações serão prioridade.
“A ideia é, ainda dentro do mês de agosto ou no comecinho de setembro, levar para a nossa diretoria executiva, para que eles aprovem essa proposta e tudo que for necessário colocar em orçamento ou discutir com o poder concedente”, afirma Silva.
Fausto Camilotti, diretor de operações da Motiva, diz que essas medidas podem ser mais simples, como limpeza das estradas e obras de contenções em taludes, ou mais complexas, como alterações em tabuleiro de ponte (parte superior, sobre a qual transitam veículos, pedestres ou trens). Nesse último caso, a empresa pode acionar o poder público para obter ajuda de recursos.
A Motiva foi impactada financeiramente nos últimos anos por catástrofes climáticas. As enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024 e as fortes chuvas que assolaram a Rio-Santos (BR-101) em 2022 causaram um prejuízo de cerca de R$ 500 milhões à companhia.
A EcoRodovias afirma, em nota, que tem estudos de vulnerabilidade climática e um plano de adaptação para orientar investimentos, intervenções preventivas e protocolos operacionais em eventos extremos, como chuvas intensas, inundações, deslizamentos, calor, incêndios e ventos fortes.
Os diagnósticos definem prioridades conforme os riscos de cada região e preveem medidas como melhorias na drenagem, adequações estruturais, estabilização de encostas e proteção contra incêndios e altas temperaturas, além do uso de tecnologias de monitoramento.
A companhia aérea Azul afirma que mantém uma equipe de meteorologistas no Centro de Controle Operacional para monitorar as condições climáticas 24 horas por dia e antecipar impactos sobre os voos.
A empresa diz que investe em tecnologias para ampliar a capacidade de identificação e monitoramento de fenômenos meteorológicos. A companhia estuda adotar novas ferramentas para monitorar turbulências, como o uso dos dados de vibração captados pelos tablets utilizados pelos pilotos, que podem contribuir para a identificação antecipada de áreas de instabilidade.
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