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Temperatura dos oceanos em 2026 é a mais alta já registrada, aponta Serviço de Mudanças Climáticas da União Europeia

Informe do Copernicus, divulgado nesta segunda-feira, afirma que média global diária da temperatura da superfície do mar atingiu 21,1ºC, batendo o recorde registrado em 2024.

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Nem chegou ao fim e 2026 já bateu um recorde de temperatura dos oceanos. O Serviço de Mudanças Climáticas Copernicus (C3S), da União Europeia, informou nesta segunda-feira que a média global diária da temperatura da superfície do mar atingiu o seu nível mais alto já registrado, superando o recorde anterior estabelecido em março de 2024.

Em 22 de agosto, a temperatura global dos mares chegou a 21,1°C. O recorde anterior era de 21,09°C, em 21 de março de 2024. O conjunto de dados ERA5 do C3S remonta a 1979. Esse ano é usado como patamar porque marca o início do período em que os dados são mais confiáveis devido às observações por satélite.

Esse aumento combina a tendência de aquecimento dos mares associada às mudanças climáticas com um El Niño forte e que ainda está se desenvolvendo no Pacífico tropical e deve se fortalecer nos próximos meses. E, segundo as principais agências climáticas mundiais, pode chegar a uma potência nunca vista por qualquer pessoa viva hoje.

“O El Niño soma mais calor a um oceano que já vem aquecendo ao longo de muitas décadas como resultado das mudanças climáticas causadas pelo ser humano”, informa o Copernicus.

— Literalmente, estamos em águas nunca antes navegadas. Esses recordes mostram que a temperatura dos oceanos está sob enorme pressão devido ao excesso de calor na atmosfera — afirma Regina Rodrigues, professora de Oceanografia e Clima da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e uma das autoras do boletim que a Organização Mundial de Meteorologia (OMM) lançará em novembro sobre o aquecimento dos oceanos.

Os oceanos absorvem um terço do CO2 e cerca de 93% do excesso de calor devido às emissões de carbono provenientes da ação humana. Se não fossem eles, o planeta estaria ainda muito mais quente e as mudanças climáticas, mais dramáticas.

A intensificação recorde deste El Niño é parte das mudanças climáticas, dizem os cientistas. El Niño (quente) e La Niña (fria) são fenômenos naturais, partes da busca de equilíbrio da atmosfera.

Rodrigues explica que a La Niña empurra o calor para as águas mais profundas no Pacífico. Um El Niño ocorre quando a capacidade de absorção chega a determinado limite. Esse excesso de calor então é devolvido para a atmosfera. São ciclos naturais, mas sua frequência e intensidade têm mudado.

Antes, El Niños fortes costumavam ocorrer a cerca de cada 15 anos. Em 2015/2016 passaram a nove; e, a três anos, após três La Niñas praticamente seguidas e uma breve neutralidade.

Os climatologistas do Copernicus ressaltaram que “esse marco é consistente com o contínuo aquecimento de longo prazo do oceano global e com o surgimento de um evento extremo do El Niño no Pacífico tropical”.

Cenário imprevisível a curto prazo

Um fato que chama a atenção é a época do ano em que o recorde ocorreu. As temperaturas globais do oceano são tipicamente mais altas em março e abril, após o verão no Hemisfério Sul. Porém, este ano o recorde foi alcançado em agosto.

“Este recorde diário mais recente segue-se a uma sucessão de recordes e quase-recordes mensais da temperatura da superfície do mar observados ao longo de 2026 em todo o oceano extrapolar (60°S a 60°N), sublinhando o aquecimento persistente visto em grande parte do oceano global”, diz o informe do Copernicus.

Rodrigues destaca que esse El Niño é extraordinário não apenas pela intensidade, mas porque começou antes e se intensifica muito depressa.

— Estamos num cenário nunca visto e imprevisível em curto prazo. Este El Niño não seguiu o ciclo normal dos Niños. Tanto pode seguir o curso deles quanto também chegar ao pico antes e mesmo terminar antes. Ou não. Impossível saber neste momento — afirma a cientista, uma das maiores especialistas do mundo em ondas de calor dos mares.

O cenário é imprevisível em curto e médio prazo porque os modelos trabalham com séries históricas e o clima agora não se comporta da mesma forma. Previsões que usem cenários podem dar um panorama do que pode ocorrer, mas sem a precisão necessária para curto e médio prazo.

Uma coisa que assusta especialmente os cientistas é o fato de o Pacífico Equatorial, onde o El Niño se forma, estar extraordinariamente quente em águas de subsuperfície, até 300 metros de profundidade. A anomalia passa de 8ºC. Muito maior que a da superfície, que está variando em torno de 2ºC. E se considera que há um El Niño com anomalias acima de 0,5ºC.

— Normalmente, a maior variação costuma ocorrer na superfície. Essa anomalia de subsuperfície realmente assusta — diz Rodrigues.

Ela enfatiza, todavia, que isso não significa necessariamente que o Brasil será afetado por extremos ainda piores que os de 2024.

— Nenhum El Niño é igual ao outro. E os desastres dependem de como este se comportará — diz a cientista.

A líder Estratégica para o Clima do serviço europeu meteorológico ECMWF, Samantha Burgess, diz que, à medida que as temperaturas dos oceanos continuam a subir, os riscos para os ecossistemas marinhos e comunidades costeiras também aumentam.

— As consequências já são visíveis. O número de dias de ondas de calor marinhas globalmente mais do que triplicou desde o início dos anos 1990, colocando uma pressão crescente sobre os ecossistemas marinhos e as comunidades que dependem deles — afirma Burgess.

Potencial para eventos extremos

Rodrigues complementa que as ondas de calor marinho são o indicador de mudança climática que teve o maior aumento.

Temperaturas mais elevadas dos oceanos aumentam o potencial para eventos meteorológicos extremos. Um oceano mais quente transfere mais calor e umidade para a atmosfera, potencialmente intensificando as chuvas e alguns sistemas de tempestades.

O oceano também se torna menos eficiente na absorção de dióxido de carbono da atmosfera e enfraquece um dos amortecedores naturais mais importantes contra as mudanças climáticas.

Outra consequência é a elevação do nível do mar por meio da expansão térmica. E temperaturas mais altas também aumentam a probabilidade e a intensidade das ondas de calor marinhas, que impactam ecossistemas e a pesca.

O Copernicus monitora a situação para determinar se o excesso na SST diária é temporário ou persistente.


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