Amazonas
Expedição inédita vai mapear a biodiversidade do topo da Serra do Aracá, no norte do Amazonas
A expedição representa a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira.
Imagem aérea da Serra do Aracá registrada em maio de 2026, durante sobrevoo para planejamento de expedição científica que vai investigar a biodiversidade da região (foto: Alexandre Percequillo/Reprodução)
No extremo norte da Amazônia brasileira, próximo à fronteira com a Venezuela, um conjunto de montanhas com altitudes que variam de 1.300 a 1.700 metros abriga ecossistemas únicos, compostos por uma diversidade de animais e plantas que os cientistas acreditam só existir ali, na Serra do Aracá.
É para esse ambiente de difícil acesso, praticamente inexplorado, que uma equipe de 16 pesquisadores brasileiros, de diversas especialidades, embarcará nesta segunda-feira (24/08), dando início à maior e mais complexa incursão científica já realizada naquela região. O trabalho de campo, previsto para durar três semanas, será acompanhado por jornalistas da Agência FAPESP.
A expedição representa a terceira e última etapa de um projeto de mapeamento da biodiversidade das terras altas da Amazônia brasileira, financiado pela FAPESP com apoio do Exército Brasileiro. Após desbravarem o Pico da Neblina, em 2017, e a Serra do Imeri, em 2022, os pesquisadores voltarão a atenção agora para a Serra do Aracá em busca de avançar no conhecimento sobre a história evolutiva das espécies encontradas no topo dessas montanhas de platôs planos, conhecidas como tepuis, cujas condições ambientais e climáticas são completamente diferentes das observadas nas terras baixas da floresta.
“A maior parte da baixa Amazônia está a menos de 100 metros de altitude e, embora ainda haja muito a ser estudado, a biodiversidade dessa área é relativamente bem conhecida. O mesmo não ocorre com a encontrada no topo dessas montanhas, por causa da dificuldade extrema de acesso”, diz à Agência FAPESP Miguel Trefaut Rodrigues, professor emérito do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo (IB-USP) e líder da expedição.
“Até então, grupos pequenos de botânicos e zoólogos coletaram plantas e animais na Serra do Aracá, mas ninguém chegou a áreas tão isoladas como as que vamos adentrar”, afirma o pesquisador, que é um dos zoólogos mais experientes do país.
Os tepuis do Aracá fazem parte de um complexo maior de montanhas, conhecido como Tulu-Tuloi, que foi adotado como nome oficial da expedição. O planejamento original previa a realização de coletas nos pontos mais altos dessas montanhas a, aproximadamente, 2.070 metros, mas o plano precisou ser revisto em função da impossibilidade de reconhecimento no local pelo Exército, responsável pela montagem dos acampamentos, abertura de trilhas, alimentação e segurança dos pesquisadores durante a expedição. O transporte até o local será feito de helicóptero, a partir de uma base operacional em Barcelos (AM), no rio Negro, a 220 quilômetros de distância do local de acampamento.
As descobertas acumuladas nas expedições anteriores justificam as expectativas dos pesquisadores em relação ao que poderão encontrar na Serra do Aracá. No Pico da Neblina, a equipe identificou e descreveu duas famílias inteiramente novas de sapos, além de outras duas espécies de lagarto do gênero Riolama, pertencentes a uma família característica daquela região montanhosa. Na Serra do Imeri, coletaram uma nova espécie de ave, um achado considerado raro na ornitologia moderna, além de outras espécies inéditas de sapos e até um gênero novo de caranguejo de água doce.
Enquanto a descrição de novos anfíbios e répteis ocorre com relativa frequência em áreas tropicais isoladas, encontrar uma nova espécie de ave é um evento pouquíssimo usual. “As aves representam um grupo muito mais bem conhecido que qualquer outra classe de animais”, compara Luís Fábio Silveira, diretor do Museu de Zoologia da USP e responsável pela descoberta. “Além dessa nova espécie de ave, temos uma outra em estudo”, conta o ornitólogo, que também participará da expedição à Serra do Aracá.
História evolutiva integrada
Na avaliação dos pesquisadores, os espécimes e as amostras de tecidos de plantas e animais que serão obtidos no Aracá, somados aos recolhidos no Pico da Neblina e no Imeri, permitirão começar a encaixar as peças do quebra-cabeça da biogeografia (o padrão de distribuição de espécies) nas montanhas amazônicas brasileiras, que contam uma história evolutiva integrada.
Como a maior parte da América do Sul permaneceu tectonicamente estável, o norte do Planalto das Guianas – onde estão o Pico da Neblina e as serras do Imeri e do Aracá – conservou-se praticamente inalterado desde que se separou do Planalto Central do Brasil, ao longo de todo o período Terciário (de 66 milhões a 2,6 milhões de anos atrás).
Em sua origem, a região consistia em um vasto platô contínuo. A partir do Cretáceo (entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás), a ação da água e dos ventos passou a esculpi-lo lentamente, abrindo vales profundos que fragmentaram o bloco original em pequenos maciços de altitude. Esse processo deu origem a uma dinâmica de especiação insular (quando a divisão de linhagens gera novas espécies distintas), criando “ilhas de pedra” cercadas pelas terras baixas da floresta. Esse isolamento converteu essas montanhas ou platôs isolados em refúgios únicos de espécies, explica Trefaut.
“Aquela região é, ao mesmo tempo, um berço e um museu de espécies. A especiação que ocorre ali é insular, porque o Pico da Neblina e as serras do Imeri e do Aracá funcionam como ilhas no continente, por causa do efeito da altitude. Essas áreas abrigam endemismos, ou seja, espécies que só existem ali e cujos parentes mais próximos só são encontrados em sistemas de montanhas, alguns situados a grandes distâncias geográficas, como na Mata Atlântica e nos Andes”, afirma.
A prova de que o Pico da Neblina e a Serra do Imeri estiveram fisicamente conectados no passado foi revelada na comparação entre as espécies de sapos coletadas pelos pesquisadores em expedições nas duas regiões. “Coletamos no Imeri a espécie irmã de uma das novas espécies que também pertence a um gênero novo de uma das novas famílias de sapos que encontramos no Pico da Neblina. Isso mostra que existiu, de fato, conexão entre essas duas áreas no passado”, afirma Trefaut.
Por outro lado, embora compartilhem esse parentesco, as montanhas amazônicas exibem um intrigante contraste com os campos de altitude do Sudeste brasileiro, como as serras do Caparaó, na divisa entre Minas Gerais e o Espírito Santo, e do Itatiaia, entre o Rio de Janeiro e Minas Gerais. Enquanto as espécies endêmicas do topo das montanhas dessas serras da Mata Atlântica derivam diretamente das que habitam a floresta localizada logo abaixo, as que habitam o topo dos tepuis amazônicos não têm qualquer relação próxima com a fauna da planície florestal vizinha.
“Nos tepuis, tudo o que está lá em cima não tem nada a ver com a Amazônia que está embaixo. São padrões completamente distintos de biodiversidade”, compara Trefaut.
Na fronteira entre o leste e o oeste
A escolha da Serra do Aracá como o terceiro vértice do triângulo das expedições científicas realizadas pelos pesquisadores às terras altas da Amazônia é fundamentada na singularidade geológica e biogeográfica da região. Do ponto de vista geológico, o Aracá é inteiramente moldado pela Formação Roraima, com platôs de arenito com cerca de 2 bilhões de anos de idade, sem qualquer afloramento de granito ou gnaisse – uma rocha metamórfica muito comum, formada sob condições de alta temperatura e pressão a partir da transformação de outras. Isso contrasta com o Imeri, onde o antigo platô de arenito foi completamente erodido, expondo o relevo residual de granito pré-cambriano, idêntico ao do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro, explica Trefaut.
A serra ergue-se exatamente na fronteira entre duas grandes províncias dos tepuis sul-americanos: a sub-região leste (cujo maior representante é o Monte Roraima) e a oeste (representada pelo Pico da Neblina). Os tepuis do leste (com limite próximo ao Monte Roraima) abrigam grupos exclusivos, como os sapinhos do gênero Oryophrynella. Do lado oeste, na região da Neblina, esse grupo não ocorre, dando lugar ao gênero Metaphriniscus e a um novo gênero descoberto pela equipe de pesquisadores.
“A Serra do Aracá está justamente no limite dessas duas áreas. Por isso, não temos ideia do que vamos encontrar lá”, diz Trefaut. “Pode ser que encontremos espécies que têm a ver com o leste e outras que tenham relação com o oeste. Conhecer o que tem lá vai nos ajudar a desvendar um pouco a história do relacionamento entre esses tepuis no passado também”, avalia.
O trabalho de campo será conduzido no Parque Estadual da Serra do Aracá, uma Unidade de Conservação de 1,8 milhão de hectares criada em 1990.
Técnicas inéditas de análises
A expedição reunirá especialistas de diversas frentes: botânica, palinologia (estudo de grãos de pólen), herpetologia (répteis e anfíbios), ornitologia (aves), mastozoologia (mamíferos), invertebrados e parasitologia.
Além de técnicas clássicas, os cientistas levarão inovações para otimizar as buscas no platô, como o uso de DNA ambiental (eDNA) – tecnologia voltada para analisar material biológico de animais disperso em amostras ambientais, tais como solo e água.
O emprego da técnica na expedição à Serra do Aracá foi motivado pela necessidade de identificar espécies que escapam dos métodos tradicionais de coleta, uma lição valiosa que os pesquisadores aprenderam na viagem à Serra do Imeri. Naquela ocasião, eles coletaram um girino que parecia comum, mas cuja análise laboratorial revelou tratar-se de uma espécie desconhecida de sapo da família Bufonidae.
“Quando fizemos as análises genéticas, nos demos conta de que pegamos o girino de uma espécie nova, mas não tínhamos coletado nenhum indivíduo adulto. Por meio do DNA ambiental, poderemos coletar material genético de animais que não pegarmos em campo”, projeta Trefaut.
Por meio dessa técnica de amostragem refinada, além de registrar anfíbios e outros animais difíceis de capturar, a equipe conseguirá mapear a biodiversidade microscópica local, detectando quais vírus e bactérias habitam esses ecossistemas isolados.
Em paralelo a essa varredura molecular, também serão extraídas amostras de sangue e realizadas coleta de endo e ectoparasitas de todas as espécies de animais capturadas pelas equipes de zoologia logo após o registro de cada exemplar. Essa análise conjunta de patógenos, vetores e microrganismos permitirá identificar precocemente agentes infecciosos nativos e compreender a saúde ecológica desse ambiente isolado antes mesmo de as amostras chegarem aos laboratórios de São Paulo. “Isso é muito importante, inclusive do ponto de vista de segurança nacional”, sublinha Trefaut.
A equipe também manterá gravadores autônomos em funcionamento contínuo nos dois acampamentos para capturar vocalizações de animais difíceis de avistar. Na área de herpetologia, serão conduzidos experimentos de preferência térmica com répteis – testes que identificam a temperatura ideal que o animal busca no ambiente para regular o próprio corpo. Na mastozoologia, o pesquisador Alexandre Percequillo utilizará uma centrífuga manual para realizar cariótipos (mapeamento cromossômico) de roedores diretamente no campo.
Muito além de catalogar formas de vida inéditas para a ciência, o projeto também pretende contribuir para desvendar como essas populações montanhosas flutuaram, encolheram ou se expandiram ao longo das eras climáticas.
O grande diferencial científico da pesquisa será confrontar essas dinâmicas com o comportamento das espécies que habitam os campos de altitude da Mata Atlântica (como nas serras de Itatiaia e do Caparaó), revelando como ecossistemas montanhosos situados em latitudes e realidades climáticas distintas respondem às transformações ambientais ao longo do tempo.
“Uma das perguntas que pretendemos ajudar a responder é o que aconteceu com a história demográfica dessas populações de espécies em latitudes muito diferentes de uma região não tropical. Queremos verificar se esse padrão é o mesmo”, diz Trefaut.
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